Evangélicos caminham para racha em meio a disputa por espaços na Câmara

Divergências entre as principais lideranças evangélicas do país sobre a relação com o governo Lula (PT), após terem se engajado na campanha de Jair Bolsonaro (PL), ameaçam se desdobrar em divisões na Frente Parlamentar Evangélica (FPE) e no bloco do atual presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que tentará a reeleição em fevereiro.

O PL, partido que elegeu a maior bancada da Câmara (99 deputados), pleiteia a 1ª vice-presidência no bloco de Lira. O nome que vem se apresentando pelo partido é o do deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), ligado ao pastor Silas Malafaia, que tem reiterado nas últimas semanas sua contrariedade com a eleição de Lula. O PT, que pretende apoiar a eleição de Lira, e cuja federação com PCdoB e PV formou a segunda maior bancada (80 deputados), também tende a batalhar por postos de destaque na Mesa Diretora.

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Em paralelo ao nome de Sóstenes, o Republicanos, outro partido que se coligou a Bolsonaro, tem se movimentado para emplacar o presidente da sigla, deputado Marcos Pereira (SP), em uma vice-presidência. Considerado um nome de melhor interlocução com o PT e com o novo governo, Pereira vem reiterando, contudo, que seu partido se manterá “independente” na Câmara.

Pereira é bispo licenciado da Igreja Universal, cujo líder, o bispo Edir Macedo, fez acenos a Lula logo após o segundo turno, oferecendo seu “perdão” ao petista por declarações que teriam ofendido os evangélicos. A presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, rejeitou o aceno de Macedo e disse que o partido não tinha motivo para pedir perdão ao bispo.

Macedo e Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, têm um histórico de atritos, o que contribuiu para Bolsonaro não ter se filiado ao Republicanos em 2020, quando seus filhos Flávio e Carlos fizeram este movimento. Os pastores ficaram em lados distintos nas eleições de 2010 e 2014, quando Macedo apoiou Dilma Rousseff (PT), e também se desentenderam após Bolsonaro indicar Kassio Nunes Marques para a primeira vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) em seu mandato — Malafaia, que pleiteava a nomeação de um ministro “terrivelmente evangélico”, se irritou pelo aval da Universal à escolha do então presidente.

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Lideranças do Republicanos reconhecem que a preferência na distribuição dos blocos é do PL, mas apontam reservadamente que há “muita água para rolar” até a eleição. Sóstenes, por sua vez, garante que o PL não abrirá mão da vice-presidência. Além do deputado evangélico, outro nome que se articulou nos bastidores foi Domingos Sávio (PL-MG), que foi aliado de Aécio Neves no PSDB mineiro antes de migrar para o partido de Valdemar Costa Neto no ano passado.

— O PL tem um acordo com Lira pela vice-presidência, e até agora sou o nome que se apresentou. Quem já está no bloco somos nós, os outros partidos é que querem se juntar. Se alguém não concordar, que lance candidatura própria contra Lira e o nosso bloco — alfinetou Sóstenes.

Outro ponto de atritos é a escolha do novo presidente da bancada evangélica, no lugar de Sóstenes, cujo mandato se encerra em fevereiro. Dos quatro postulantes, dois despontam como favoritos: Silas Câmara (Republicanos-AM), ligado à Assembleia de Deus de Belém do Pará, e Otoni de Paula (MDB-RJ), pastor vinculado à Assembleia de Deus de Madureira. Também se apresentaram o deputado Eli Borges (PL-TO) e o senador Carlos Viana (PL-MG). Habitualmente, o presidente da bancada é escolhido por consenso, mas lideranças evangélicas admitem a possibilidade de que seja necessária uma votação.

Silas que presidiu a frente parlamentar evangélica entre 2019 e 2020, deve receber o apoio do partido, que tem cerca de metade de sua bancada na Câmara — 19 de 41 deputados — formada por evangélicos. Ele conta ainda com bom trânsito entre diferentes igrejas, e mediou um acordo entre Sóstenes e o deputado Cezinha de Madureira (PSD-SP), ligado ao ramo paulista da mesma igreja de Otoni, que evitou um racha na bancada no ano passado.

Otoni, que já se colocou como um dos principais apoiadores de Bolsonaro e chegou a ser investigado por atos antidemocráticos, tem buscado se apresentar como um nome com melhor diálogo com o novo governo. Ele compareceu às posses de ministros do MDB nomeados por Lula e tem criticado a postura do ex-presidente, por ter silenciado sobre protestos golpistas após a eleição.

— Se houver alguém com interesse de usar a bancada evangélica como oposição ao governo, não acho que seja esse o melhor caminho. Temos que estar abertos ao diálogo, sem ceder nenhum milímetro em nossa defesa da pauta conservadora, mas também sem recorrer a extremismos — disse Otoni, que classificou como “tentativa de fogo amigo” o vazamento de uma foto sua ao lado do petista André Ceciliano nesta semana.

Otoni também lamentou que alguns parlamentares queiram fazer “oposição por oposição” a Lula, uma crítica velada à postura incentivada por Malafaia. Outros nomes que se engajaram na campanha de Bolsonaro, como Cezinha e Silas Câmara, também têm buscado sinalizar, embora com menos intensidade, abertura para diálogo com o novo governo.