Ex-executiva abandona mundo corporativo para virar especialista em brownie

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RIO — Merece um doce quem adivinhar o que é “felicidade em forma de quadradinhos”. Esta alegria instantânea também pode ser chamada de bolo e há a possibilidade de ela dar o ar da graça em uma versão cremosa, servida numa taça tamanho família. Acertou os que responderam que a delícia em questão atende pelo nome de brownie.

Reza a lenda que esta guloseima nasceu em 1920, em New England, nos Estados Unidos, após uma mulher esquecer de colocar fermento na sua receita de torta de chocolate e, ao perceber que o preparo não havia saído como o planejado, servi-lo assim mesmo, em fatias planas. Mas se a origem da sobremesa tem sotaque americano, a que faz o maior sucesso no Grajaú tem um toque francês com pitadas generosas de brasilidade e carioquice.

Em 2009, a então executiva de Recursos Humanos Paty Louzada ficou maravilhada ao provar um brownie que tinha um sabor especial, nunca antes experimentado por ela. Logo soube que se tratava de uma criação assinada por um chef francês. A moradora do Grajaú não se fez de rogada e perguntou a uma pessoa próxima a este especialista em arte culinária se poderia informar a lista de ingredientes e o passo a passo de como fazê-lo. Seu pedido foi atendido, e não demorou para a moça colocar a mão na massa. A partir daí, nenhum evento familiar podia acontecer sem a presença desta delícia, que logo ganhou fama e passou a arrancar suspiros dos colegas de trabalho da até então confeiteira amadora. Quis o destino que a relação da aprendiz de doceira com a guloseima se tornasse íntima e inseparável.

— Eu comecei a fazer brownies de uma forma despretensiosa assim que ganhei a receita de um chef francês. No início não vendia. Simplesmente preparava e levava para as festas de família e da empresa em que trabalhava. De repente, começaram a surgir as primeiras encomendas. Mas era algo muito artesanal. Eu entregava os pedidos sem embalagem, em potes de plástico mesmo. Na época, não tinha criado nome, marca, nada. Mas como as pessoas gostavam muito do brownie que eu fazia, aos poucos entendi que não era problema ganhar um dinheiro extra com eles. Mas só criei a Paty Louzada Ateliê Doce dez anos depois, quando aderi ao programa de demissão voluntária da corretora da qual eu era funcionária — diz a confeiteira, que disponibiliza o perfil @patylouzada, no Instagram, para os interessados em conhecer o doce que leva a sua assinatura.

Transformar-se numa profissional referência em brownie virou praticamente uma obsessão para a ex-executiva, que fez uma infinidade de cursos de confeitaria, o que possibilitou que aperfeiçoasse a receita original.

— Dei o meu toque abrasileirado, carioca, à receita original. Essa mudança permitiu que eu fizesse bolo de brownie, confeitado e com recheio, e também uma versão mais cremosa, que é servida numa taça para comer de colher. Eu sou tão apaixonada por fazer brownies que não tenho a menor vontade de abrir o leque e passar a fazer outros tipos de doces. O meu sonho é que as pessoas associem brownie à minha marca. Pensou brownie, pensou Paty Louzada — diverte-se a doceira, que tem receitas recheadas com brigadeiro, doce de leite e paçoca, entre outros sabores.

Dominar a arte de produzir brownies foi apenas uma parte da preparação da confeiteira para lançar a sua marca em julho de 2019. Era preciso também ter conhecimento de marketing digital, pré-requisito para divulgar os produtos nas redes sociais, e ainda criar uma logomarca e encomendar as embalagens com a sua nova identidade profissional. Verdade seja dita, essa parte foi menos doce do que ir para a cozinha diariamente, em alguns casos por até 14 horas ininterruptas de trabalho.

— Eu não tinha a menor noção deste universo de estratégia de marketing digital, nem de criar arte para as embalagens, então fui estudar. Participei de todo o processo, desde escolher o material de papelaria até a criar a “cara” do nosso perfil no Instagram, passando, claro, pela compra dos ingredientes e o preparo das receitas. Até hoje, cuido de tudo sozinha. A exceção é o serviço de entregas. Amo ser uma empreendedora no mercado de brownies. Só não gosto muito de ter que estar sempre produzindo conteúdo para o Instagram e da parte comercial. Mas faz parte do jogo, então mergulho de cabeça — ressalta.

Trocar o emprego bem remunerado, de carteira assinada, pela incerteza de abrir um negócio próprio não gerou dúvidas em Paty, tampouco arrependimentos.

— Eu estava muito infeliz na empresa em que trabalhava, então a melhor coisa que fiz foi aderir ao plano de demissão voluntária. Nesse momento, já tinha certeza de que iria trabalhar com brownies. Nunca pensei em outro caminho profissional, muito menos em voltar para o mercado corporativo. Empreender foi e é mais difícil do que eu imaginava. Mas quando sinto o cheiro de chocolate na minha cozinha, tenho absoluta certeza de que valeu a pena. Apesar de já ter conquistado um espaço no mercado de brownies, ainda não tenho a mesma renda mensal que tinha antes. Quando a pandemia começou, passei noites em claro, chorando. Mas investi ainda mais na divulgação, e as vendas logo se multiplicaram. Com a retomada de festas e eventos, a expectativa é que os negócios melhorem ainda mais — torce a ex-executiva.

Apesar do entusiasmo, a mãe da pequena Helena, de 5 anos, que tem no marido, Paulo, o maior incentivador, deixa um recado para quem sonha abrir um empreendimento, seja de qual ramo for:

— Não é um mar de rosas. É mais sobre sangue do que sobre glitter (risos). Se for um desejo muito grande da pessoa, a minha dica é: vá à luta. Mas para quem acha que é um conto de fadas, que vai trabalhar menos do que numa empresa, melhor desistir. Canso de dar expediente de 14 horas por dia na minha cozinha. Sem contar que tem meses em que o negócio não dá lucro. Mas é bom demais fazer o que se ama e com a sua assinatura. Além do mais, como trabalho em casa, consigo estar sempre perto da minha filha e do meu marido, e isso é uma delícia!

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