De Witzel a Sergio Moro: na base bolsonarista, os exaltados serão destroçados

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Brazil's President Jair Bolsonaro and Brazil's Justice Minister Sergio Moro gesture during a launching ceremony of public policies against violent crimes at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil August 29, 2019. REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro e seu ex-ministro da Justiça, Sergio. Foto: Adriano Machado/Reuters

Se dependesse da vontade quase imperial de Bolsonaro e seu entorno, não haveria oposição nem ideias divergentes correndo por aí entre partidos, gabinetes, ONGs, veículos de comunicação, espaços de manifestações artísticas e plataformas de streaming.

No mundo ideal, o mito emplacaria sem resistência sua versão oficial da história e dos fatos sobre cheques, funcionários-fantasma, queimadas e remédios milagrosos e todos os súditos seriam guiados pelo mouse como um velho jogo de PC sem desconfiar do próprio destino, ainda que o destino fosse o abismo.

Para seu azar, nem todo mundo está disposto a dobrar a espinha e apanhar sorrindo. Por mais dispersa, a oposição ainda existe, elegeu uma bancada nas últimas eleições e deve mostrar força nas municipais deste ano, marcadas pela forte mobilização de mulheres, sobretudo mulheres negras.

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Mas há uma categoria no jogo de forças da chamada polarização que começa a ser destroçada pelo contexto político atual. São os ex-aliados do presidente, que no primeiro desentendimento foram jogados na estrada com fraturas expostas -- sem base e apoio orgânico na sociedade civil para sair em sua defesa. Nem que fosse com notas de pesar.

Vejam a coincidência. Em Santa Catarina e no Rio de Janeiro, dois governadores eleitos na onda bolsonarista e que romperam em seguida com o presidente estão perto de serem ejetados do cargo.

No mesmo dia, deputados das Assembleias Legislativas do Rio e de Santa Catarina votaram pelo avanço dos processos de impeachment Wilson Witzel (PSC) e Carlos Moisés da Silva (PSL).

Por 24 votos a 0, a Comissão Especial de Impeachment da Alerj aprovou o parecer pelo prosseguimento do processo contra o governador afastado por ordem do Superior Tribunal de Justiça. Ele é acusado de uma série de irregularidades em contratos emergenciais na área da saúde para o combate à pandemia investigado pela Polícia Federal.

Moisés da Silva também é alvo da PF, que por ordem do STJ vai apurar indícios de superfaturamento na compra de respiradores. A razão oficial para que os deputados estaduais decidissem por seu afastamento, porém, foi o aumento salarial concedido a procuradores do estado em 2019, que configuraria crime de responsabilidade.

Tanto Witzel quanto Moisés romperam com Bolsonaro durante a pandemia. O primeiro pediu desculpas e se disse arrependido por votar no atual presidente. O segundo manifestou, no auge da pandemia, estar estarrecido com a sabotagem do governo federal nos esforços pelo isolamento social.

Outros ex-aliados que bateram de frente com o poder central também entraram em uma espécie de inferno astral, caso de João Doria (PSDB-SP), que viu um secretário de Transportes ser alvo da PF e vive sob ataque da base bolsonarista.

Alguns ameaçaram romper de vez com o governo, mas recuaram por estratégia ou conveniência. Ronaldo Caiado (DEM-GO), por exemplo, recuou nas críticas e postou elogios nas redes ao presidente com quem se reconciliou após atacar o seu papel na pandemia.

Antes de ser eleito, Bolsonaro fez referências à “Ponta da Praia”, um lugar de desova de corpos na ditadura, como o destino adequado para opositores. Os primeiros a serem destroçados, por ironia, foram justamente os primeiros a abraçar o capitão.

Joice Hasselmann (PSL-SP), deputada que na campanha era uma das maiores porta-vozes de Bolsonaro em São Paulo, se afastou e enfrentou todo tipo de ataque, inclusive gordofóbico, da militância bolsonarista, seus filhos inclusive. Os meninos do MBL foram para o mesmo limbo.

Luiz Henrique Mandetta (Saúde), general Santos Cruz (Secretaria de Governo), Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral da Presidência) e outros ex-integrantes do governo foram para o ostracismo conforme se afastaram do presidente. Morto em 14 de março, Bebianno, figura-chave na campanha de 2018, não recebeu uma única homenagem póstuma.

Dos ex-aliados ninguém foi mais avacalhado do que Sergio Moro, chamado de traidor pelas milícias digitais após sua demissão. Sem apoio de parte do eleitorado por conta de sua atuação na Lava Jato, expostas nas conversas privadas publicadas pelo The Intercept Brasil, caiu do posto atirando após ser humilhado na reunião de 22 de abril.

Nesta semana, o ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello suspendeu o inquérito em que Bolsonaro é acusado de interferir na Polícia Federal. Foi elogiado pelo presidente, que corria o risco de ter de prestar depoimento pessoalmente, em sua live semanal. “O Moro não tem que perguntar nada para mim”, disse o capitão.

No mesmo dia, Moro conseguiu sua inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil do Paraná. Após mais de 20 anos como juiz, o ex-superministro da Justiça aventado como futuro presidente ou ministro do STF tenta reiniciar agora a carreira como advogado.

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