Ex-chefe da Polícia é denunciado por ajudar delegado em flagrante forjado

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) denunciou o delegado Allan Turnowski, ex-secretário estadual de Polícia Civil, por obstruir uma investigação criminal. O Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MP-RJ) reuniu provas de que o policial, na condição de chefe, ajudou o delegado Mauricio Demetrio a forjar um flagrante contra um colega, Marcelo Machado. Ele havia conduzido uma investigação contra Demetrio na Corregedoria de Polícia Civil.

Na denúncia, ajuizada na 1ª Vara Especializada em Crime Organizado da capital, Allan Turnowski foi acusado de liberar R$ 15 mil em verbas secretas para Demetrio executar a fraude contra Machado e, portanto, prejudicar a investigação interna. Com base em depoimento do próprio Demetrio, o Gaeco sustentou que o então secretário, a pedido do amigo, também teria interferido no andamento do inquérito policial aberto na Corregedoria e repassado informações ao investigado.

O MP-RJ também requereu à Justiça a perda do cargo de delegado e a interdição para o exercício de função ou cargo público pelo prazo de oito anos subsequentes ao cumprimento da eventual pena. Pediu ainda a fixação de um valor mínimo para reparação dos danos causados pelas infrações, “considerando os prejuízos sofridos pelos ofendidos e os danos morais causados à coletividade”.

A denúncia é baseada na lei que define organização criminosa . Ela dispõe sobre a investigação criminal e prevê pena de reclusão de três a oito anos e multa a quem impede ou, de qualquer forma, embaraça a investigação de infração penal que envolva organização criminosa. Em setembro, Turnowski e Demetrio foram presos sob a acusação de integrar uma organização criminosa que atuava em benefício da contravenção.

As investigações do Gaeco demonstraram que o ex-secretário recebia propina do jogo do bicho. Os dois se chamavam mutualmente de “guru” nas trocas de mensagens recuperadas em um dos 12 celulares de Demetrio. “Nós somos um CNPJ, um CPF só! Irmãos de embrião”, escreveu Turnowski para Demétrio em uma das mensagens. A defesa do ex-secretário disse que a prisão é um "movimento de perseguição política".

Então titular da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), o delegado Mauricio Demetrio foi acusado de forjar um flagrante contra o colega Marcelo Machado. Em troca de mensagens pelo aplicativo WhatsApp, ele se fez passar por “Ana” para encomendar mil camisetas com a estampa “Minions” à confecção que o Marcelo mantinha com um sócio. Em seguida, o próprio Demétrio fez uma operação contra confecção, prendendo os dois sócios, sob a acusação de comércio de material pirata, já que a empresa não teria direito a estampar a marca.

A operação forjada, batizada de Raposa no Galinheiro, ocorreu em março de 2021. O objetivo de Demetrio seria o de desmoralizar Marcelo Machado. Isso porque Machado, como integrante da Corregedoria de Polícia Civil, havia investigado denúncia de corrupção envolvendo Demetrio. O sócio do delegado, Alfredo Baylon, também foi preso.

De acordo com o Gaeco/MP-RJ, Demetrio usou recursos da Polícia Civil, como a abertura de um falso procedimento criminal e a produção de um texto da Secretaria de Polícia Civil para imprensa sobre a operação, para dar ar de legalidade ao flagrante forjado.

As investigações do Gaeco, com base no backup das conversas de “Ana”, demonstraram que a listagem de contatos da “compradora” incluía telefones formalmente cadastrados em nome de Demetrio e sua esposa. As conexões da linha usada por “Ana” foram feitas com o emprego de internet a cabo instalada da casa de Demetrio e a ERB (estação rádio-base) utilizada na comunicação do celular que ficava próxima à casa do acusado.

O flagrante forjado contou com a produção de documentos materialmente falsos, como relatórios de diligências de agentes em conluio com Demetrio e uma representação apresentada por um advogado contra Machado. Para dar um “verniz de legalidade à trama”, o então titular da DRCPIM chegou a instaurar procedimento policial.

Um dos celulares usados por “Ana” na negociação das camisetas continha um texto de divulgação jornalística (release), escrito pelo próprio Demetrio, com dados sobre a operação Raposa no Galinheiro, incluindo a notícia da prisão em flagrante de Machado. O texto, segundo a investigação, foi elaborado na véspera da operação, mas já previa o flagrante. “O acerto da tal ‘previsão’ contida no texto só foi possível pois o próprio Mauricio Demetrio havia encomendado as camisas com estampa ‘Minion’”, disse o Gaeco.

O acesso às conversas de aplicativo em celular de Demetrio revelou ainda que o delegado trocou mensagens com um assessor de imprensa da Secretaria de Polícia Civil, nas quais ambos combinam detalhes sobre as informações de uma nota de divulgação sobre o falso flagrante, escrito pelo próprio delegado. Normalmente, quem cuida deste tipo de texto é a assessoria de imprensa da secretaria.

Na troca de mensagens, o assessor informou a Demetrio que, após submeter o texto proposto a Turnowski, recebeu a orientação de apenas ajustar um trecho, no qual a operação passa a ser responsabilidade da DRCPIM e não da Corregedoria, como o delegado havia escrito originalmente. Feita a modificação, a nota foi divulgada.

O EXTRA está em contato com a defesa dos acusados.