Trump critica ex-embaixadora dos EUA da Ucrânia em audiência pública

Por Michael Mathes
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Ex-embaixadora na Ucrânia Marie Yovanovitch

A ex-embaixadora americana na Ucrânia, destituída por Donald Trump assegurou nesta sexta-feira (15), em audiência do processo de julgamento político do presidente, que se sentiu intimidada por ele, depois que ele a criticou duramente no Twitter durante seu testemunho no Congresso.

Em uma audiência transmitida pela TV, os democratas que investigam Trump com vistas a um julgamento político, interrogaram Marie Yovanovitch durante cinco horas sobre suas relações com aliados do presidente aos quais ela acusa de socavar a política externa americana na Ucrânia.

A diplomata foi ovacionada ao concluir seu testemunho, no qual detalhou como foi submetida a uma "dolorosa" campanha de calúnias antes de ser abruptamente destituída de Kiev.

O tuíte furioso de Trump foi publicado enquanto a ex-embaixadora testemunhava diante da Câmara dos Representantes em uma audiência que busca determinar se o presidente abusou de seu cargo para benefício político pessoal.

"Em todos os lugares onde Marie Yovanovitch se meteu, deu errado", disse Trump, em relação ao desemprenho da ex-diplomata. Ele acrescentou que a saída de seu cargo em maio passado dizendo que foi "absolutamente correto".

Isso é "muito intimidador", queixou-se Marie Yovanovitch, ao ser consultada sobre os efeitos que o tuíte de Trump pode ter sobre ela e outras testemunhas. "Não posso dizer o que o presidente está tentando fazer, mas acho que o efeito é intimidador", acrescentou.

A explosão de Trump mostrou a tensão que rodeiam as audiências públicas, que buscam determinar se o presidente abusou de seu cargo para seu próprio benefício político.

O testemunho desta sexta-feira foi mais espetacular que as primeiras audiências da quarta-feira, nas quais depuseram dois diplomatas de alto nível, entre eles o atual enviado à Ucrânia.

O ocupante da Casa Branca investiu contra Yovanovitch, enquanto ela explicava aos legisladores o "perigoso" que era para os diplomatas americanos não ter o apoio de sua própria administração.

O presidente do Comitê de Inteligência da Câmara de Representantes, Adam Schiff, assegurou durante um recesso na audiência:

"Não bastava que a embaixadora Yovanovitch fosse caluniada, não bastava que fosse atacada, não bastava que fosse retirada do serviço sem razão alguma", disse, agora está experimentando a "intimidação de testemunhas em tempo real por parte do presidente dos Estados Unidos".

Schiff não disse se se tratava de um delito que pudesse ser julgado em um processo de destituição, mas a manipulação de testemunhas, inclusive a intimidação é um delito.

A investigação pode transformar Trump no terceiro presidente dos Estados Unidos submetido a um julgamento político, depois de Andrew Johnson, em 1868, e Bill Clinton, em 1998. Para que o mandatário seja destituído, teria que ser condenado pelo Senado, onde os republicanos têm maioria.

- "Caos" -

Yovanovitch assegura que, antes de sair, foi alvo de uma campanha em parte orquestrada pelo advogado do presidente, Rudy Giuliani, acusado de ajudar Trump a coordenar os esforços para pressionar Kiev a investigar seu adversário democrata, Joe Biden.

A embaixadora disse ter sido expulsa por "afirmações falsas", difundidas por atores questionáveis aliados a Trump. E expressou sua preocupação com as represálias, especialmente depois de saber que o presidente, em um telefonema ao colega ucraniano, Volodimir Zelenski, em julho, a tinha descrito como uma "má notícia" e assegurado que ela "ia passar por algumas coisas".

Mas, sobretudo, Yovanovich expressou seu alarme pelo fato de que os embaixadores pudessem ser tão facilmente manipulados por falsas acusações e influências estrangeiras corruptas.

"Nossa política na Ucrânia mergulhou no caos e nos interesses turvos, todo mundo aprendeu que se precisa pouco para eliminar um embaixador americano que não lhes dá o que querem", disse.

Yovanovich criticou os líderes do Departamento de Estado e, por extensão, o secretário de Estado, Mike Pompeo, por não fazer frente às forças que "aparentemente sequestraram" a política americana na Ucrânia e não defendê-la dos ataques "perigosamente incorretos".

- Más notícias -

Os republicanos não questionaram a integridade da embaixadora, mas lembraram que continuava sendo funcionária do Departamento de Estado em um posto prestigioso em uma universidade.

E a sobrecarregaram de perguntas sobre os negócios do filho de Joe Biden, Hunter, na Ucrânia, enquanto seu pai era vice-presidente dos Estados Unidos. Yovanovitch reconheceu que isso "poderia dar a impressão de um conflito de interesses".

Os congressistas republicanos também insistiram em que ela não podia aportar nenhum elemento factual às pesquisas, pois não estava na embaixada no momento dos principais fatos investigados.

William Taylor, encarregado de negócios que a substituiu em Kiev, declarou na quarta-feira, nas primeiras audiências no Congresso, que outro embaixador o informou de que Trump tinha condicionado o desbloqueio de fundos à Ucrânia à abertura de uma investigação sobre Joe Biden. Trump diz não se lembrar de ter dito nada parecido.

O testemunho chega junto com outras más notícias para o presidente. O ex-assessor de Trump, Roger Stone, foi declarado culpado nesta sexta de mentir ao Congresso e ser uma testemunha das manipulações para tentar proteger o presidente na investigação sobre a interferência russa nas eleições de 2016.