Ex-funcionária fantasma de Bolsonaro, Wal do Açaí é derrotada em eleição à Câmara de Angra

ITALO NOGUEIRA
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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Walderice Santos da Conceição, a Wal do Açaí, ex-assessora de Jair Bolsonaro, não conseguiu uma vaga na Câmara Municipal de de Angra dos Reis (RJ) apesar do forte apoio que recebeu do presidente e seus aliados nas redes sociais. Concorrendo com o nome de urna Wal Bolsonaro, ela obteve 266 votos e sequer será suplente do Legislativo da cidade -o Republicanos não conseguiu uma cadeira na Câmara. Ela ficou em 84ª posição entre os candidatos a vereador -o mais votado foi Rubinho Metalúrgico, que recebeu 2.615 votos. Alvo de uma investigação aberta há dois anos pelo Ministério Público Federal de Brasília sob suspeita de ser funcionária-fantasma, Wal recebeu mais atenção do presidente em suas transmissões do que o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos). "Eu prometo: se ela tiver uma boa votação na Vila Histórica de Mambucaba... Eu não sei também se o pessoal quer que eu vá para lá. Mas eu vou lá rever a minha casa", disse o presidente na última quinta-feira (12). Os boletins das quatro seções eleitorais da vila ainda não foram disponibilizados pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O presidente também gravou um vídeo de 57 segundos exclusivamente para Wal no início da campanha. "Eu aconselhei, orientei a Wal para vir candidata a vereadora por Angra dos Reis. Peço que vote na Wal. Ela vai ser uma representante da região, com ligação que ela tem comigo", disse ele. Os planos para a candidatura pelo Republicanos, mesmo partido de Flávio e Carlos Bolsonaro, foram oficializados em julho, num evento da Polícia Rodoviária Federal na cidade. Na ocasião, ela gravou um vídeo com o senador filho do presidente. "Meus amigos de Angra dos Reis, estou aqui com a Wal do Bolsonaro. Uma referência para gente aqui na região de Angra, uma pessoa dedicada, trabalhadora, que a exemplo de várias pessoas que estão no entorno do presidente Bolsonaro levam pedrada porque são pessoas honestas e corretas e que só querem fazer o bem ao próximo", disse Flávio. Em vídeo de setembro, quando sua candidatura foi oficializada em convenção, Wal também comentou o novo momento. "Acabaram de falar aqui que a gente vai apanhar muito. Mas é apanhando que a gente aprende a bater também", afirmou ela. Wal declarou como ocupação atual ser recepcionista, ter ensino fundamental incompleto e não possuir nenhum bem. As suspeitas sobre Wal surgiram em 2018 em reportagem da Folha de S.Paulo. Na ocasião, o jornal revelou que a ex-assessora trabalhava em um comércio de açaí na mesma rua onde fica a casa de veraneio de Jair Bolsonaro, à época deputado federal, na pequena Vila Histórica de Mambucaba. Segundo moradores da região, Wal também prestava serviços particulares na casa de Bolsonaro. De acordo com moradores da região ouvidos à época, o marido dela, Edenilson, era caseiro do presidente. Na ocasião, Bolsonaro não soube detalhar serviços prestados pela assessora na cidade. Um dia depois, ele afirmou que ela trabalhava na loja de açaí porque na data em que os repórteres estiveram na vila estava de férias. Em agosto, em horário de expediente, a Folha de S.Paulo voltou ao estabelecimento e encontrou Wal, com quem comprou um açaí e um suco de cupuaçu. Nesse mesmo dia, ela pediu demissão do cargo. Os registros oficiais da Câmara dos Deputados mostram que ela passou nesses 15 anos por 26 mudanças de cargos no gabinete. Em 2011 e 2012 ela alcançou melhores cargos -são 25 gradações. O mesmo ocorreu com outros assessores de Bolsonaro. Até abril de 2003, essa montanha-russa funcional se dava por meio de exonerações de fachada, em que o auxiliar tinha a demissão publicada e, no mesmo dia, era renomeado para o gabinete, geralmente para outro cargo. De acordo com o ato da mesa da Câmara 12/2003, a prática tinha como único objetivo forçar o pagamento da rescisão contratual dos assessores, com 13º salário proporcional e indenização por férias, não raro acumuladas acima do período permitido em lei. Nos 12 meses anteriores à edição do ato, o gabinete de Bolsonaro na Câmara registrou 18 exonerações de assessores que foram recontratados no mesmo dia -9 no mês anterior, sendo um deles na véspera da publicação da medida. A partir de 2 de abril de 2003, a Câmara passou a só permitir a readmissão após 90 dias da saída e acabou com o pagamento de rescisão para trocas de cargos, que passaram a ser feitas pelos parlamentares sem necessidade de exoneração. Com isso, o carrossel salarial no gabinete do hoje presidente da República caiu para menos da metade nos 12 meses seguintes à edição do ato, de 18 para 7. A investigação sobre Wal foi aberta em setembro de 2018. Ela chegou a ser travada por mais de 120 dias pela ex-procuradora-geral da República Raquel Dodge no período em que tentava articular junto ao presidente sua recondução ao cargo. Após as eleições, novos casos surgiram no bojo das investigações sobre a suposta "rachadinha" no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa. Um deles foi o de Nathalia Queiroz, filha de Fabrício Queiroz, suspeito de ser o operador financeiro do esquema. Uma das estratégias usadas para alimentar o esquema, segundo a Promotoria fluminense, é justamente o emprego de funcionários-fantasmas. No gabinete de Flávio, diz a investigação, esses servidores devolviam seus salários para Queiroz.