Exército de Mianmar justifica golpe apesar da pressão internacional

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O chefe do Exército de Mianmar chamou o golpe de "inevitável" nesta terça-feira (2), apesar das condenações internacionais e da ameaça de sanções dos Estados Unidos.

"Esse caminho era inevitável para o país e é por isso que tivemos que escolhê-lo", disse o general Min Aung Hlaing, que agora concentra a maior parte do poder, segundo a página oficial do exército no Facebook.

Seus comentários foram feitos pouco antes de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU e depois que o partido de Aung San Suu Kyi, líder de fato do governo deposto, pediu sua "libertação" imediata.

A reunião terminou sem chegar a uma declaração comum para exigir o retorno de civis ao poder. "A China e a Rússia pediram mais tempo", disse um diplomata que pediu anonimato.

Os Estados Unidos, depois de definir a situação como um "golpe", alertaram que reduziriam sua ajuda à Mianmar. A ONU e a União Europeia (UE) também condenaram o golpe.

Em vez disso, Pequim se recusou a criticar qualquer pessoa, limitando-se a pedir a todas as partes que "resolvam suas diferenças".

O golpe aconteceu na segunda-feira, sem violência. Um dia depois, os soldados continuavam mobilizados na capital, Naipidau, onde Aung San Suu Kyi, de 75 anos, e outros líderes de seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (LND), foram detidos.

Os soldados também cercaram os edifícios onde os parlamentares moram, e uma deputada da LND descreveu a situação à AFP como um "centro de detenção ao ar livre". Alguns parlamentares indicaram que foram autorizados a sair na terça à noite.

A mesma fonte disse que Aung San Suu Kyi e o presidente da República, Win Myint, estão em "prisão domiciliar" na capital.

Um porta-voz de seu partido indicou que não foi possível contatá-la, mas alguns vizinhos a viram caminhando no jardim de sua residência.

"Ela caminha para que as pessoas saibam que está bem de saúde", disse Kyi Toe à AFP sobre o Prêmio Nobel da Paz de 1991.

O exército deve "reconhecer o resultado" das eleições de novembro, pediu o NLD no Facebook, denunciando por sua vez uma "mancha na história do estado e do Tatmadaw", o exército birmanês.

Os militares, que negam a validade das eleições, vencidas pela LND, declararam na segunda-feira estado de emergência durante um ano, o que acabou de forma abrupta com uma década de processo democrático.

- Buzinas e panelaços -

Vinte e quatro horas depois do golpe, as pessoas têm medo de falar por medo de represálias, em um país que viveu, desde sua independência em 1948, sob o jugo da ditadura militar por quase 50 anos.

"As pessoas têm medo de criticar abertamente, embora não gostem do que está acontecendo", declarou à AFP Maung Zaw, que administra um pequeno açougue.

No entanto, na noite de terça-feira, no distrito comercial de Yangon, os moradores tocaram suas buzinas e bateram panelas e frigideiras para protestar contra o golpe. Alguns gritaram "Viva a mãe Suu".

Não havia, porém, sinais de presença militar significativa em Yangun, a capital econômica do país, de mais de cinco milhões de habitantes. Segundo analistas, isso demonstra a confiança do Exército em seu controle do país.

As linhas telefônicas e o acesso à Internet funcionavam novamente e os bancos reabriram as portas. O aeroporto internacional de Yangun permanece fechado.

Os mercados e as ruas, geralmente movimentados apesar da pandemia de coronavírus, estavam mais tranquilos do que o normal.

Ao pressentir o que aconteceria, Aung San Suu Kyi havia preparado uma mensagem, na qual pedia aos birmaneses que "não aceitem o golpe de Estado".

Os jovens birmaneses anunciaram uma campanha de "desobediência civil" nas redes sociais, embora ainda não tenha se materializado nas ruas.

Mas o golpe também tem apoio. Centenas de apoiadores do exército se reuniram perto do Pagode Shwedagon, agitando a bandeira do país.

O Exército prometeu celebrar novas eleições "livres e justas" após o estado de emergência de um ano, mas os birmaneses expressam pessimismo.

- Pária internacional -

O comandante do Exército, Min Aung Hlaing é considerado um pária nos países ocidentais, devido à violenta repressão dos militares contra a minoria muçulmana rohingya.

Essa tragédia levou Mianmar a ser acusada de "genocídio" na Corte Internacional de Justiça (CIJ), principal tribunal da ONU.

Aung San Suu Kyi, muito criticada pela comunidade internacional por sua passividade nesta crise, que levou centenas de milhares de rohingyas a buscarem refúgio em Bangladesh, continua sendo idolatrada em seu país.

A "Dama de Yangun", que viveu muito tempo no exílio, retornou a Mianmar em 1988 e se tornou a maior figura da oposição contra a ditadura militar. Passou 15 anos em prisão domiciliar até ser liberada pelo Exército em 2010.

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