Ex-catadores lidam com miséria e promessas não cumpridas após fim do lixão de Gramacho (RJ)

Rio de Janeiro, RJ, 01.06.2022  - 10 anos do fechamento do lixão de Jardim Gramacho, na região metropolitana do Rio, que foi o maior lixão a céu aberto da América Latina. (Foto: Tércio Teixeira/Folhapress)
Rio de Janeiro, RJ, 01.06.2022 - 10 anos do fechamento do lixão de Jardim Gramacho, na região metropolitana do Rio, que foi o maior lixão a céu aberto da América Latina. (Foto: Tércio Teixeira/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Quando sente saudade do passado, Ana Maria da Silva Bruni, 48, vai ao aterro sanitário de Gramacho e olha para o lugar que abrigou o maior lixão a céu aberto da América Latina.

Durante 28 anos, ela sustentou a família trabalhando no local como catadora de materiais recicláveis. Em um mês produtivo, conseguia R$ 1.000 por semana, dinheiro que usava para fazer compras e ainda sobrava para guardar na poupança.

Depois que o aterro foi desativado, em 2012, ela se viu sem trabalho. Como o poder público deu poucas alternativas para quem vivia da reciclagem, ela continua desempregada e, hoje, sua única fonte de renda são os R$ 400 do Auxílio Brasil.

Se antes sobrava dinheiro, agora é difícil até comprar comida. "Minha alimentação é precária. Quando não dá para comer carne, a gente compra ovo. Se dou sorte, consigo uma cesta básica. Mas, se a gente não correr, não consegue nada", diz ela, que mora com mais três pessoas na comunidade da Rampinha.

A ex-catadora lembra que recebeu com preocupação a notícia de que as autoridades fechariam o lixão, que funcionou por 34 anos no Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ). Ela conta que alguns de seus colegas até choraram, mas encontraram consolo nas promessas feitas pelas autoridades.

A principal delas dizia que um polo de reciclagem de nove galpões seria instalado próximo ao lixão para empregar parte dos catadores. A unidade de fato foi inaugurada, mas pouco lembra o plano original. No local, existem apenas dois galpões.

À época, o governo disse que o lugar poderia empregar até 500 pessoas, mas nesta quarta-feira (1º) menos de 15 trabalhavam lá.

Funcionários afirmam que têm dificuldade para receber materiais e que se veem na iminência de perder o emprego por falta de insumos para reciclagem. Quando recebem entregas, não raro o material é impróprio para reciclagem.

"Eu queria entender até agora por que não está chegando material", diz Arina da Cunha, 41, vice-presidente de 1 das 3 cooperativas que ocupam o polo. "A Prefeitura de Caxias uma hora tem que olhar para a gente. Cadê a estrutura que falaram que teria?", questiona ela. "Quase todo dia vem catador pedir emprego. Mas como eu vou dar trabalho sem material?"

Em nota, a Prefeitura de Caxias disse que os catadores do polo de reciclagem receberiam em 2013 resíduos sólidos da Reduc (Refinaria de Duque de Caxias), ligada à Petrobras. A administração municipal não esclareceu, porém, por que os materiais não estão chegando atualmente.

Em razão dessa escassez de vagas, Ana Maria acabou não conseguindo trabalhar na unidade. "Sinto que me enganaram, que mentiram para mim. Iludiram a gente e não fizeram nada do que prometeram."

As autoridades também disseram que Jardim Gramacho seria revitalizado e viraria um bairro sustentável. Nada mais distante da realidade. Há ruas que não são asfaltadas e muitas casas não têm fornecimento de água. Os moradores precisam passar a madrugada acordados para tentar bombear água de uma fonte.

Por vezes, porém, as tentativas não dão certo e eles precisam comprar galões para matar a sede e tomar banho. Isso acaba onerando ainda mais famílias que já estão em dificuldade financeira. Há, inclusive, pessoas que nem mesmo têm banheiro em casa, como é caso de Ana Maria.

A Prefeitura de Caxias diz que 75% de Jardim Gramacho dispõe de saneamento básico e que o bairro tem 36 quilômetros de vias pavimentadas, restando três quilômetros para completar as obras de pavimentação.

"A minha vida era melhor quando tinha a rampa", diz Ana Maria, referindo-se ao lixão. "A gente subia para trabalhar com sol e com chuva. Hoje em dia, a gente deita, acorda e não tem onde trabalhar."

A alguns metros dali, Jane da Silva Bruni, 44, faz coro à opinião da irmã. Sentada em frente à casa de madeira onde vive com os seis filhos, ela diz que o trabalho no lixão era o que sustentava a família.

Hoje, ela e o marido mantêm a casa com cerca de R$ 800 por mês. A ex-catadora diz que conseguia esse valor em uma noite de trabalho no aterro.

Após o fechamento do local, a Prefeitura do Rio disse que indenizou 1.707 catadores com valores que totalizam R$ 23,8 milhões. Jane afirma que o marido recebeu o dinheiro, mas que ela não conseguiu a quantia mesmo tendo trabalhado mais de 20 anos no local.

"Eu trabalhei muito. Até grávida eu ia trabalhar. Mas muitos que nem colocaram os pés lá em cima receberam o dinheiro", diz ela. A administração municipal não respondeu sobre as alegações de falta de pagamento e de supostas fraudes.

Sebastião Carlos dos Santos, 43, conhecido como Tião, é presidente da associação de catadores do aterro de Jardim Gramacho e uma das principais lideranças da categoria. Ele diz que o valor da indenização, fixado em cerca de R$ 14 mil, estava aquém do necessário. "O catador ganharia isso em quatro ou cinco meses de trabalho."

Ele diz ainda que pessoas que dependiam da reciclagem, mas que não trabalhavam diretamente no lixão, também foram penalizadas.

"Ninguém defende que o catador tenha que sofrer a mazela dos lixões. Eu não defendo isso. Mas, no plano [de fechamento], apontou-se que um projeto como o polo de reciclagem traria melhoria na dignidade do trabalhador", diz ele. "Mas não teve nada disso. Faltou tudo. Faltou ação do governo."

Nesse vácuo de políticas públicas eficientes, ele diz que a miséria aumentou em Jardim Gramacho. "A região, que já era pobre, vive hoje na extrema pobreza."

Segundo o deputado Carlos Minc (PSB) --secretário estadual do Ambiente quando o lixão foi extinto--, as políticas públicas para compensar o fechamento não avançaram em razão de mudanças de gestão.

"Os governos que entraram tinham menos compromisso com a parte ambiental e menos compromisso com os catadores", diz ele, argumentando que a crise econômica do estado também prejudicou a implementação dos projetos.

Danos ambientais Instalado em uma região de manguezal às margens da Baía de Guanabara, o aterro de Gramacho ocupava 1,3 milhão de metros quadrados e recebia por dia cerca de 9.500 toneladas de lixo, material proveniente principalmente da capital do estado.

A grande quantidade de lixo gerou perda de biodiversidade e comprometeu a renda de pescadores da região.

"Em 1997, encontrei um cenário não de terra arrasada, mas de mangue arrasado", diz o biólogo Mario Moscatelli, que atua na recuperação dos manguezais do estado.

"Havia uma devastação do manguezal que ficava no entorno do lixão, o que foi fruto do escoamento do chorume", diz ele, em referência ao líquido tóxico produzido pela decomposição do lixo.

A parir de 1997, o biólogo passou a capitanear os esforços pela recuperação dos manguezais da região, trabalho que diz ter sido bem-sucedido. Segundo ele, já são 130 hectares de manguezais recuperados, 40 mil metros quadrados só no ano passado.

"Hoje, a fauna característica de mangue já está retornando, até aves migratórias estão aparecendo durante o verão", diz ele.

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