Ex-dono da Objetiva vai coordenar selo de não ficção na Intrínseca

Ruan de Sousa Gabriel

SÃO PAULO – Em 2015 Roberto Feith vendeu a Objetiva, editora que dirigia desde 1991, para a Companhia das Letras, mas sua cabeça de editor e jornalista (nos anos 70, ele foi correspondente da Rede Globo na Europa e, na década seguinte, editor-chefe do “Globo Repórter”) nunca parou de trabalhar “bolando livros”. Em outubro passado, quando expirou a cláusula de não competição incluída no contrato de venda, Feith procurou Jorge Oakim, dono da editora Intrínseca, com uma proposta: um selo para publicar não ficção, de livros-reportagem e biografias a títulos que destrinchem dilemas políticos e econômicos de nossos dias. Oakim topou na hora.

Os primeiros títulos do novo selo, o História Real, chegam às livrarias em meados deste ano. Feith e Oakim estão tocando o projeto a quatro mãos.

— A vida toda, como correspondente, dirigindo o “Globo Repórter”, produzindo documentários ou tocando a editora, trabalhei com não ficção: garimpando casos e personagens, procurando bons temas e matutando sobre como contar essas histórias. É assim que funciona a minha cabeça —conta Feith. — Também acho que tudo começa com a não ficção, com a observação do real. Desde os tempos de Homero a gente precisa das histórias, reais ou imaginárias, para encontrar sentido neste mundo em que nascemos.

O História Real, diz Feith, nasce com a ambição de participar das “discussões em curso no país” e publicar títulos que esbocem respostas a questões espinhosas, que perturbam os brasileiros: “Por que a Justiça brasileira é lenta, dispendiosa e não trata ricos e pobres com o mesmo rigor? Por que há tantos partidos políticos no Brasil? Para que serve o Estado?”

— Há a intenção de abordar alguns dos nossos nós políticos e institucionais —explica Feith. — A gente vem conversando com pessoas que trabalham com esses temas, buscando, sempre que possível, uma perspectiva renovadora. E tem gente brilhante, comprometida e criativa trabalhando em várias áreas. Quando a gente está construindo uma coisa nova, pode pensar grande, se permitir uma dose de pretensão.

Feith elogia a não ficção brasileira recente (“acho o segmento vigoroso”) e faz “uma única ressalva” aos livros políticos:

— Às vezes, há a tendência a pregar para convertidos, que pouco acrescentam.

O pior já passou

Para garantir que seus títulos, de fato, acrescentem às “discussões em curso no país”, o História Real só vai publicar brasileiros, porque “há um espaço vital que só o autor nacional é capaz de ocupar”. Mas não só por isso:

— Gosto de trabalhar com autores. De pensar como e por que determinada pessoa poderia escrever sobre determinado assunto e ajudá-los a encontrar a forma que melhor expressa o que querem dizer. Invariavelmente, eles sabem muito mais do que eu sobre os temam que investigam. Aprendo muito. Nada disso é possível publicando autores estrangeiros. Tudo já vem pronto e acabado. E nem sempre é relevante para nós.

O mercado de livros não é mais aquele que Feith deixou em 2015. A recessão bateu forte no setor. Segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), as vendas caíram 27% entre 2014 e 2018, e o preço médio do livro também diminuiu. A crise das duas principais redes de livraria do país, a Saraiva e a Cultura, complicaram ainda mais o caixa das editoras. Entre 2006 e 2018, o mercado editorial encolheu 25%.

A concentração também aumentou. Em 2018, a Companhia das Letras passou para o controle da Penguin Randon House, o maior conglomerado editorial do mundo, que, hoje, detém 70% da editora da família fundada pela família Schwarcz. No ano passado, a Companhia arrematou a Zahar. Para Feith, “o pior já passou”.

— É aquela história: quando a maré baixa é que a gente vê quem está nu. Mas o mercado digeriu essas perdas, buscou alternativas e se estabilizou. Quanto à tendência pela consolidação, da busca por economias de escala, é natural, como em qualquer setor de atividade. A consolidação não é um problema, contanto que acompanhada pela criação de novas editoras e projetos. É o que vem acontecendo.

As novas tecnologias, que roubam o tempo que, no passado analógico, era dedicado à leitura, também não preocupam Feith. Pelo contrário: ele aposta na resiliência do editoras e na popularização dos audiolivros.

— Nada substitui plenamente a potência, riqueza e alcance da narrativa mais longa. A disseminação dos smartphones potencializou o audiolivro, que cresce com força nos mercados mais maduros.

Feith listou alguns dos livros que separou para ler durante as folgas de fim de ano — todos de não ficção.

— Acabei de ler o segundo volume da biografia do Getulio, do Lira Neto. Também terminei “Advice and Consent” (de Allen Drury), sobre como são escolhidos os membros da Suprema Corte americana, que me foi sugerido pelo Diego Arguelhes, professor de direito do Insper e um dos autores contratados para o História Real. E comecei a ler “Na Raça”, bela reportagem de Maria Luiza Filgueiras (sobre a criação da XP).