Ex-governador da Paraíba tem prisão decretada, e PF também mira governador atual

JOÃO VALADARES
JOÃO PESSOA, PB, 17.12.2019: OPERAÇÃO-CALVÁRIO – Movimentação na sede da Polícia Federal em João Pessoa (PB), nesta terça-feira, durante a sétima fase da operação Calvário, desencadeada pela Polícia Federal na manhã desta terça-feira (17) para investigar desvio de R$ 134,2 milhões da área de saúde. O ex-governador da Paraíba Ricardo Coutinho (PSB) está foragido da Justiça. Ele é um dos 17 alvos de mandado de prisão preventiva. (Foto: Josemar Gonçalves/Tripé Imagem/Folhapress)

RECIFE, PE (FOLHAPRESS) - O ex-governador da Paraíba Ricardo Coutinho (PSB) teve sua prisão preventiva decretada em uma operação da Polícia Federal nesta terça-feira (17) que também cumpriu mandados de busca e apreensão em locais ligados ao atual governador do estado, João Azevêdo (sem partido).

A PF esteve na Granja Santana, residência oficial do governador paraibano, e no Palácio da Redenção, sede administrativa do governo.

A sétima fase da operação Calvário visa investigar um suposto desvio de R$ 134,2 milhões da área de saúde estadual.

O ex-governador Ricardo Coutinho foi um dos 17 alvos de mandado de prisão preventiva e, em viagem de férias fora do país, passou a ser considerado foragido.

Um das delatoras do esquema, a ex-secretária de Administração Livânia Farias, presa em março deste ano, disse que propinas foram entregues em caixas, de 2014 a 2018, na Granja Santana. Os valores chegavam a até R$ 1 milhão em espécie, segundo ela.

O ex-governador não foi encontrado em sua residência pela PF. Ele está fora do país desde quinta-feira (12) da semana passada em viagem de férias. A PF pediu a inclusão do nome de Coutinho na difusão vermelha da Interpol, a polícia internacional.

Em liberdade desde maio, a ex-secretária estadual disse na delação que foram feitas seis remessas de dinheiro na residência oficial em um valor total de R$ 4 milhões. Ela afirmou aos investigadores que o ex-governador não solicitou a entrega, mas que avisou a Coutinho que estava com os valores e não tinha onde colocar.

"Que Ricardo Coutinho mandava colocar o dinheiro em um local e não falava nada; que o dinheiro era colocar em um local dentro da Granja, no espaço em que se encontravam; que só dizia a ele o valor e onde era", relata Livânia, no anexo 25 de sua delação premiada.

A deputada estadual Estela Bezerra (PSB), a prefeita da cidade de Conde, Márcia Figueiredo Lucena Lira (PSB), o ex-secretário Waldson Dias de Souza (Planejamento, Orçamento e Gestão), o ex-procurador-geral do estado Gilberto Carneiro da Gama e o irmão do ex-governador Ricardo Coutinho, Coriolano Coutinho, foram presos preventivamente.

Foram alvos dos mandados de busca e apreensão, entre outros, os conselheiros do TCE-PB (Tribunal de Contas do Estado da Paraíba) Arthur Cunha Lima, André Carlos Torres e Nominando Diniz.

A operação também esteve em endereços ligados ao ex-senador Ney Suassuna (PRB).

Coutinho é classificado pela investigação como o chefe do suposto esquema criminoso. “Ricardo Coutinho era o responsável direto tanto pela tomada de decisão dentro da empresa criminosa quanto pelos métodos de arrecadação de propina, sua divisão e aplicação”, diz o relatório que embasou a decisão do desembargador do TJ-PB (Tribunal de Justiça da Paraíba) Ricardo Vital de Almeida.

Ao todo, a ação cumpre 54 mandados de busca e apreensão e 17 ordens de prisão preventiva nos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Goiânia e Paraná.

Por meio de nota, a Polícia Federal disse que, do total de dinheiro desviado, R$ 120 milhões abasteceram campanhas de agentes políticos da Paraíba em 2010, 2014 e 2018.

Conforme a investigação, os recursos públicos eram destinados aos serviços de saúde. A PF afirma que houve fraudes em procedimentos licitatórios e em concursos públicos.

A operação foi realizada em conjunto com o Gaeco-PB (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado da Paraíba), o Ministério Público Federal e a CGU (Controladoria-Geral da União).

A investigação apontou que organizações sociais montaram uma rede de prestadores de serviços terceirizados e de fornecedores com a celebração de contratos superfaturados na gestão dos hospitais de Trauma, de Mamanguape (PB) e Metropolitano, em Santa Rita (PB).

Duas das principais organizações sociais do esquema, conforme o Gaeco-PB, é a Cruz Vermelha do Brasil (filial do Rio Grande do Sul) e Ipcep (Instituto de Psicologia Clínica Educacional e Profissional).

Entre 2011 e 2019, a Cruz Vermelha do Brasil (RS) recebeu mais de R$ 980 milhões do governo da Paraíba. O Ipcep, de 2014 a 2019, ganhou R$ 270 milhões.

“De modo a se blindar de fiscalização do Tribunal de Contas do Estado da Paraíba, a organização pagou reiteradamente vantagens indevidas, valendo-se de contratos de 'advocacia preventiva' ou contratos de 'advocacia por êxito', de modo a ocultar ou dissimular a natureza, origem, disposição e movimentação dos valores”, diz a nota da PF.

Os investigadores alegam que observaram o uso eleitoral dos serviços de saúde, com direcionamento de atendimentos e fraude no concurso de pré-seleção de pessoal do Hospital Metropolitano no ano de 2018.

A Polícia Federal afirma que os investigados vão responder na medida de suas responsabilidades pelos crimes organização criminosa, fraude em licitação, corrupção passiva e ativa.

O atual governador da Paraíba, João Azevêdo, comandou uma supersecretaria na gestão do então governador Coutinho. Apadrinhando por Coutinho nas eleições de 2018, foi eleito em primeiro turno com 58% dos votos. Esteve no comando, até abril do ano passado, da pasta que abrigava Meio Ambiente, Infraestrutura, Recursos Hídricos e Ciência e Tecnologia.

A primeira fase da operação Calvário foi desencadeada em dezembro de 2018.

Os desdobramentos dela derrubaram três secretários de Azevêdo, todos remanescentes do governo Coutinho. A ex-secretária de Administração Livânia Farias foi presa sob acusação de receber R$ 80 mil de propina por mês.

Azevêdo e Coutinho estão rompidos publicamente. A Folha apurou que o principal motivo do afastamento entre os dois é justamente as consequências da operação Calvário.

Em nota oficial, o ex-governador Ricardo Coutinho alegou que vai contribuir com a Justiça para provar sua inocência. “Sempre estive à disposição dos órgãos de investigação e nunca criei obstáculos a qualquer tipo de apuração.”

Ele afirma que jamais seria possível um estado ser governado por uma organização criminosa e ter vivenciado os investimentos e avanços nas obras e políticas sociais nunca antes registrados.

“Lamento que a Paraíba esteja presenciando o seu maior período de desenvolvimento e elevação da autoestima ser totalmente criminalizado”, disse.

Ele informou que está em viagem de férias previamente programada. “Estarei antecipando meu retorno para me colocar à inteira disposição da Justiça brasileira para que possa lutar e provar minha inocência”, diz.

O advogado Luiz Cavalcanti, que faz a defesa de Coutinho, informou que ainda está analisando o teor da acusações imputadas contra seu cliente para decidir as medidas a serem tomadas.

O PSB, em nota assinada pelo presidente do partido, Carlos Siqueira, comunicou que reitera sua confiança na conduta de Ricardo Coutinho e dos demais investigados na certeza de que uma apuração isenta e justa resultará no pleno esclarecimento das denúncias.

A sigla disse ainda que apoia a total apuração dos fatos, respeitados o devido processo legal e o amplo direito de defesa.

O governo da Paraíba e o TCE-PB ainda não se manifestaram. Os advogados dos outros alvos da Justiça não falaram até o momento sobre o caso.