Europa pode viver epidemia de câncer na próxima década, alertam cientistas da Lancet

O continente europeu pode viver uma epidemia de câncer na próxima década, alerta uma nova publicação da Comissão de Oncologia da revista científica The Lancet. Publicado nesta semana, o relatório foi elaborado por cientistas de toda a Europa, que analisaram dados da doença e das pesquisas sobre o tema, identificando lacunas que podem permitir o avanço dos diagnósticos nos próximos 10 anos.

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Para reverter esse cenário, e atingir a meta de 70% de sobrevivência para todos os pacientes com câncer até 2035, eles recomendam medidas como aumentar o orçamento de estudos e focar no impacto da pandemia na epidemiologia da doença.

Inicialmente, os pesquisadores destacam que a pandemia da Covid-19 teve – e ainda tem – um papel central em expor deficiências em pesquisas sobre o câncer e nos sistemas de saúde europeus. Eles alertam que a emergência sanitária também atrasou diagnósticos de pessoas com a doença, o que leva ao início tardio do tratamento, comprometendo o potencial das terapias disponíveis.

"Estimamos que aproximadamente um milhão de diagnósticos de câncer foram perdidos em toda a Europa durante a pandemia. Estamos em uma corrida contra o tempo para encontrar esses cânceres ausentes. Além disso, vimos um efeito assustador na pesquisa do câncer com laboratórios fechados e ensaios clínicos adiados ou cancelados na primeira onda da pandemia”, alerta o professor Mark Lawler, da Queen's University, em Belfast, Reino Unido, presidente e principal autor da comissão da Lancet, em comunicado.

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"Estamos preocupados com o fato de a Europa estar caminhando para uma epidemia de câncer na próxima década se os sistemas de saúde e a pesquisa sobre o câncer não forem priorizados com urgência", complementa o especialista.

Mais precisamente, o relatório afirma que os médicos relataram 1,5 milhão a menos de pacientes com câncer no primeiro ano da pandemia, com uma a cada duas pessoas não recebendo a cirurgia ou a quimioterapia no momento oportuno. Também chama a atenção que 100 milhões de testes de rastreamento da doença foram perdidos, o que corrobora a estimativa de até 1 milhão de pessoas sem o diagnóstico.

Por isso, uma das principais recomendações dos cientistas é a aceleração de pesquisas sobre o impacto da Covid-19 na epidemiologia do câncer na Europa, tornando a doença um tema central nos esforços científicos daqui para frente.

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Guerra na Ucrânia e Brexit

Embora os cientistas demandem maior foco na pesquisa clínica, eles temem que a Guerra na Ucrânia seja um grande empecilho para esse avanço. No documento, eles ressaltam que Rússia e Ucrânia são dois países que investem de forma significativa nos estudos sobre o câncer, financiamento que pode ser afetado pela crise na região.

Além disso, avaliam que ensaios em andamento podem ser interrompidos devido à instabilidade tanto nas duas nações, como nas que fazem fronteira com elas.

"Esperamos que nosso relatório ajude a direcionar a atenção necessária para a preocupação e o impacto significativo que o conflito terá na pesquisa sobre o câncer, incluindo, entre outros, ensaios clínicos na Europa. Já existe uma crescente divisão leste-oeste na pesquisa europeia sobre o câncer e é crucial que a guerra Rússia-Ucrânia não aumente essa lacuna” afirma Andreas Charalambous, Presidente da Organização Europeia do Câncer, em comunicado.

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Além disso, a comissão acredita que a saída do Reino Unido da União Europeia, movimento chamado de Brexit, já afeta o andamento de estudos sobre o câncer no continente, impacto que deve continuar.

Eles compararam dados de pesquisa de antes e depois do Reino Unido deixar o bloco, e identificaram uma lacuna nos esforços científicos direcionados à doença com a saída das nações britânicas. Por isso, os pesquisadores pedem que a comunidade europeia busque mitigar esse impacto.

“A pesquisa do câncer no Reino Unido no mundo pós-Brexit está em uma encruzilhada, onde as decisões estratégicas determinarão se continuaremos a prosperar e fazer parcerias internacionais ou se o isolacionismo reduzirá nossa posição mundial”, afirma o professor Richard Sullivan, co-líder da comissão e professor de Câncer e Saúde Global no Instituto de Políticas do Câncer, da King's College de Londres, no Reino Unido.

"Se o Reino Unido não estiver envolvido na pesquisa colaborativa sobre o câncer na UE e não fizer parte da comunidade de pesquisa, isso terá um efeito extremamente prejudicial na atividade europeia de pesquisa sobre o câncer", acrescenta.

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Financiamento de pesquisa e desigualdade de gênero

A análise da comissão compara ainda os dados de investimento em pesquisas sobre o câncer na Europa e nos Estados Unidos, identificando um gargalo no continente. Entre 2010 e 2019, por exemplo, houve um financiamento público de cerca de 21 bilhões de euros, aproximadamente 26 euros por pessoa, na Europa.

Nos EUA, durante o mesmo período, foram em média 76 bilhões de euros, montante quase quatro vezes maior, representando 234 por pessoa. Por isso, os cientistas pedem a duplicação do orçamento europeu até 2030, chegando a 50 euros por indivíduo, especialmente na prevenção do câncer.

"Estima-se que 40% dos cânceres na Europa poderiam ser evitados se as estratégias de prevenção primária fizessem melhor uso de nossa compreensão atual dos fatores de risco do câncer. Já existem intervenções preventivas contra o câncer baseadas em evidências e econômicas disponíveis, e queremos ver implementação e comunicação mais eficazes destes em toda a Europa”, diz Anna Schmutz, da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, na França.

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"Além disso, até um terço dos casos de câncer na Europa têm maior probabilidade de ter um resultado melhor se forem detectados precocemente, mas, infelizmente, descobrimos que as taxas de testes de triagem variam amplamente entre diferentes países europeus", acrescenta.

Por fim, os cientistas chamam atenção para a desigualdade de gênero na pesquisa contra o câncer, destacando que menos de 33% dos responsáveis por projetos na área são mulheres.

"Nossos dados sobre mulheres autoras ilustram claramente a diferença de gênero significativa que existe na comunidade européia de pesquisa sobre o câncer. Mais pesquisas são necessárias sobre as razões pelas quais alguns países ou regiões europeus têm maior desigualdade de gênero na pesquisa sobre o câncer do que outros. Estratégias baseadas nesses dados esperamos melhorar o equilíbrio de gênero na pesquisa do câncer na Europa", defende a professora Yolande Lievens, do Hospital Universitário de Gante, na Bélgica.