Europa enfrenta "crise da democracia e do capitalismo", diz escritora turca

A guerra da Rússia na Ucrânia e o impacto económico que está a ter na Europa colocaram a nu uma "crise de democracia" que não será corrigida com pequenas mudanças, alertou uma renomada escritora política turca.

"Há um pânico real na Europa e eu sinto isso em todos os lugares onde vou", disse à Euronews Ece Temelkuran, autora do livro de "How to Lose a Country: The 7 Steps from Democracy to Dictatorship", à margem de uma conferência em Bruxelas.

"O problema é que os debates globais ou o debate europeu sobre democracia têm duas artérias principais e uma delas está a tentar dizer-nos que se pudermos melhorar as coisas um pouco aqui e ali, se nos pudermos libertar deste ou daquele líder, tudo voltará a ser como antes. No entanto, penso que esta é uma crise mais profunda, e a crise da democracia está muito relacionada com a crise do capitalismo", argumentou Temelkuran.

A escritora alertou ainda, por exemplo, que "o mundo se está a tornar autoritário", mas ressalvou que líderes como o húngaro Viktor Orbán, o ex-presidente dos EUA Donald Trump, o ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson ou o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan não são os únicos culpados.

"Há pessoas na Europa a pedirem líderes autoritários", sublinhou, enfatizando também que "votar não é democracia".

O chamado retrocesso da democracia foi observado em todo o mundo nos últimos anos, inclusive nos EUA, Turquia, mas também em Estados-membros da União Europeia, como a Polónia e a Hungria, onde os partidos no poder enfraqueceram os mecanismos do Estado de direito.

Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, disse em setembro, durante o discurso anual sobre o Estado da União, que o executivo comunitário apresentará um pacote de Defesa da Democracia nos próximos meses.

"Trará à luz a influência estrangeira secreta e o financiamento obscuro. Não permitiremos que os cavalos de Tróia de qualquer autocracia ataquem as nossas democracias por dentro."

"Muitos de nós damos a democracia por certa há muito tempo", acrescentou.