Ex-advogado herda relíquias de João Gilberto, que mostram paixão por boxe, cachês e manias: 'Penso doar, não para a família'

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Compartilhando da intimidade de João Gilberto em seus últimos anos de vida, o advogado Gustavo Carvalho Miranda teve acesso a relíquias, objetos pessoais e documentos até então inéditos daquele que é considerado o pai da Bossa Nova. Miranda foi contratado na época pelo primôgenito do artista, João Marcelo, e advogou no caso até julho de 2019. Como a "Veja" revelou, muito desse material está numa pasta entregue a ele quatro dias antes da morte do compositor.

"Guardei a pasta no meu escritório e só em janeiro passado fui olhar o material detalhadamente. Quase caí para trás com as preciosidades que eu tinha na mão", disse o advogado à publicação.

No baú de memórias de João Gilberto, herdado por Miranda, estava o certificado de autenticidade de uma luxa de boxe de Muhammad Ali, comprovando a paixão do artista pelo esporte. Além disso, uma descrição de seus cachês, que mostra que ele ganhara 110 mil dólares para uma série de quatro shows na Itália, em 1998, e também o adiantamento de 45 mil dólares por uma apresentação no famoso Carnegie Hall, em Nova York, onde o brasileiro ficou famoso no mundo todo após sua apresentação por lá em 1962.

Vários papéis trazem a caligrafia de João, que pouca gente conhecia já que ele não gostava de escrever e muito menos dar autógrafo. Foi achada também uma carta escrita por Jorge Amado, com rodapé redigido pela mulher do escritor, Zélia Gattai, em que o autor de "Gabriela" lamenta o desencontro que os dois tiveram nos Estados Unidos.

Outros objetos presentes na pasta mostram um pouco da excentricidade de João Gilberto. Uma de suas manias era falar horas e horas por telefone. Uma conta de um hotel de Milão, na Itália, em 1998, mostra que foram gastos, com uma única ligação, quase R$ 8 mil. "Ele estava lúcido, mas tinha lapsos, como qualquer pessoa de idade. Na frente de desconhecidos, ficava travado", disse o advogado à revista sobre o último encontro dos dois.

No mesmo dia, Gustavo Carvalho Miranda levou o compositor para comer frutos do mar e tomar vinho português num restaurante no Rio à beira-mar. O advogado lembra que, enquanto compartilhava de sua intimidade, João Gilberto falava sempre com saudade da primeira mulher, Astrud, e da vontade de voltar a viver nos Estados Unidos. Outro imagem que nao sai da cabeça do advogado é do artista sentado numa poltrona vermelha, cantarolando clássicos da Bossa Nova, como "Bim Bom" e "Samba de uma nota só": "Penso, no futuro, em talvez doar a uma instituição. Mas não para a família dele, onde ninguém se entende".