Ex-guerrilheiro Gustavo Petro aposta em teimosia para se tornar primeiro presidente de esquerda da Colômbia

Não é fácil adivinhar o que passa pela cabeça de Gustavo Petro quando ele está à sua frente. Hermético e impenetrável, exala um ar de ausência, como se estivesse em outro lugar ao mesmo tempo. Nem mesmo seus conselheiros às vezes sabem o que esperar. Há algumas semanas, um deles tentou convencê-lo a qualificar uma posição firme sobre uma questão que o tornou muito impopular junto a parte do eleitorado. O candidato revisou os papéis e respondeu: “Minhas posições são categóricas. Eu não vou recuar.” Então ele começou a observar o céu pela janela do avião.

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Petro é teimoso, diz sua filha Sofía, mas acredita que a teimosia o levou ao ponto em que está: a oportunidade de ser o primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia neste domingo, 19 de junho. Apresenta-se pela terceira vez para um cargo que não parece destinado a alguém como ele, um ex-guerrilheiro que provoca medo nas elites sociais e empresariais.

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Nos últimos anos ele se afastou de qualquer simpatia por Cuba e Venezuela, tenta entender o feminismo e fala em criar um eixo progressista na região juntamente com Gabriel Boric, no Chile, e Lula, no Brasil. E ele parou de se vestir como o lutador social que sempre foi para parecer mais um estadista.

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Sua jornada para chegar aqui é uma espécie de odisseia. Muitos teriam caído no esquecimento.

Apesar de ser tímido, um de seus pontos fortes são os comícios. Petro, de 62 anos, faz parte da tradição de grandes oradores que este país de gente com facilidade de falar já teve. Ele fez 100 discursos com os quais acreditava poder resolver as eleições no primeiro turno. Não foi assim. E tem a ver com o adversário mais imprevisível, o enigmático Rodolfo Hernández. No último trecho da campanha, ele se concentrou em transmitir nas redes sociais sua visita a pessoas comuns para dar uma imagem de proximidade que não disseminou anteriormente.

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Ele nasceu na pequena cidade caribenha de Ciénaga de Oro, mas seus pais se mudaram para Bogotá quando ele ainda era bebê. Ele era um estudante matriculado no mesmo colégio para padres onde o autor García Márquez estudou, em Zipaquirá. Quando aos 17 anos ingressou no M-19, uma guerrilha intelectual e urbana, chamou-se Aureliano, como um dos personagens de “Cem Anos de Solidão”. O grupo armado recrutou um cérebro, porque Petro naquela época era franzino e já sofria de severa miopia.

Naquela época, tornou-se um líder social ao invadir, juntamente com centenas de famílias, um terreno onde fundou um bairro, Bolívar 83. “Jamais esquecerei aqueles dias porque me ligaram para sempre ao mundo dos pobres”, escreve Petro em sua autobiografia.

Ele foi brevemente conselheiro lá, antes de ser capturado em 1985 pelos militares, que o torturaram nos estábulos do Exército. A partir desse momento, ele é acompanhado pela premonição de que sua maneira de se rebelar contra o mundo o levaria a uma morte violenta.

Quando saiu da prisão, ele falhou em sua tentativa de criar uma célula armada, isso definitivamente não era coisa dele. Naqueles tempos, ele cortou todo o seu relacionamento com a família e amigos.

Ele voltou à vida civil em 1990, quando o M-19 assinou um acordo de paz com o governo. O último líder guerrilheiro, Carlos Pizarro, foi assassinado um mês e meio depois, quando era candidato à Presidência. Sua filha, María José, hoje deputada da coalizão de Petro, faz uma comparação entre os dois:

— Gustavo é muito mais racional, é um homem de propostas já construídas na maturidade de todos esses anos — disse.

Ela considera que, por ter vivido naquele ambiente cheio de grandes ideais, Petro tem algo de redentor:

— Toda aquela geração de homens e mulheres é bastante messiânica. A sorte que Gustavo tem é que ele sobreviveu.

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Petro foi eleito deputado pela primeira vez em 1991, mas depois de terminar seu mandato teve de se exilar na Bélgica: os guerrilheiros que entraram na política foram assassinados. Na Europa, ele se tornou um ambientalista e, sem isso, não seria possível explicar por que ele agora quer mudar o modelo econômico da Colômbia se for presidente — ele propõe, por exemplo, parar a exploração de petróleo como parte da transição energética. Ele considera que a América Latina precisa abandonar o extrativismo e centrar-se na produção, industrialização e conhecimento.

De volta ao país, em 1998, voltou ao Congresso para se tornar um dos mais admirados parlamentares da oposição. A maior mancha nessa carreira legislativa foi seu voto para eleger Alejandro Ordóñez, um polêmico político ultraconservador, como procurador-geral, próximo ao uribismo.

Do Congresso, foi o “chicote” do presidente Álvaro Uribe (2002-2010). Denunciou tanto as alianças entre políticos e paramilitares quanto a espionagem do serviço secreto, que ele mesmo sofreu.

Ele acreditava que essa fama bastava para ser presidente e tentou com muito pouco sucesso em 2010, mas não desistiu. Ele foi prefeito de Bogotá, e ninguém concorda se foi bom ou não. Atingiu as menores taxas de homicídios em 20 anos, ampliou a jornada escolar nas escolas públicas e realizou uma política para garantir o mínimo vital de água para as famílias mais pobres.

Muitos ex-colaboradores concordam que é difícil trabalhar com ele, como evidenciam as frequentes mudanças em uma equipe instável do governo. Ele foi destituído pelo advogado Ordóñez por tentar desprivatizar a coleta de lixo e convocou manifestações que se ampliaram com discursos da sacada do Palácio Liévano. Foi aí que nasceu o petrismo.

Aproveitando essa onda, ele tenta novamente ser presidente há quatro anos, mas a rejeição ao processo de paz se voltou contra ele. Ele faz campanha desde então. A impopular administração de Iván Duque, ali colocado por Uribe, agora o tem como favorito nessas eleições. No primeiro turno, ao lado de Francia Márquez, derrotou a direita, o establishment, o uribismo e todas aquelas correntes que são contra ele.

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A Presidência parecia próxima depois de acabar com seus inimigos históricos. No entanto, agora um oponente antissistema e que representa o desafeto por políticos, exatamente o que ele é, foi colocado na frente dele.

Nesta última semana ele teve de escalar um Everest, mais um em sua vida. Resta saber se o idealista Aureliano, o corajoso deputado, o combativo prefeito e o teimoso candidato terão força para coroar esse cume.

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