Europa otimista sonha com noites de verão pós-pandemia

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - Vai ter verão neste ano na Europa, garantem avisos e ações de vários governos nas últimas semanas. A dúvida é para quem, onde e quão quente ele vai ser.

Vai ter verão porque "a Europa precisa de uma folga", slogan do programa que a Comissão Europeia lança nesta quarta (13) para reativar viagens e turismo. Exaustos do confinamento, todos querem mudar de ares, tomar sol, esticar as juntas e rever família ou amigos, diz o texto, mas os motivos não param aí.

Vai ter verão porque o setor sustenta 2,3 milhões de empresas (10% das não financeiras do continente), a maioria pequenas e médias. É uma receita que equivale a 3,9% do PIB da União Europeia e pode chegar a quase um quinto (18,4%) em países como a Croácia.

Contadas atividades correlatas --transporte e comércio, por exemplo--, a porcentagem mais que dobra, para 10,3% do PIB, fatia que nenhum governante pode se dar ao luxo de desprezar num ano em que a recessão prevista é de 7,4%.

Vai ter verão também porque o turismo garante 12,3 milhões de empregos diretos e impulsiona o serviço de outros 15 milhões, pagando o salário de 1 em cada 10 trabalhadores do bloco. Para segurar essas vagas na quarentena, governos europeus montaram esquemas bilionários, que já salvaram cerca de 30 milhões de empregos, mas têm prazo para acabar.

E vai ter verão porque, até segunda ordem, o pior da pandemia parece ter ficado para trás nos números e nas ruas. As mortes diárias caíram 70%, programas rastreiam de perto o contágio em muitos países e todos começam a religar os motores até a próxima segunda (18).

Mas ninguém está colocando o biquíni na mala ainda, porque, em ritmo de desconfinamento lento, gradual e progressivo, há países impondo quarentena de 14 dias para quem vem de fora, como o Reino Unido e a Espanha.

"É para arruinar os planos de qualquer um", diz o desenhista técnico suíço Aldrich Schmidt, 29, que costuma passar as férias em cidades da orla mediterrânea.

Ele ainda espera para comprar a passagem, mas já há esforços para fisgar os indecisos. Na Sicília, por exemplo, o governo regional promete pagar até 2 de 6 noites de hotel reservadas na ilha, uma das províncias italianas que mantiveram o coronavírus em níveis baixos --até esta segunda (11), os casos confirmados eram 2.972, menos de 1,5% do total do país.

Na Itália, estrangeiros respondem por metade das reservas em hotéis, e perdê-los neste verão pode tirar até 20 bilhões de euros (cerca de R$ 120 bilhões) da economia, segundo a agência nacional de turismo. Por isso, o governo nacional já avisou que suas fronteiras vão estar abertas no verão.

Na região costeira do Algarve, em Portugal, estrangeiros também são a maior fatia do público, tendo à frente os britânicos, que reservam 30% das 11 milhões de diárias nos 16 municípios da área durante o verão.

Para manter o fluxo, o presidente da associação Turismo do Algarve, João Fernandes, espera contar com a boa imagem construída pelo país durante o combate à pandemia.

Agora em fase de relaxamento, Portugal adotou rapidamente medidas de distanciamento, tem uma das maiores taxas de testes do continente e o número de mortes por 100 mil habitantes é 11,4, um quinto do registrado na vizinha Espanha.

"A eficiência da ação pública e privada ajuda a retomar a confiança, e é claro que não queremos desperdiçar esse capital", diz Fernandes. A região do Algarve trabalha num guia de boas práticas, e o governo português deve criar um selo de qualidade para atestar a segurança dos estabelecimentos.

A Grécia, que recebe 30 milhões de turistas por ano e registrou apenas 152 mortes por coronavírus até sexta, também planeja medidas para tranquilizar seus clientes e campanhas para divulgá-las.

Uma das propostas é que todo viajante seja testado para coronavírus ou anticorpos três dias antes de embarcar, a não ser que venha de regiões onde a pandemia está dominada.

O verão europeu do coronavírus deve ainda render fotos inéditas de banhistas usando máscaras, garçons com viseiras transparentes, ruas inteiras transformadas em restaurantes a céu aberto e motoristas que, além de água e balinhas, oferecem obrigatoriamente álcool em gel.

Ao menos um resultado já foi conquistado pelos esforços mediterrâneos: a companhia aérea de baixo custo Wizz Air anunciou que retoma os voos de Londres para Portugal em julho e para a Grécia em julho.

A KLM também voltou a voar diariamente de Amsterdã para Madri, Barcelona, Milão, Roma e Praga, mas o destino do setor aéreo ainda depende de soluções financeiras que mantenham em atividade grande parte das companhias.

As empresas têm lutado contra a exigência de voar com um terço dos assentos vazios, o que, segundo elas, é economicamente inviável.

Sempre será bom ter mais gente chegando pelos aeroportos, mas Fernandes, do Algarve, também está de olho nas estradas. Segundo ele, pela experiência de crises anteriores, como as de 2008 e 2011, "em momentos de incerteza, as pessoas tendem a ir mais perto e para onde já conhecem e têm certeza do que vão encontrar".

Em clima de #fiqueemcasa, o site de promoção turística da Escócia lançou uma campanha de fotos tiradas para janela para estimular seus habitantes a passarem férias no próprio país. "Temos paisagens diversas, cidades vibrantes e cenários estonteantes esperando por todos quando o isolamento terminar."

A tendência doméstica é confirmada pelo site de hospedagem Airbnb: na Dinamarca e na Holanda, as reservas feitas internamente em abril ficaram em 90% e 80% do nível de abril de 2019, respectivamente.

Noruega, Suécia, Suíça e Áustria também tiveram alta nas reservas domésticas no mês passado. O site não quis dar números sobre o verão, mas disse haver "motivo para otimismo".

Outros países têm falado em criar "bolhas de viagem" entre eles, pelo menos nessa fase inicial de descongelamento. Já foram propostas parcerias entre Alemanha e Áustria, um corredor seguro entre os três países bálticos (Estônia, Lituânia e Letônia) e um acordo para evitar quarentenas entre França e Reino Unido. A Croácia estuda uma bolha de segurança com Eslovênia, República Tcheca, Eslováquia, Áustria e Alemanha.

Os alemães, maior público consumidor de turismo na Europa, são cobiçados também pelo balneário espanhol das ilhas Baleares: o governo regional está estimulando a retomada de voos entre as ilhas e a Alemanha.

A sedução estrangeira terá que vencer a prudência local: no começo do mês, a chanceler Angela Merkel avisou numa entrevista que é cedo para sonhar com noites de verão internacionais. No Reino Unido, nesta segunda (12), o Ministério da Saúde também afirmou que "provavelmente" as férias deste ano no exterior estão canceladas.

Se os britânicos não chegarem na alta temporada, João Fernandes ainda vai esperá-los a partir de setembro, com um saco cheio de tacos a tiracolo. "O Algarve é o melhor destino de golfe do mundo, e àquela altura já se esperam mais ligações aéreas e mais confiança", diz ele.

Surfe, vela, turismo de natureza e de desportos também são a esperança para uma reta final de ano um pouco mais parecida com a de 2019. Fernandes quer ver os restaurantes do Algarve a todo vapor, servindo cataplanas (peixe, marisco ou carne cozidos lentamente em panelas de barro), "a melhor laranja do mundo" e aguardente da fruta medronho, "perfeita para fechar a refeição".