Exército birmanês 'deteve' Aung San Suu Kyi, seu partido denuncia 'golpe'

Hla Hla HTAY com Sophie DEVILLER em Bangcoc
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A líder birmanesa Aung San Suu Kyi (foto) foi detida, segundo o porta-voz do seu partido

As Forças Armadas birmanesas detiveram a líder de fato do governo em Mianmar, Aung San Suu Kyi, informou seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (LND), que alertou para um possível "golpe de Estado".

"Ouvimos que está detida em Naypyidaw (a capital do país), supomos que o Exército está organizando um golpe de Estado", disse à AFP Myo Nyunt, porta-voz do partido.

Segundo ele, outros dirigentes do partido também foram detidos.

A conexão à internet sofreu fortes perturbações desde as 03h, segundo a ONG especializada Netblocks.

Mianmar saiu há apenas 10 anos de um regime militar que dirigiu o país por quase meio século. A Constituição, redigida pela junta militar, prevê uma distribuição do poder entre um governo civil e os generais.

O Parlamento resultante das últimas legislativas deveria começar sua primeira sessão em algumas horas.

Perguntado a respeito das detenções, o porta-voz das Forças Armadas não se pronunciou.

- "Milhões" de fraudes -

Os militares denunciam há semanas irregularidades nas eleições legislativas de novembro, vencidas por uma maioria esmagadora pelo LND, no poder desde 2015.

Com o pretexto da pandemia do coronavírus, as eleições "não foram livres, nem justas", afirmou na semana passada o porta-voz do Exército, o major-general Zaw Min Tun, em coletiva de imprensa.

Os temores aumentaram quando o comandante do Exército, o general Min Aung Hlaing, sem dúvida o homem mais poderoso de Mianmar, declarou que a Constituição poderia ser "revogada" sob certas circunstâncias.

Os militares afirmam ter registrado dois milhões de casos de fraude, inclusive de milhares de pessoas centenárias ou menores de idade.

Mais de uma dezena de embaixadas, como a dos Estados Unidos e a delegação da União Europeia, instaram Mianmar na sexta-feira a "aderir às normas democráticas", temendo um possível golpe de Estado.

"Nós nos opomos a qualquer tentativa de modificar o resultado das eleições ou dificultar a transição democrática em Mianmar", escreveram.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, também expressou sua "grande preocupação".

O partido de Aung San Suu Kyi, prêmio Nobel da Paz em 1991, muito criticada por sua gestão da crise dos muçulmanos rohinyas, mas ainda venerada por boa parte da população, obteve uma vitória esmagadora em novembro.

Estas foram as segundas eleições gerais celebradas em Mianmar desde 2011, quando foi dissolvida a junta militar que governou o país durante meio século.

As Forças Armadas continuam tendo muito poder e controlam três ministérios essenciais (Interior, Defesa e Fronteiras).

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