Eurovision: Hungria sai do festival e imprensa europeia denuncia razões homofóbicas

RIO - Segundo fontes citadas pelo jornal inglês "Guardian", a recente decisão da Hungria de não participar ano que vem do Eurovision se deu porque a competição televisiva seria "gay demais" para o gosto do governo de extrema direita e dos chefes da mídia pública do país.

Embora nenhuma razão oficial tenha sido dada para a retirada, a medida ocorre em meio a um aumento da retórica homofóbica na Hungria, onde o primeiro-ministro, Viktor Orbán, lançou uma política de “a família em primeiro lugar” destinada a ajudar as famílias tradicionais e a impulsionar as taxas de natalidade no país.No início deste ano, o presidente do parlamento húngaro comparou a adoção por casais de mesmo sexo à pedofilia, enquanto um comentarista pró-governo da televisão se referiu ao Eurovisão como "uma flotilha homossexual".

Um funcionário da estação pública húngara MTVA afirmou ainda ao "Guardian" que esse afastamento da comunidade LGBTQ+ "faz parte da cultura organizativa" do canal. A MTVA teria, ainda, desencorajado qualquer tipo de cobertura positiva de situações envolvendo essa comunidade e a sua luta pelos seus direitos.

Escrevendo diretamente ao jornal britânico, a MTVA acrescentou que "em vez de participar na Eurovisão em 2020, vamos apoiar diretamente as valiosas produções criadas pelos talentos da música pop húngara". O festival acontecerá entre os dias 12 e 16 de maio em Roterdam, na Holanda, seguindo a tradição segundo a qual o país vencedor de um ano sedia a edição do ano seguinte (em 2019, na edição realizada em Tel Aviv, o primeiro lugar ficou com o cantor holandês Duncan Laurence).

Este ano, por sinal, o candidato francês ao Eurovison, Bilal Hassani, tornou-se alvo de ataques homofóbicos na internet por causa do visual “queer” que adotou em suas apresentações. Ele se apresentava como um fã de Conchita Wurst, personagem drag queen encarnada pelo austríaco Tom Neuwirth, que ganhou a atenção do mundo ao vencer a edição de 2014 do festival. Naquele mesmo ano, a Rússia teve seus competidores vaiados pelo público no estúdio, num protesto contra a adoção de uma legislação antigay e a anexação da Crimeia da Ucrânia.

Realizado pela primeira vez em 24 de maio de 1956, em Lugano, na Suíça, o Eurovision foi uma das primeiras tentativas de transmitir um evento televisionado ao vivo para um grande mercado internacional. Ele começou com artistas solo (duplas foram admitidas em 1957, mas grupos não tiveram permissão para competir até 1971) de apenas sete países. Esse número mais que dobraria quando o concurso de 1961 foi realizado em Cannes, França.

Inicialmente, os participantes eram avaliados inicialmente por um júri de representantes de diferentes países. No início do Século XXI, houve a adição de uma votação popular que permitiu que os espectadores participassem por telefone ou mensagem de texto.

Na maioria das vezes, o Eurovision apresenta artistas que são estrelas em seus países de origem, mas desconhecidos internacionalmente — e uma vitória ou mesmo só a participação pode ajudar a projetá-los para o mundo, como foram os casos do espanhol Julio Iglesias (1970), dos suecos do Abba (1974) e da canadense (que representava a Suíça) Celine Dion (1988).