Evento que parou testes da CoronaVac foi suicídio; Anvisa mantém suspensão

Por Eduardo Simões e Lisandra Paraguassu
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Por Eduardo Simões e Lisandra Paraguassu

SÃO PAULO/BRASÍLIA (Reuters) - O suicídio de um voluntário que participava dos testes no Brasil com a CoronaVac gerou o evento adverso alegado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para interromper os estudos com a potencial vacina contra Covid-19 da chinesa Sinovac, mas o órgão regulador manteve nesta terça-feira a decisão de parar o ensaio clínico, apesar de o caso supostamente não ter relação com a vacina.

Responsável pelos testes no Brasil e pela futura produção da vacina no país, o Instituto Butantan, ligado ao governo do Estado de São Paulo, por sua vez, reiterou que o evento não tem relação com a vacina, e o presidente da entidade, Dimas Covas, disse que a decisão da Anvisa causou indignação.

Autoridades de saúde paulistas afirmaram esperar que a Anvisa permita rapidamente a retomada dos testes. A agência, no entanto, não deu qualquer sinalização neste sentido.

O suicídio do voluntário foi confirmado à Reuters por uma fonte que acompanha o assunto e que pediu para não ter o nome revelado por causa do sigilo envolvendo os voluntários. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou que a morte está sendo investigada como suicídio.

"Exames periciais estão em andamento e mais detalhes não serão divulgados até a conclusão dos laudos técnicos para não atrapalhar as investigações", disse a secretaria.

De acordo com o boletim de ocorrência do caso, ao qual a Reuters teve acesso, o voluntário foi encontrado no chão do banheiro do apartamento onde morava com uma seringa próxima ao braço e ampolas de remédio ao redor. Segundo o documento, não havia marcas de violência no local.

Em entrevista coletiva em Brasília, o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, e diretores da agência reguladora afirmaram que não receberam do Butantan a informação de que o voluntário cometeu suicídio. Afirmaram ainda que a decisão de interromper os testes, o que impossibilita a inoculação de novos voluntários, está mantida, mesmo após reunião nesta manhã com representantes do Butantan.

Barra disse que as informações que foram recebidas pela agência até o momento foram incompletas e insuficientes para que fosse possível continuar os estudos com a vacina.

"Quando temos um evento adverso não esperado, a sequência de eventos é uma só, a interrupção do estudo", disse. "Foi o que aconteceu", acrescentou ele, que negou viés político na decisão da Anvisa.

Barra rejeitou a possibilidade de a Anvisa reverter a decisão somente com base na informação, veiculada pela imprensa, de que o voluntário cometeu suicídio.

Covas, do Butantan, se recusou a divulgar quaisquer detalhes do caso envolvendo o voluntário, alegando questões éticas e de sigilo dos participantes do estudo. Ele reiterou, no entanto, que o evento não teve relação com a vacina e garantiu que a vacina é segura.

"Uma notícia (interrupção dos testes pela Anvisa) como a que atingiu a todos nós causa surpresa, causa insegurança e causa, no nosso caso aqui no Butantan, até indignação", disse Covas em entrevista coletiva na sede do instituto.

O coordenador executivo do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo e ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, classificou a decisão da Anvisa de injusta e lamentou estar impedido de divulgar os detalhes envolvendo o caso.

"Por razões éticas, nós não podemos ser transparentes com relação ao que está acontecendo hoje. Se vocês pudessem ter acesso às informações que nós temos em relação a esse caso, vocês poderiam identificar quão injusta está sendo essa penalidade", afirmou.

A vacina da Sinovac virou motivo de disputa acirrada entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que são desafetos políticos e frequentemente trocam farpas publicamente. E na manhã desta terça, em uma rede social, Bolsonaro comemorou a suspensão dos testes com a CoronaVac, anunciada na noite da véspera, como se fosse uma vitória pessoal sua.

Em resposta a um apoiador no Facebook, Bolsonaro primeiro insinuou, sem provas, que o medicamento chinês poderia causar "morte, invalidez, anomalia". Na sequência escreveu: "Mais uma que Jair Bolsonaro ganha",

Os eventos adversos citados pelo presidente são os relatados pela Anvisa como passíveis de levar à suspensão de testes de medicamentos.

DOIS LADOS PEDEM RESPEITO

Na entrevista em Brasília, o gerente-geral de Medicamentos da Anvisa, Gustavo Mendes, disse que a decisão da diretoria colegiada de interromper o teste com a CoronaVac foi unânime e tomada de forma técnica. Ele acrescentou que, apesar da reunião desta manhã com o grupo técnico do Butantan, a suspensão foi mantida porque, segundo Mendes, ainda não se tem evidências e dados de que o estudo pode continuar.

O gerente reclamou do que chamou de situação de politização que põe em xeque o trabalho da agência. "Pedimos que nosso trabalho seja respeitado", disse.

Já na coletiva em São Paulo, o secretário de Saúde do Estado, Jean Gorinchteyn, que é infectologista, disse que ele e as autoridades de saúde do Estado, como médicos e cientistas que são, não aceitam interferência política em seu trabalho e afirmou que precisam de respeito para exercer a função. Ele cobrou ainda que a Anvisa atue com ética.

"Nós entendemos que todas as agências reguladoras e todos os órgãos científicos se portem da mesma forma ética e com lisura. Lisura que nós, como médicos e cientistas, merecemos", afirmou Gorinchteyn.

(Reportagem adicional de Leonardo Benassatto e Pablo Garcia, em São Paulo, e Ricardo Brito, em Brasília)