Polícia investiga procedência de substância usada contra ex-espião russo

Por Alfons LUNA
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O hospital de Salisbury, no sul da Inglaterra, onde estão em tratamento o ex-espião russo Serguei Skripal e sua filha, Yulia, em 6 de março de 2018

A Polícia britânica dá continuidade, nesta quinta-feira (8), à investigação sobre como chegou ao país o agente químico que deixou o ex-agente secreto russo Serguei Skripal e sua filha Yulia entre a vida e a morte.

O primeiro policial que atendeu pai e filha quando já estavam inconscientes, no domingo, em um banco na cidade de Salisbury, no sudoeste do país, encontra-se em estado grave.

Todas as atenções se dirigiram para a Rússia, depois do episódio similar com Alexander Litvinenko - um ex-agente russo assassinado em Londres em 2006 com uma substância radioativa -, mas Moscou negou estar por trás do ataque e denunciou ser vítima de uma campanha de desprestígio.

"Nos comprometemos a fazer tudo o que pudermos para levar os autores à Justiça, seja quem forem e onde estiverem", disse no Parlamento a ministra britânica do Interior, Amber Rudd.

Sobre a saúde dos feridos, Rudd disse que os alvos do atentado permanecem em estado muito grave e inconscientes, enquanto o policial já pode falar e responder.

"O uso de um agente nervoso em solo britânico é um ato sem-vergonha e insensato", acrescentou Rudd. "Foi uma tentativa de assassinato do modo mais cruel".

Em alusão velada às acusações da Rússia, Rudd pediu calma: "se vamos ser rigorosos na investigação, temos que evitar especulações e deixar que a Polícia continue investigando".

- 'Presente de amigos' -

Skripal, um ex-coronel que chegou ao Reino Unido em 2010 em uma troca de espiões após ser condenado por alta traição por passar informação a Londres, pode ter recebido a substância em um pacote - "presente de uns amigos" - que sua filha Yulia trouxe da Rússia quando o visitava, especulou o jornal The Times, citando uma fonte anônima.

Outras hipóteses são que o veneno foi aplicado com um spray, ou misturado na comida, ou na bebida. Antes de serem encontrados gravemente feridos, Skripal e sua filha haviam passado por um "pub" e por um restaurante italiano próximos, ambos isolados pela polícia no domingo.

Uma testemunha, que viu pai e filha no restaurante, disse à BBC que Skripal estava "muito agitado" e "parecia perder a paciência".

"Começou a falar aos gritos, queria a conta e ir embora", explicou.

Os apelos do governo feitos à população para que mantenha a calma não frearam os que pediam o rompimento das relações com a Rússia.

"Não vejo como podemos manter relações diplomáticas com um país que tenta assassinar pessoas em solo britânico e põe em perigo as vidas de cidadãos britânicos", tuitou o deputado conservador Nick Boles.

- 'Não vai sair dessa' -

O comandante da Polícia contraterrorista britânica, Mark Rowley, negou-se a identificar o tipo de gás usado no atentado.

O gás sarin é o mais conhecido dos agentes químicos. Trata-se de uma potente substância neurotóxica, inodora e invisível, que, embora não seja inalada, seu simples contato com a pele bloqueia a transmissão do influxo nervoso e conduz à morte por parada cardiorrespiratória.

As vítimas se queixam, primeiramente, de violentas dores de cabeça e apresentam pupilas dilatadas. Depois, sofrem convulsões, paradas respiratórias e entram em coma, antes de falecer.

Segundo fontes dos serviços de segurança citadas pelo jornal "The Sun", apenas alguns poucos laboratórios no mundo são capazes de produzir essas substâncias várias vezes usadas na guerra da Síria. Entre elas está o Yasenovo, perto de Moscou, que pertence aos serviços secretos.

A substância pode acabar com o velho coronel. Citando um importante funcionário do governo britânico que não foi identificado, o jornal "The Times" disse que a condição de Skripal é especialmente grave.

"Existe a impressão de que não vai sair dessa", disse essa fonte para o jornal.

"Acho que pode ser mais positivo (para Yulia)", completou.

Yulia era o único membro familiar que restava ao espião. Sua mulher morreu de câncer em 2012, e seu filho Alexander, de insuficiência hepática, em 2017, aos 43 anos, em São Petersburgo.

A embaixada russa enalteceu a forma "responsável" com que as autoridades tratam do caso. "Primeiro provas e depois as conclusões no caso do senhor Skripal", indicou em um comunicado.