Evento conservador consolida Eduardo Bolsonaro como herdeiro político do pai

FÁBIO ZANINI
SÃO PAULO, SP, 11.10.2019: CPAC-BRASIL - O deputado federal Eduardo Bolsonaro(PSL/SP) abraça a bandeira nacional durante o primeiro dia do Congresso Conservador CPAC Brasil, nesta sexta-feira(11), em São Paulo. O gesto foi uma alusão ao abraço dado pelo presidente norte-americano Donald Trump na bandeira do EUA durante edição passada do congresso. (Foto: Marcelo Chello/CJPress/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A primeira edição brasileira da Cpac (Conservative Political Action Conference), principal evento conservador americano, trouxe o repertório esperado de críticas à mídia, denúncias de um suposto domínio cultural marxista e apelos por unidade da direita.

Mais relevante para o longo prazo, consolidou o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), 35, como o sucessor político de seu pai.

Desenvolto na função de mestre de cerimônias do evento, realizado na sexta (11) e no sábado (12) num hotel de São Paulo, Eduardo foi o grande responsável por importar a conferência, que acontece desde 1973 nos EUA. Terminou a noite de sábado sendo saudado em coro como “Mitinho” pela plateia.

Em dois dias de reunião, o deputado alternou exemplos de puro bolsonarismo, atacando inimigos de seu pai e propagando bandeiras conservadoras, com momentos em que soube exercer um inesperado lado carismático.

Abusou do politicamente incorreto, como no momento em que pediu paciência à audiência porque um convidado chamado ao palco, o senador americano Mike Lee, se atrasou.

“Ninguém vai tocar fogo no prédio, né? Não vai ter mulher mostrando suvaco cabeludo, defecando e vomitando no chão e falando que é arte. E ninguém vai dizer que quem não gosta é fascista e racista”. A plateia adorou.

Em seguida, revelou que seu apelido de infância era Buba, referência a uma personagem hermafrodita da novela “Renascer”, e que o de seu irmão Flávio era Baleia Azul. Não explicou a razão.

Eduardo, indicado (ainda informalmente) embaixador do Brasil nos EUA, brilhou sozinho, talvez numa estratégia proposital do clã. Nenhum de seus irmãos esteve no evento, e a própria presença de Jair Bolsonaro, que estava confirmada, foi cancelada. O presidente preferiu ver o jogo entre Palmeiras e Botafogo no Pacaembu.

A enorme fila que se formava a cada intervalo da conferência para bater selfies com o deputado federal foi uma amostra de que é o filho “03” quem tem mais chances de ser escolhido o herdeiro do espólio do presidente, em 2026. Ou 2022, caso Bolsonaro, por algum motivo, não possa concorrer.

A conferência teve cerca de 1.200 participantes, na estimativa da organização. Bancada com recursos públicos do fundo partidário destinados ao PSL, custou cerca de R$ 800 mil.

Passaram pelo palco políticos, professores, escritores, ativistas e influenciadores digitais, que não disfarçavam a empolgação com o fato de terem ganho o palco principal do debate público depois de anos considerados uma franja.

Na maioria dos discursos, exaltações a que os conservadores ali presentes espalhassem o Evangelho direitista em suas cidades e bairros.

“Boa tarde aos robôs do Bolsonaro aqui presentes!”, ironizou Filipe Martins, assessor internacional da Presidência e um dos principais ativistas digitais da direita alinhada ao governo, em saudação à plateia.

A audiência riu, o que foi a deixa para Martins pedir uma homenagem a alguém ainda mais importante que ele na estratégia digital do presidente. “Quem aqui gosta do Carlos Bolsonaro?”, perguntou. “Pitbull, pitbull, pitbull!”, respondeu a plateia.

“Precisamos de uma estratégia de mobilização permanente”, convocou Martins. “Como diz Olavo [de Carvalho], não parar, não precipitar, não retroceder”.

Houve momentos mais soturnos, como o discurso do youtuber católico Bernardo Kuster, que prometeu “pegar o chicote e descer o cacete” em quem macular sua fé. E que viu méritos no sentimento do ódio.

“Temos motivo para odiar algumas coisas. Eu odeio assassinos, eu desprezo bandidos. Muitas vezes o ódio tem uma força pacificadora”, afirmou.

Sean Fieler, empresário americano conservador, ganhou aplausos rumorosos ao exibir em sequência as bandeiras da União Soviética, de Cuba e do movimento gay, equiparando-as como formas de totalitarismo.

“É o movimento mais perigoso nos EUA atualmente”, declarou, apesar das inúmeras juras de Eduardo Bolsonaro e outros organizadores durante o evento de que conservadores não têm nada contra gays.

A deputada estadual catarinense Ana Campagnolo (PSL) fez um discurso contra o movimento feminista, que, segundo ela, tem integrantes que defendem pornografia, pedofilia e incesto. Chamou o divórcio de tragédia e concluiu dizendo que “o que acaba com casamento é a competitividade. Deus colocou as mulheres para ajudar nossos maridos, e maridos para nos proteger”.

Participaram quatro ministros: Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Damares Alves (Direitos Humanos) e Abraham Weintraub (Educação). Damares e Onyx foram especialmente emotivos, dizendo que haviam esperado por aquele momento durante anos.

Weintraub fechou a conferência com uma explanação sobre as ameaças ao conservadorismo atualmente no Brasil e no mundo e detalhando a existência de uma suposta conspiração que envolveria até empresários bilionários comunistas. Numa analogia de gosto duvidoso, disse que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso abriu caminho para Luiz Inácio Lula da Silva assim como a Aids abre caminho para a morte por tuberculose.

A segunda edição brasileira da Cpac, em 2020, está garantida. O termo de adesão foi assinado no palco por Eduardo Bolsonaro e Matt Schlapp, presidente da União Conservadora Americana, detentora da marca. Para novo momento de delírio da plateia, Eduardo imitou o pai usando uma caneta Compactor, em retaliação à francesa Bic.