Ex-'cancelado', Rico Dalasam volta com disco de redenção e admite que briga afetou carreira

Luccas Oliveira
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Há diversos motivos para alguém ser cancelado nas redes sociais, assim como existem muitas formas de retomar o caminho. No caso do rapper, cantor e compositor Rico Dalasam, voz que abriu as portas da potente cena do queer rap brasileiro, ambos foram inesperados. A pancada veio de quem deveria ser aliado: autor da letra de “Todo dia”, hit que impulsionou o sucesso de Pabllo Vittar em 2017, Dalasam entrou num imbróglio judicial com Rodrigo Gorky, produtor da drag queen. A confusão tirou a música das plataformas de streaming, e o compositor saiu como vilão para os numerosos fãs de Pabllo.

— Esse episódio criou uma sombra sobre o que eu vinha fazendo — admite Dalasam, cria de Taboão da Serra, periferia paulistana. — Me atrapalhou, pois queria continuar a tocar as coisas. Mas é um país que não sabe lidar com leis trabalhistas, e não é típico alguém como eu mexer com isso. Isso vai afetando o ouvinte médio do Spotify, o publicitário, o contratante de show que se diz super progressista...

O retorno vem em forma de fábula, com o álbum “Dolores Dala, o guardião do alívio”, seu segundo disco cheio, sucedendo o incensado “Orgunga” (2016). Como declama na faixa-título: “não falaria de alívio se não tivesse doído tanto (...) Porque a melhor versão de nós nunca foi na agonia, na confusão dos ódios, na distração dos brancos”.

— Fiquei muito desencantado com esse universo, e tudo o que fiz a partir de então foi movido pelo desencanto. Passou a ser minha força motriz — explica o artista, que mais canta e versa do que faz rap em seu novo álbum. — É uma história longa que eu estou contando. Reencontrei a vontade de fazer música não no tempo do mercado, mas no meu tempo. Quase o tempo da literatura, e as músicas são a trilha sonora da obra literária.

No centro da história contada em sua fábula, estão as questões da afetividade das pessoas pretas na América do Sul. Ao longo das faixas, versos diretos mas poéticos falam do impacto social de relacionamentos interraciais, “o desdobramento estrutural de amar e trocar afeto com uma pessoa preta em público”. “As coisas que eu vivia no off-line”, resume:

— Acho que a última vez que vi alguém falando assim sobre a afetividade do povo preto foi o pagode dos anos 1990. Estou tentando achar um jeito objetivo e simples de pensarmos essas questões, para que entrem no popular da sociedade.

Rico Dalasam ficou “uns três anos fazendo música sem parar”, junto com produtores de confiança que ajudaram a trazer a roupagem sonora “pop pero no mucho” das onze faixas, que também serão lançadas em formato de vinil neste semestre. Com o baiano Mahal Pita pôde revisitar uma origem de samba-reggae de seu primeiro sucesso, “Aceite-c”; de lá também trouxe Rafa Dias e Chibatinha, que botam o pagodão baiano no mundo com o grupo Àttooxxá; Netto Galdino, de Caravelas, “traz outra estética de Bahia”; enquanto Pedrowl traz uma linguagem do que é o indie pop brasileiro. Completam o time de produtores Moisés Guimarães e Dinho Souza, que acompanham Dalasam nas turnês, e levam algumas faixas para um r&b também nosso. É um disco que “descende e reproduz África”, dos versos às batidas.

No caminho do desencanto, em seu próprio tempo, Rico Dalasam foi descobrindo o que ainda o motivava a mexer com música, e tendo demonstrações claras de que ainda era necessário e querido. Em julho, ouviu de Emicida, no programa de entrevistas “Roda Viva”, que era dele “uma das canetas mais importantes do país”, num reconhecimento público de seu talento como compositor. Em novembro, “Braille”, o single que marcou seu retorno à música, foi eleito pelo júri canção do ano no Prêmio Multishow, superando “Amor de que”, de Pabllo Vittar. Rico nem comemorou: estava dormindo.

— Não queria assistir — admite. — Não é esse tipo de rolê que eu tô buscando hoje, de fato. É como quando te chamam pra uma festa, mas você não está no clima. Eu tô numa de ficar em casa, entendeu? Esses lugares, prêmios, já estiveram disponíveis para mim, estive neles. Quero muito que aconteça algo que me emocione de novo, que eu sinta algo egóico, mas não prêmios...

E o que seria capaz de voltar a mobilizar um artista em desencanto?

— Eu não me vejo mais fazendo videoclipe, por exemplo, então vou achando minha linguagem. Quero lançar livros, tenho trocado ideia com editores, pessoas da área, lido algumas obras para entender em qual estilo literário me encaixo. São poemas não musicáveis, ao mesmo tempo que tenho sempre uma coisa discursiva. Tenho experimentado. Fiz um capítulo de um livro que vai sair em breve, com vários autores, fiz uns prefácios. No próprio disco tem cartas que escrevi.