CPAC: evento conservador troca euforia de 2019 por temor com vitória de Lula e ataques às eleições

Sem o clima de euforia que predominou em sua estreia em 2019, a terceira edição do CPAC Brasil, congresso conservador importado dos Estados Unidos por Eduardo Bolsonaro (PL-SP), foi marcado pelo temor dos participantes com a volta do PT ao poder e ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e às eleições.

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Realizado em Campinas (SP) no fim de semana, o evento reuniu cerca de mil pessoas. Boa parte dos discursos proferidos ao longo do sábado e domingo tinha como ponto comum a desconfiança sobre pesquisas eleitorais, que põem Luiz Inácio Lula da Silva isolado na liderança da corrida presidencial de 2002, e a deslegitimação da candidatura do ex-presidente.

A conferência também contou com uma aparição surpresa do presidente Jair Bolsonaro (PL). Por mais de uma hora, por transmissão ao vivo, o presidente fez diversos ataques ao sistema eleitoral brasileiro.

Sem apresentar qualquer evidência, ele afirmou que hackers atacaram as urnas eletrônicas em 2018, e que as eleições municipais de 2020 não poderiam ter sido realizadas enquanto a suposta fraude do pleito anterior não tivesse sido investigada.

— O que eu vou falar agora, eu não tenho prova, vou deixar bem claro. No primeiro turno, por indícios fortíssimos, eu ganhei — disse o presidente.

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Bolsonaro sugeriu que ministros indicados por Lula e Dilma Rousseff ao Supremo estariam agindo para levar de volta o petista ao poder. Seus comentários se voltaram principalmente a Edson Fachin, hoje presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Enquanto alguns palestrantes declararam não "aceitar" o petista na disputa — o comentarista Rodrigo Constantino discursou que "a normalização da candidatura do Lula não é razoável" —, outros manifestaram preocupação com a vitória da esquerda:

— Nunca estivemos tão próximos de um problema como a eleição eventualmente do sapo barbudo — declarou o ex-ministro Ricardo Salles.

Notícias positivas

Diante do avanço da inflação e da miséria no país, expoentes do governo cobraram dos bolsonaristas maior empenho em compartilhar notícias positivas da gestão Bolsonaro. O ex-ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas pediu que cada pessoa presente criasse "pelo menos 50 grupos de WhatsApp" pró-Bolsonaro para ajudar na batalha de narrativas na campanha eleitoral.

A preocupação com as eleições motivou um momento embaraçoso. O desembargador do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) William Douglas deixou a plateia em silêncio ao cobrar dos bolsonaristas melhor diálogo com pretos e pardos para melhorar a taxa de votação entre a população negra.

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— A votação dos conservadores entre os negros é pífia. Desculpa, mas vocês fazem uma comunicação péssima — afirmou Douglas.

Na primeira edição do CPAC, os então ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Abraham Weintraub (Educação), Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) e Onyx Lorenzoni (Casa Civil) agitaram a plateia em São Paulo, empolgada com o primeiro ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro e confiante na promessa de acabar com o "toma lá, dá cá" em Brasília.

Na versão deste ano, os antigos radicais da Esplanada dos Ministérios foram expurgados da órbita da família presidencial, como Weintraub e Araújo, ou deixaram seus postos para concorrer nas eleições de outubro, caso de Damares. A crise entre os Poderes, inexistente nos discursos de 2019, acabou imperando nos debates do fim de semana.

Alguns dos ataques mais virulentos vieram do ex-senador Magno Malta (PL-ES). Ele disparou contra ministros do Supremo, chamou Edson Fachin de mentiroso e Alexandre de Moraes de hipócrita.

Antes de exibir no telão o vídeo da sabatina de Moraes, Malta chamou ao palco o deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ), salvo da prisão em razão de um indulto concedido por Bolsonaro após ter sido condenado no Supremo por ameaça aos ministros, para que ele assistisse à exibição. A cena inusitada colocou lado a lado no palco, ainda que virtualmente, dois personagens que têm representado no discurso bolsonarista "o bem e o mal". Silveira foi ovacionado pela plateia cada vez que subia ao palco.

Escanteado da formação do gabinete de Jair Bolsonaro em 2018 após priorizar a campanha do aliado em detrimento de sua — o então senador acabou não se reelegendo —, Malta manteve a defesa do presidente ao longo dos últimos anos. Em Campinas, fez uma reaparição digna de celebridade e foi tietado por dezenas de fãs.

Presença internacional

Inspirado na megaconferência homônima organizada nos EUA desde a década de 1970, a terceira edição do CPAC Brasil foi organizada pelo Instituto Conservador-Liberal, think tank de Eduardo Bolsonaro e do empresário Sérgio Sant'Anna.

A conferência deste ano teve o patrocínio da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso do Sul (Aprosoja) e da Gettr, aplicativo de troca de mensagens criado por Jason Miller, ex-assessor do ex-presidente americano Donald Trump. Miller, inclusive, foi uma das estrelas internacionais do evento, ao lado de José Antonio Kast, derrotado na última eleição chilena pelo atual presidente Gabriel Boric, e Javier Milei, político de extrema-direita que pretende disputar a próxima eleição presidencial da Argentina.

Aprosoja e Gettr representam dois importantes grupos de apoio ao governo Bolsonaro: o agronegócio e a militância de extrema-direita que encampou o combate às políticas de moderação de conteúdo implementadas pelas redes sociais nos últimos anos para inibir o discurso de ódio e desinformação.

Os estandes de produtos bolsonaristas também estiveram de volta. Além de bancas de livros conservadores e camisetas com deboche a ideologias de esquerda, lideranças regionais como o vereador Nikolas Ferreira (Belo Horizonte) e a deputada estadual Ana Campagnolo (SC) provocaram filas para selfies. O ex-jogador de vôlei Maurício Souza e o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, pré-candidatos, também chamaram a atenção dos fãs.

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