Evento de apoio a Crivella tem ataques à esquerda e discurso em defesa da 'família brasileira'

Alice Cravo
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Alice Cravo
Alice Cravo

“Por que te convidamos para vir aqui? Assista com atenção a esse vídeo e conheça os riscos que nós e nossas famílias corremos”. Essa mensagem abria a produção de aproximadamente cinco minutos exibida como boas vindas em uma das edições do evento “Elas com Crivella”, que reuniu cerca de 30 mulheres, a maioria religiosa, no último dia 30, em apoio à reeleição do prefeito Marcelo Crivella, no Centro Israelita Brasileiro, em Copacabana, acompanhado pelo GLOBO. Apresentado por Eliana Ovalle, amiga pessoal da primeira-dama Sylvia Jane, o vídeo mostrava, em suas palavras, “países da América Latina que, infelizmente, eram abençoados como o Rio de Janeiro, e hoje aconteceu algo muito grave”. As ameaças apareceram logo em seguida na tela: comunismo e cristofobia — esse último com letras em chamas.

Nos minutos seguintes, uma cadeia de desinformação foi exposta na tela. Nas primeiras imagens, cenas de fome e pobreza e uma igreja com o crucifixo em chamas. Aparece, então, uma postagem no Twitter do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), onde se lê: “Esses horrores do Chile é que a esquerda gostaria de trazer para o Brasil. Só não importam porque não conseguem. Não vote em PT, PCdoB, PSOL, PDT e evite essas barbáries”. Na continuação, cenas que tratam da suposta erotização infantil, ideologia de gênero e da desconstrução dos valores da família brasileira.

O vídeo, então, passa a abordar o contexto político carioca em 2020. O candidato do DEM à prefeitura do Rio, Eduardo Paes, é o primeiro a ser atacado. Na tela, através de fotos e distorções de notícias, liga-se o ex-prefeito à defesa do aborto e expõe suas supostas ligações “comunistas” com o PT, PSOL, PCdoB. Há, ainda, a insinuação de que a desistência do deputado Federal Marcelo Freixo (PSOL) de concorrer à prefeitura do Rio de Janeiro fazia parte de uma estratégia para favorecer Paes na corrida eleitoral. A ideia é reforçada por uma imagem onde Freixo e Paes aparecem se cumprimentando. A foto foi tirada em 2012, durante o debate entre os então candidatos à prefeitura do Rio. O aperto de mão entre os candidatos é cena comum em debates e em uma rápida pesquisa no Google é possível achar imagem semelhante, inclusive, o aperto de mão entre Crivella e Freixo na disputa de 2016. Paes então, é atacado por fazer parte do DEM, sigla que também abriga o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, por suas ligações com César Maia e o ex-governador Sérgio Cabral.

O vídeo continua com a pergunta “Entendeu o que é o comunismo?”. A partir dali, aparecem cenas de apoio a Crivella, além de declarações e feitos do próprio prefeito, muitas já conhecidas pelas propagandas eleitorais. O episódio de 2019 da Bienal do Livro, quando Crivella mandou que recolhessem o quadrinho “Vingadores, a cruzada das crianças” por trazer a imagem de um beijo gay, é exposto como um trunfo do candidato à reeleição.

O evento, que teve aproximadamente uma hora de duração, é um bom exemplo do tom e do clima da campanha de Marcelo Crivella para a reeleição à prefeitura do Rio e dialoga com as estratégias apresentadas pelas propagandas de rádio e TV. O salão, que estava com metade das cadeiras vazias, foi bem equipado para a recepção das apoiadoras, muitas com camisetas personalizadas do movimento “Elas com Crivella”. Além do painel instalado no palco e do projetor, luzes roxas compuseram a decoração junto com banners que traziam os valores da campanha do bispo licenciado. “Não é pelo político, é pela família”, “Não é pelo político, sim pelos princípios e valores”, “Não é pelo político! É pela proteção das crianças”. Na lateral do salão, uma longa mesa oferecia para as convidadas opções de bolo, salgados, sucos e café e biscoitos.

Os ataques, os inimigos e os valores defendidos pelo grupo se aproximam do tom dado à campanha do então candidato à presidência da República Jair Bolsonaro em 2018. O encontro acompanhado pelo GLOBO ocorreu um dia depois do anúncio oficial de que Bolsonaro iria apoiar a candidatura de Crivella. No momento do encontro, o prefeito estava em Brasília para gravar alguns vídeos para a sua campanha ao lado do presidente. Sua vice, a tenente coronel Andréa Firmo, figura constante no “Elas com Crivella”, não participou da edição presenciada pela reportagem porque também estava em Brasília para gravar ao lado do vice-presidente Hamilton Mourão, conforme informações passadas pelos organizadores do encontro. A primeira dama Sylvia Jane, frequentadora assídua do movimento, não compareceu porque também estava em Brasília.

Além dos valores conservadores, a religião é um dos pontos centrais do movimento. Louvores compuseram a música ambiente do local durante a recepção das convidadas, alguns deles protagonizados por Crivella, como o louvor “Aleluia porque a luta continua”, que aparece em uma das propagandas eleitorais do bispo licenciado — hoje suspensa pela Justiça Eleitoral por exposição excessiva de Bolsonaro. A primeira dama Sylvia Jane, apontada como missionária, enviou, através da sua amiga Eliana, um pedido de jejum aos apoiadores em prol da reeleição do prefeito e de uma cidade pautada nos valores conservadores.

A vereadora Tânia Bastos (Republicanos), uma das convidadas, atribuiu a Deus a vitória de Crivella em 2016 e sua capacidade à frente da prefeitura. A vereadora, que tenta agora ser reeleita para o seu quarto mandato, afirma que Crivella foi discriminado, humilhado e perseguido pelo legislativo e pelo judiciário durante os quatro anos de gestão.

— Nesses 12 anos que eu estou na Câmara eu nunca vi um prefeito receber quatro pedidos de impeachment e mais de dez CPIs. Eu via dentro do legislativo diversas armadilhas para tentar derrubar o prefeito. Mas esse homem foi colocado por Deus, e só ele pode tirar o Crivella da prefeitura — declarou Tânia.

Além de garantir o voto das mulheres presentes na reunião, o "Elas com Crivella" tenta estimular o uso das redes sociais o diálogo com outros eleitores para converter mais votos para o prefeito.

— Precisamos nos multiplicar. Você é uma pessoa que tem consciência que o prefeito Marcelo Crivella é da família, e você precisa levar essa mensagem para os seus amigos, familiares. A nossa maior função é multiplicar. Não adianta você ser Crivella. Sua família tem que ser, seu amigo tem que ser. Não é pelo político, mas sim pela nossa família. Você quer ver o seu filho sofrer? O seu neto sofrer? Não! — discursou Daniela Jesus, uma das organizadoras do "Elas com Crivella".

Para reverter os votos, o contexto político de 2020 acaba ganhando protagonismo nos discursos, que definiram o momento como "uma luta entre duas forças da nação brasileira" , onde a vitória de Crivella impediria que os "inimigos" com "o objetivo de destruir as famílias" e fazer com que as pessoas esqueçam "até mesmo das suas origens religiosas" entrem na cidade. A batalha é tida como algo mundial e o atentado a faca que matou três pessoas na Basílica de Notre-Dame, no centro da cidade francesa de Nice em outubro foi citado como exemplo da luta entre as duas forças.

Crivella foi descrito como um "homem comprometido com a cidade e com os valores cristãos" que em 2016 lutou contra o "representante maior do PSOL", o deputado federal Marcelo Freixo, que, segundo os apoiadores, queria implementar a "política de gênero" e o "kit gay" nas escolas. A informação falsa foi amplamente usada por Crivella na campanha de 2016, quando disputou o segundo turno com Freixo e saiu vitorioso. Bolsonaro também “lutou” contra essas “ameaças” na eleição de 2018.

Nesta eleição, no primeiro e único debate entre os candidatos até o momento, o bispo licenciado disparou, na primeira oportunidade, os mesmos ataques contra a atual candidata do partido, a deputada estadual Renata Souza. Na ocasião, o prefeito afirmou que, se a adversária vencesse a eleição, haveria “kit gay nas escolas” e a liberação de drogas. A declaração resultou em um processo da parlamentar contra o prefeito.

Entre os concorrentes atuais de Crivella, Paes não foi o único mencionado. A vereadora Tânia Bastos chamou o candidato do MDB e ex-secretário da Casa Civil de Crivella, Paulo Messina, de Judas. A vereadora questionou se os filhos do adversário realmente sofrem de autismo e chamou a propaganda eleitoral para TV do candidato ao lado dos filhos de "marketing".

— Crivella confiou em muitos. Um deles, que eu chamo de Judas, está vindo candidato a prefeito. Ele colocou esse homem para caminhar ao seu lado e agora vem como candidato. Ninguém nunca ouviu falar que ele tinha filhos autistas. Esse homem, que está aí agora na televisão mostrando os filhos, que são gêmeos, nunca fez nada por essas crianças. É uma ferramenta para se autopromover. Eu vejo na televisão escovando os dentes do filho, dando banho nos filhos. Marketing

Tânia ainda protagonizou o ápice do evento quando, ao som de um jingle de Crivella tocado no ritmo do famoso funk “Baile de Favela”, convidou as apoiadoras para dançarem “no passinho”. De prontidão, as convidadas levantaram de suas cadeiras e se movimento de um lado para o outro ergueram as mãos para o céu fazendo o número 10, em referência ao número do candidato nas urnas. A dança lembrou o gesto de louvor frequente nos cultos religiosos.

Sobre a atuação de Crivella à frente da prefeitura, os discursos reproduziram o tom das propagandas para televisão. Os apoiadores reforçaram a todo momento que Crivella fez “muito com pouco” em referência aos problemas orçamentários da prefeitura. A briga judicial com a Linha Amarela S/A, a Lamsa, concessionária responsável pela via que liga a Zona Oeste à Ilha do Fundão, foi mencionada como um dos feitos mais importantes da gestão do bispo. A atuação de Crivella na pandemia foi descrita como exemplar, apesar do município ter tido um dos piores desempenhos no combate ao vírus. Os apoiadores afirmam, ainda, que nenhum paciente morreu por falta de equipamento nos hospitais e atendimento médico.

Apesar de ter sido protagonista de escândalos como o dos "Guardiões do Crivella", o episódio do "Fala com a Márcia" e ter sido considerado inelegível pelo TRE por abuso de poder político e conduta vedada, os presentes no "Elas com Crivella" acreditam que o prefeito baniu a corrupção da prefeitura. Esse e outros feitos de Crivella, segundo eles, foram possíveis porque o bispo "não tem rabo preso" e tem "coragem" para realizar as mudanças. Os bordões são usados pelas adversárias de Crivella, Renata Souza (PSOL) e Martha Rocha (PDT).

Em nota, o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL) afirmou que é “lamentável que uma cidade tão importante como o Rio tenha um prefeito tão desqualificado” e que em 2016 Crivella se elegeu “com fake news, governa com fake news e agora usa as mesmas mentiras para tentar se reeleger”. “ Enquanto isso milhares de cariocas morrem de covid, perdem seus empregos e não conseguem sustentar suas famílias. O prefeito prometeu cuidar das pessoas, mas prefere promover o ódio, a mentira e o atraso." Paulo Messina não respondeu aos contatos da reportagem e Eduardo Paes não quis se manifestar.