Ex-diretor da Unir Saúde entra em contradição durante depoimento no julgamento de Wilson Witzel

Luiz Ernesto Magalhães
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Alexandre Cassiano / Agência O Globo

Rio - Ex-diretor médico da Organização Social (OS) Unir Saúde, Bruno José da Costa Kopke Ribeiro prestou na noite desta quinta-feira, dia 17, um depoimento considerado cheio de contradições entre integrantes do grupo, na comissão processante do impeachment do governador afastado Wilson Witzel. Em 2018, Bruno foi um dos maiores doadores de campanha do ex-governador. Ele efetivou um depósito de R$ 75 mil na conta da campanha em 26 de outubro, dois dias antes do segundo turno.

A Unir Saúde é a ONG que, em março de 2020, foi reabilitada por Witzel depois de ser afastada de contratos com a Secretaria estadual de Saúde por irregularidades na gestão de UPAs e outras unidades de saúde. Segundo investigações do braço carioca da Força-Tarefa da Lava-Jato, a Unir Saúde teria como sócio oculto o empresário Mário Peixoto. Peixoto, que também prestou depoimento na comissão mais cedo, negou qualquer ligação com a OS.

Bruno, que foi o quinto maior doador da campanha afastado, disse que decidiu contribuir com a campanha por sentir representado pelos discursos mais incisivos sobre segurança pública adotados tanto pelos então candidatos a presidente Jair Bolsonaro e a governador Wilson Witzel.

— Em 2017, eu e minha mulher sofremos um assalto em Grumari. Fiquei com a arma na cabeça. Levaram o carro, um Land Rover. Estava cansado dessa violência no Rio de Janeiro — disse Bruno, acrescentando que jamais esteve pessoalmente com o governador.

A partir daí, começaram as contradições. Integrantes da comissão processante disseram que não localizaram nenhuma Land Rover em nome do médico. Outro ponto que chamou a atenção é que, pouco depois de dizer que estava acompanhado da mulher no assalto, disse que saiu de Grumari de carona e se encontrou com a mulher na delegacia do Recreio para registrar a ocorrência, a fim de receber o seguro.

No entanto, logo depois, o médico afirmou:

— Acabei não registrando o caso no Recreio. A seguradora localizou o carro em Campo Grande.

Os integrantes da comissão processante pediram que o médico apresente provas posteriormente que registrou a ocorrência bem como de comprovante de rendimentos. Eles queriam saber se o médico teria renda suficiente para fazer uma doação de R$ 75 mil. Pela legislação eleitoral, doações de pessoas físicas não podem superar 10% dos vencimentos anuais — o que daria R$ 750 mil por ano:

— Eu faço muitos plantões médicos. Trabalho bastante. Sou conhecido no meio por isso — justificou Bruno Kopke Ribeiro.

O médico afirmou ainda que, para fazer a doação, pegou o contato do PSC (partido de Witzel) na internet. E pediu o número da conta que poderia depositar a contribuição. Posteriormente, alguém ligou para ele para entregar um recibo. Ele, no entanto, não tem certeza se o comprovante foi apresentado na declaração do Imposto de Renda. Na avaliação do desembargador, o depoimento de Bruno realmemte teve contradições:

— Os integrantes da comissão solicitaram documentos complementares. Se ficar provado que algo que ele declarou não condiz com a realidade, ele pode vir a ser processado por isso — disse o desembargador Claudio de Mello Tavares, presidente do TJRJ.

O relator do processo, deputado Waldeck Carneiro (PT), disse que apesar de várias testemumhas terem optado em permanecer caladas porque são citadas em um processo que corre n STJ relacionados às fraudes na Saúde, os depoimentos ao longo das 13 horas que duraram a sessão (9h às 22h) foram proveitosos:

— Eles vão complementar dados de dois gigabytes de documentos que o STJ repassou para a comissão relativos ao caso — disse Waldeck.

O deputado Luiz Paulo (sem partido) acrescentou que vários depoimentos serviram para demonstrar que havia uma desorganização total das áreas de gestão e controle da Secretaria estadual de Saúde que favoreceram OSs como o Iabas e a Unir Saúde.

Outro a prestar depoimento na noite desta quinta foi o ex-prefeito de Nova Iguaçu Nelson Bornier. Seu nome apareceu em diálogos em interceptações telefônicas entre investigados na operação Favorito como tendo interferido para que a Unir Saúde fosse reabilitada por Witzel.

O próprio Bornier figura numa desses grampos. Na ligação, o empresário Luiz Roberto Martins Soares, representante da Unir Saúde, comemora a reabilitação da OS, em uma decisão de Witzel que havia revogado de uma resolução conjunta das secretarias estaduais de Saúde e da Casa Civil. Bornier negou ter exercido qualquer influência na decisão.

— A Unir Saúde prestou serviços em Nova Iguaçu. Conhecia Luiz Roberto. Por isso tínhamos contato. Essa foi a relação e explica as ligações — disse Nelson Bornier.