Ex-guarda nazista afirma em julgamento que sente vergonha

Foto de 2 de setembro de 2016 do campo de concentração nazista de Stutthof, norte da Polônia

Um ex-guarda do campo de concentração nazista de Stutthof (Polônia), julgado na Alemanha por cumplicidade em centenas de assassinatos, afirmou nesta terça-feira que sente "vergonha" de ter sido um SS, mas alegou sua inocência ao afirmar que não sabia da existência das câmaras de gás.

O acusado, um ex-SS de 94 anos, serviu entre junho de 1942 e setembro de 1944 no campo de concentração de Stutthof, perto de Gdansk, Polônia, onde 65.000 pessoas foram assassinadas, principalmente mulheres judias dos países bálticos e da Polônia.

"Certamente tenho vergonha de ter feito parte da SS", disse o réu em uma declaração lida por seu advogado durante o julgamento.

O acusado afirmou, no entanto, que foi "alistado à força" e não sabia nada sobre "os assassinatos sistemáticos ou as câmaras de gás" no campo de concentração.

O ex-guarda é julgado como menor, pois no momento dos fatos tinha menos de 21 anos. Seu nome não foi comunicado pelo tribunal de Münster (oeste). A imprensa alemã o identificou como um paisagista aposentado de nome Johann Rehbogen.

Seu depoimento era muito aguardado, já que o homem, que chegou de cadeira de rodas para o início do julgamento em 6 de novembro, chorou quando as vítimas do campo de Stutthof falaram no tribunal.

O jornal Die Welt informou que em agosto de 2017 o réu negou à polícia que estivesse a par das atrocidades cometidas. Ele disse ainda que os soldados também sofriam com a escassez de alimentos.

Os depoimentos dos guardas dos campos de concentração ou de extermínio são raros, pois foram poucos os julgamentos sobre o nazismo.

A Alemanha começou há alguns anos a tentar identificar os últimos suspeitos com vida e a julgar os que ainda são aptos.

Nos últimos processos, apenas um acusado falou, o ex-SS Oskar Gröning, conhecido como "o contador de Auschwitz", que pediu "perdão" em 2015 e reconheceu sua "falha moral". Foi condenado a quatro anos de prisão por cumplicidade na morte de 300.000 judeus. Morreu em março sem cumprir a pena.

Outro ex-SS de Auschwitz, Reinhold Hanning, apresentou em 2016 uma confissão de 25 páginas, lida por seus advogados, na qual admitiu sua "vergonha" e reconheceu que sabia que os deportados eram "assassinados, vítimas do uso de gás e incinerados".

Mas foi considerado um espectador e não um ator no Holocausto dos judeus, denunciou na ocasião o Comitê Internacional de Auschwitz. Não foi preso, apesar de uma pena de cinco anos de detenção.

De maneira geral, a justiça alemã é muito criticada pelo tratamento tardio e insuficiente dos crimes do III Reich.

Esperou até 2011, com o processo do ex-guarda de Sobibor John Demjanjuk, para julgar todos os ex-sentinelas dos campos de extermínio por "cumplicidade de assassinato", sem importar qual teria sido o comportamento individual. Os ex-guardas são considerados peças de engrenagem de uma "máquina da morte".

- Julgamento simbólico -

De acordo com a acusação, o ex-SS de Stutthof "sabia quais eram todos os métodos para matar e deliberadamente aprovou os assassinatos de centenas de pessoas", embora não tenha participado diretamente.

Em todos os julgamentos recentes, os acusados tinham postos subalternos no momento dos crimes. Nenhum condenado foi enviado à prisão, por recursos ou pelo estado de saúde.

O réu do julgamento de Münster pode ser condenado a 15 anos de prisão, mas é pouco provável que se declare a pena máxima, após as condenações anunciadas contra Gröning ou Hanning e por ser considerado "menor".

Estes casos, simbólicos, não têm apenas um objetivo penal. São pedagógicos e pretendem dar aos descendentes das vítimas o sentimento de que a justiça foi feita.

O tribunal prevê 14 audiências até janeiro para julgar o ex-guarda de Stutthof. Cada uma estará limitada a duas horas.

Em um primeiro momento também estava previsto o comparecimento de outro ex-guarda SS, de 93 anos, mas sua aptidão ainda está sendo examinada.