Julgamento de viúva de autor de massacre em Orlando sofre reviravolta

Orlando (EUA), 26 mar (EFE).- O julgamento de Noor Salman, a viúva do autor do massacre na boate Pulse de Orlando, sofreu uma reviravolta nesta segunda-feira com a informação de que não só que o pai de Omar Mateen, Seddique Mateen, foi informante do FBI, mas que a polícia federal americana chegou a pensar que o filho poderia cumprir essa mesma função.

A informação foi revelada pelo agente especial do FBI, Juvenal Martín, que testemunhou no julgamento de Noor Salman, acusada de acobertamento, obstrução à Justiça e ajuda a uma organização terrorista, entre outros crimes que poderiam acarretar uma condenação à prisão perpétua.

Omar Mateen, um americano de 29 anos e origem afegã, matou a tiros 49 pessoas que estavam em uma festa latina na boate gay Pulse em 12 de junho de 2016 e, antes de morrer por disparos da polícia, jurou lealdade ao Estado Islâmico (EI).

A defesa de Salman, de 31 anos e origem palestina, pediu ao tribunal que despreze as acusações contra ela ou declare nulo o julgamento, por se ter sabido agora por meio da promotoria que o pai de Omar Mateen foi informante do FBI.

No entanto, o juiz Paul Byron, da Corte Federal do Distrito Médio da Flórida, desprezou hoje esse pedido dos advogados defensores, que tinham alegado que o fato de que a promotoria não lhes tivesse informado desse fato desde o momento em que se abriu o caso contra a viúva de Mateen prejudicou sua defesa.

O testemunho do agente especial do FBI na audiência de hoje insistiu ainda mais no assunto.

Segundo Juvenal Martín, o FBI estava considerando utilizar Mateen como um informante e por esse motivo não lhe indiciaram em 2013, quando ele mesmo lhe interrogou três vezes como parte de uma investigação aberta pelo fato de ter assegurado ter relações com grupos terroristas.

Martín, que, segundo foi informado hoje na corte, era o responsável de conduzir Seddique Mateen, informante do FBI desde 2005, disse que receberam uma denúncia de que o filho deste tinha alardeado em seu trabalho como guarda de segurança que tinha vínculos e laços familiares com organizações como Al Qaeda e Hezbollah, assim como com a Irmandade Muçulmana.

Segundo seu testemunho, o agente pediu ao chefe de Mateen na empresa de segurança permissão para levar escondido um gravador com a intenção de poder registrar suas palavras.

No entanto, nunca conseguiram gravar conversas nas quais fizesse ameaças ou falasse do tema.

Martin disse também na corte em Orlando que Seddique Mateen esteve presente durante os interrogatórios que aconteceram no apartamento que Salman e Omar, que tiveram um filho em 2013, compartilhavam em St. Lucie (Flórida).

No entanto, assegurou que não lembrava se Mateen admitiu ter feito as mencionadas declarações antes ou depois que seu pai se juntasse aos presentes durante o interrogatório, entre eles, Noor Salman, que em uma ocasião até lhes serviu um pedaço de bolo feito na hora.

"Mateen disse que fez esses comentários porque sentia-se acossado no trabalho", afirmou o agente durante seu testemunho.

Além disso, declarou que tinha recebido uma ligação telefônica de Seddique na qual seu informante lhe disse: "Se meu filho fez essas coisas é porque é um estúpido".

Nos arredores do tribunal, situado a poucas quadras do lugar onde ocorreu a tragédia, os familiares de Noor Salman disseram sentir que a acusada está sendo utilizada como bode expiatório pelo FBI e o governo para encobrir seus próprios erros ao deixar Mateen livre em 2013.

"Noor é uma pessoa pacífica que adora crianças", disse Mustafah Abasin, cunhado de Salman. EFE