Exército da Etiópia acusa chefe etíope da OMS de apoiar Tigré

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O diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, na sede da organização em Genebra, 11 de março de 2020

Exército da Etiópia acusa chefe etíope da OMS de apoiar Tigré

O diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, na sede da organização em Genebra, 11 de março de 2020

O Exército etíope acusou, nesta quinta-feira (19), o diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, originário de Tigré, de buscar apoio e armas para esta região separatista cujas tropas lutam contra o governo federal há três semanas.

Tedros "trabalhou nos países vizinhos para condenar a guerra" que o governo federal da Etiópia trava contra as autoridades regionais em Tigré desde 4 de novembro, e "trabalhou para obter armas para eles", declarou o chefe do Estado Maior do Exército Federal da Etiópia, o general Berhanu Jula, em entrevista coletiva.

"Ele não deixou pedra sobre pedra" para ajudar a Frente de Libertação do Povo Tigré (TPLF), partido que dirige a região dissidente e que há vários meses desafia a autoridade do governo federal, acrescentou.

"Esse cara é membro" da TPLF, acusou o general Berhanu, referindo-se a Tedros, que foi ministro da Saúde entre 2005 e 2012 no governo de Meles Zenawi, o líder histórico da TPLF, que na época era um partido muito poderoso que controlava as fontes de poder em Addis Abeba.

Da mesma forma, o porta-voz da célula da crise do governo em Tigré, Redwan Hussein, também expressou o "descontentamento" de Addis Abeba com Tedros.

"O governo é consciente de que está muito agitado, apelou aos dirigentes e (...) instituições (...) que imponham o governo a negociar", afirmou, acrescentando: "o governo espera que falem com ele para perguntar (...) o que pode fazer para ajudá-lo".

Procurada pela AFP, a OMS em Genebra se recusou a comentar e Tedros não reagiu a essas acusações.

"Alguns relatos sugerem que eu tomo partido nesta situação. Não é verdade e quero afirmar que estou apenas de um lado, o da paz", ressaltou Tedros em um tuíte.

"Estou com o coração partido por causa da minha nação e peço a todas as partes que trabalhem pela paz", acrescentou.

Tedros, de 55 anos, um cientista especializado em imunologia e doenças infecciosas, é o primeiro africano a liderar a OMS, cargo que ocupa desde 2017.

Depois de ter sido ministro da Saúde e antes de assumir a liderança da OMS, foi também ministro das Relações Exteriores entre 2012 e 2016 no governo de Hailemariam Desalegn, eleito por Meles Zenawi, que o sucedeu após sua morte repentina em 2012.

- ONU preocupada -

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pediu nesta sexta-feira às autoridades da região que permitam o acesso de recursos internacionais para ajudar a população, presa nos combates.

"Estamos muito preocupados com a situação na Etiópia e com o Impacto humanitário dramático" que provoca, inclusive no Sudão, afirmou Guterres em Nova York.

"Estamos fazendo todo o possível para mobilizar o apoio humanitário para os refugiados que já estão no Sudão", continuou.

"Exigimos o respeito do direito internacional, a abertura de corredores humanitários e as tréguas necessárias para levar ajuda humanitária às zonas de conflito", disse.

Infelizmente, "até o momento não existe um acordo das autoridades etíopes para uma mediação externa", lamentou Guterres ao explicar o motivo do conflito na Etiópia ainda não ter sido tema de debate no Conselho de Segurança da ONU.

- "Traição" -

Abiy Ahmed, primeiro-ministro desde 2018 e prêmio Nobel da Paz no ano seguinte, lançou uma operação militar em Tigré em 4 de novembro contra as forças da TPLF, que acusa de tentar desestabilizar o governo federal e de atacar duas bases militares etíopes na região, o que as autoridades regionais negam.

Não há relatos precisos sobre a ofensiva militar, que já está em sua terceira semana e incluiu bombardeios aéreos, deixando a região praticamente isolada do mundo.

Mas os combates já deixaram várias centenas de mortos e, de acordo com o chefe da Comissão de Refugiados do Sudão, forçou pelo menos 36 mil etíopes a fugirem para o vizinho Sudão.

Por sua vez, o porta-voz do governo, Redwan Hussein, destacou que o exército está "se aproximando de Mekele", capital do Tigré, e já tomou Shire, localizada no norte, onde houve intensos combates nos últimos dias, assim como no sul da região.

Esta informação não é possível de ser verificada junto a uma fonte independente.

A TPLF - que dominou a luta armada na Etiópia por 15 anos contra o regime militarista-marxista de Derg, derrubado em 1991 - controlou o aparato político e de segurança da Etiópia com punho de ferro por quase três décadas, até que Abiy Ahmed assumiu o governo no âmbito de um movimento de contestação popular sem precedentes contra o poder.

Seus líderes, gradualmente expulsos de cargos importantes e sujeitos a processos judiciais, se retiraram para Tigré, no norte da Etiópia, de onde desafiam a autoridade do governo federal nos últimos meses.

Em 13 de novembro, o governo etíope disse ter "evidências confiáveis" de que os agentes da TFLP trabalhavam para organizações locais e internacionais e que havia enviado uma lista ao Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA).

No mesmo dia, um funcionário da União Africana (UA) confirmou que a organização sediada em Adis Abeba havia afastado seu diretor de segurança, natural de Tigré, depois que o governo etíope questionou sua "honestidade".

Desde o início da ofensiva, centenas de pessoas foram detidas sob suspeita de conspiração com a TPLF, e 34 empresários tiveram o acesso negado às suas contas bancárias devido a seus supostos vínculos com o partido de Tigré.

Na quarta-feira, a Polícia Federal anunciou que emitiu 76 mandados de prisão para oficiais do Exército, alguns deles aposentados, sob a acusação de "traição" em benefício da TPLF.

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