Europa tenta domar desunião e cansaço para fazer frente à Rússia após 100 dias de guerra

MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - A União Europeia está unida e agindo rapidamente." Assim dizia Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, dois dias antes da invasão russa à Ucrânia, em fevereiro. Na ocasião, os 27 países-membros do bloco haviam acabado de concordar em adotar as primeiras sanções com o objetivo de deter a Rússia.

Nesta quinta (2), antes de o conflito chegar à marca de cem dias, um sexto pacote de restrições foi aprovado, mas uma declaração como a de Von der Leyen precisaria recorrer a outros adjetivos. A coesão no bloco está cada vez mais difícil de ser mantida, e as negociações não foram propriamente céleres, com um mês de duração.

Ainda assim, após altos e baixos, por linhas às vezes tortuosas, pode-se dizer que a UE segue na mesma direção -o que, segundo especialistas, configuraria algo sem precedentes, além de uma resiliência inesperada por Vladimir Putin.

O sexto pacote de sanções tem como principal medida o banimento do petróleo russo que chega por via marítima, o que deve suspender, num prazo de seis a oito meses, 90% da importação feita pela UE. "Isso vai reduzir a capacidade da Rússia de financiar sua guerra", disse Von der Leyen.

O consenso exigiu uma longa estrada de tratativas, que envolveu a isenção para o produto que chega via oleoduto, de forma a garantir a Eslováquia, República Tcheca e Hungria tempo extra para que diminuam a dependência dos russos. Nas últimas horas, outra vitória foi obtida pelo premiê húngaro, Viktor Orbán, líder da UE mais próximo de Putin. A seu pedido, o nome do patriarca Cirilo, chefe da Igreja Ortodoxa russa e próximo do presidente, foi excluído da lista de sanções individuais, que incluem congelamento de bens.

"O desempenho da União Europeia até agora surpreende positivamente, especialmente pelo compromisso obtido com o sexto pacote de sanções", avalia Eleonora Tafuro Ambrosetti, pesquisadora do Instituto de Estudos de Política Internacional, em Roma, especializada nas relações do bloco com Moscou. "Não porque o resultado seja ideal --ainda não é--, mas porque a UE se move com unidade e fazendo coisas antes impensáveis, do ponto de vista econômico, político e militar."

Como exemplos, ela menciona a destinação de EUR 4,1 bilhões para a Ucrânia desde a invasão, a adoção de sanções que repercutem na economia do bloco, elevando preços e gerando inflação, e a decisão histórica da Alemanha de enviar armas para os ucranianos.

Essa visão contrasta, de toda forma, com o clima de desânimo com que autoridades chegaram a ver as rodadas de discussão mais recentes, externado por dois proeminentes dirigentes da Alemanha, maior economia da UE. Robert Habeck, ministro da Economia, disse na véspera da reunião do Conselho Europeu que a coesão europeia começava a desmoronar. Annalena Baerbock, ministra das Relações Exteriores, em encontro do Conselho do Mar Báltico, definiu o momento atual como "de fadiga".

"Esse risco existe e se apresentará ciclicamente, enquanto se avança com medidas cada vez mais duras", diz Ambrosetti. É previsível que o embargo ao gás russo encontre até mais obstáculos dentro da UE, com a Itália assumindo a posição de vulnerabilidade dos três países isentados temporariamente do embargo --cerca de 40% do gás usado por Roma é importado da Rússia.

Outros focos de tensão passam pelo papel da Otan na segurança europeia: há países propensos a manter a dependência da aliança militar, concentrados a leste do continentes, e outros, notadamente a França, defensores do conceito de autonomia estratégica. E o alargamento do bloco --em relação à Ucrânia e àqueles já na fila, como Moldova, Geórgia e balcânicos ocidentais-- é uma pauta alemã.

"Rachaduras começam a aparecer, mas até agora o nível de unidade da UE é sem precedentes, diante da histórica divisão em relação à Rússia", diz Marie Dumoulin, diretora em Paris do programa Wider Europe do Conselho Europeu de Relações Exteriores. "É algo inesperado pelo Kremlin."

A francesa concorda que, quanto mais a guerra durar, mais difícil será manter a Europa coesa. As sanções tendem a ser crescentemente polarizadoras, uma vez que tocarão sempre mais fundo em pontos importantes da economia dos países-membros, com efeitos variados entre eles. Mas ela destaca um nó potencialmente complicado: a futura relação com a Rússia.

Dumoulin afirma que os cenários possíveis dividem os europeus quanto à reaproximação com Moscou. Se o significado do fim da guerra for uma vitória completa da Ucrânia, isso vai resultar também em uma Rússia, dona de um arsenal nuclear, derrotada.

"Nesse cenário, poderemos garantir a possibilidade de conversar com os russos?", questiona. Encontrar um equilíbrio entre o moralmente mais correto e a ameaça existencial é um desafio-chave que os líderes europeus enfrentam hoje, segundo ela. Se o cessar-fogo for consequência de um esgotamento de ambos os lados, os países vão se dividir entre retomar o envolvimento ou não com a Rússia.

E, no caso de o fim da guerra envolver concessões territoriais por parte de Kiev aos russos -algo que não tem apoio, por ora, de nenhum país ocidental--, novamente a construção de uma relação com Moscou vai trazer ruídos.

As tratativas sobre os objetivos da UE pós-conflito, diz Dumoulin, ainda são embrionárias justamente pelo potencial de desunião que embutem. "É uma conversa difícil, mas pode ser útil para a UE compreender os próprios interesses comuns e, a longo prazo, manter a unidade."

Ambrosetti também ressalta a importância desse debate. "Em algum momento, os líderes deverão sentar-se à mesa e discutir como será o relacionamento possível com a Rússia." Afinal, ela lembra, o país continuará na vizinhança. "Talvez, no futuro, não seja o fornecedor principal de energia, mas ainda será uma potência com política externa agressiva. Interessa aos europeus que seja estável."

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