Ex-gamer, modelo trans Lana Santucci fala de preconceito e do namorado, um homem trans: ‘Não me preocupo em explicar’

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Lana Santucci não é um nome desconhecido no mundo virtual. Durante três anos, ela foi uma das gamers mais acessadas em seu extinto canal no YouTube e fez bastante barulho. Não só pela destreza em jogar, mas por ser uma mulher trans num universo ainda dominado por homens. Esse mesmo barulho, ela vem fazendo na moda. Completando 25 anos nesta sexta-feira, 14, a paulista nem acredita estar onde está depois de uma longa batalha, passando por dezenas de fases, como num game da vida real. “Eu digo que a vida não dá reviravolta, ela capota. Já passei por tantas coisas nesses 25 anos que é difícil de acreditar. E sigo assim”, reflete Lana.

Apesar do pouco tempo modelando, Lana foi contratada pela Way Model e pegou campanhas importantes, como a da marca de joias que tem Marina Ruy Barbosa como rosto, capas de revistas internacionais e um bafônico desfile na última São Paulo Fashion Week presencial, em 2019, na qual apareceu na passarela de topless. “Foi um acontecimento. Mas espero que as pessoas entendam que também foi um alerta. Ainda sexualizam demais o corpo de uma trans, quando tudo deveria ser encarado com mais naturalidade. A gente precisa naturalizar o corpo trans”, observa.

Lana começou sua transição aos 20 anos e sofreu todo o tipo de bullying na adolescência. Ao começar a cursar Negócios de Moda, na Faculdade Anhembii-Morumbi, uma das mais prestigiadas do país, se sentiu pronta para levar á frente o desejo de transicionar. Nascida numa família de classe média, ela admite que não passou pelos mesmos problemas que uma jovem trans de periferia. “Muitas amigas se prostituiram ou se prostitiuem porque não conseguem um emprego. Reconheço que sou uma privilegiada nesse mundo”, avalia Lana, que deseja não ter que ser mais apontada como exemplo de representatividade: “É importante, mas isso também é cansativo, porque cria um estigma, uma caixinha onde estamos enquadradas. Quando eu só quero ser tratada como a mulher que sou, sem que isso ‘venda’”.

Nos bastidores de ensaios e desfiles, Lana já teve que enfrentar episódios de transfobia. “Uma vez, uma menina tirou uma foto minha e jogou num grupo de modelos no whatsapp comentando sobre minha aparência, sobre eu ser trans. Eu tive aqueles dez segundos de respiração e só disse que exigia respeito. Com isso, ela perdeu todos os desfiles que iria fazer e se queimou. Não fico mais calada. Já vivi muita coisa para deixar que me tratem dessa forma. E não me coloco nesse lugar da vítima, da coitada. Eu vim para mudar o mercado”, dispara.

O mercado e o olhar do outro. Principalmente quando está na companhia do namorado, o tatuador Estevan Vicent, um homem trans. “Sei que às vezes pode parecer confuso. Mas não me preocupo em ter que explicar isso. Há sete meses temos um relacionamento maravilhoso, em que nos entendemos só pelo olhar. Vivemos realidades muito parecidas, nossas transições de gênero. Sei o que ele sentiu e ele sabe o que senti. Quando a gente sai, chama atenção. Muito mais pelo biótipo. Eu tenho 1,83m de altura e ele, 1,62m. A sociedade não está preparada nem para uma mulher mais alta que um homem”, analisa, ela que deseja, num futuro, ser mãe: “E a gente poderia ter um nosso, biológico. Ele pode engravidar, e tudo bem. Não serei menos mãe porque não gerei. São paradigmas que estão aí para serem quebrados no século 21”.

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