Ex-jogador de futebol vira cozinheiro, volta ao Rio por amor ao filho e abre negócio próprio

Regiane Jesus
·6 minuto de leitura

RIO — Não faltou torcida para um então pequeno morador de São Cristóvão dar asas ao sonho de se tornar um jogador de futebol. O bom desempenho no Vasco, clube do qual foi atleta dos 6 aos 15 anos, sinalizava que Bruno Gimenez tinha tudo para virar um craque. Já dava para aquele menino imaginar o estádio de São Januário lotado gritando o seu nome. A perseverança em seguir carreira nas quatro linhas ainda o levou a jogar no Fluminense e no Rio Branco de Paranaguá, no Paraná. Só que a bola bateu na trave e alterou o placar, ou melhor, o seu destino.

Um dos golaços da vida deste filho de uma esteticista com um bancário foi marcado na cozinha. Após desistir da carreira no esporte por não ver a sua trajetória evoluir conforme o esperado, era hora de cabecear em direção a outra área. Um curso de gastronomia no Senac fez com que encontrasse o seu lugar: em frente a um fogão. Atualmente, ele é o orgulhoso dono da BG Delivery Food.

Sem bola nos pés, mas com alimentos nas mãos, Gimenez leva a sua plateia ao delírio. Se o ex-atacante não ouve mais “goooool”, sempre escuta “hummmmm, que delícia”. Agradar ao paladar dos clientes deixa o cozinheiro, com passagem pelo restaurante da famosa chef Roberta Sudbrack, rindo à toa. Mas quando o elogio vem do seu filho, Fred (Frederico), de 7 anos, tem sabor especial. Foi por amor ao menino, fruto de um casamento já extinto, que o jovem, agora com 29 anos, voltou dos Estados Unidos, para onde se mudou após trabalhar em conceituados restaurantes cariocas e viveu por quatro anos.

A saudade falou mais alto. O recomeço no Rio, em 2018, não foi fácil. Fora do mercado de trabalho e pouco entusiasmado com os salários oferecidos por aqui, foi vender quentinhas nas ruas. O boca a boca logo lhe rendeu muitos clientes. O tempo passou, e veio a realização do desejo de ter um negócio próprio. Em meio à pandemia, investiu no seu empreendimento, alugou com um amigo uma casa espaçosa, na Tijuca, e assumiu o comando do forno e do fogão com gás renovado.

— Quando morei em Washington (EUA), ganhava trabalhando como cozinheiro o equivalente a R$ 2.500 por semana. Aqui, dificilmente pagam este valor por mês. Então, cheguei à conclusão de que não tinha como ficar 12 horas dentro de uma cozinha para ganhar muito pouco. Parti para ser autônomo. Vendi quentinhas na Barra, em Ipanema e no Leblon. Um ano depois de ter voltado, eu me separei e fui morar com os meus pais em São Pedro da Aldeia (Região dos Lagos). Foi aí que tive a ideia de fazer comida congelada, com baixas calorias, e de criar a empresa. Alimentação saudável, com pouco carboidrato, virou uma especialidade, embora o meu cardápio já seja mais extenso. Deixar a casa dos pais e alçar voos mais altos foi um processo natural. Estou satisfeito com os rumos da empresa e, sobretudo, por estar perto do Fred, o meu grande parceiro de vida — diz Gimenez, que pode ser encontrado no Instagram através do perfil @bg_deliveryfood.

O cozinheiro está quase sempre com o menino, que mora na Barra com a mãe. Como o ex-casal tem uma relação amigável, não há dias e horários estabelecidos para que pai e filho se encontrem.

— Sou babão. Quando o Fred vem para a minha casa, a gente faz tudo junto. Brinca, ouve música, faz comida... Ele é a parte mais importante da minha vida. Procuro dar suporte em tudo o que ele precisa, e sempre será assim. Voltei para o Brasil por amor ao meu filho — frisa. — Por incrível que pareça, a comida preferida dele não é a que eu cozinho, é churrasco (risos). Mas o Fred gosta do meu bife com batata frita e farofa. Ele também adora os bolos que eu preparo. Ainda bem!

Identificação em tudo, menos na paixão pela bola

Quem vê o cozinheiro de mão cheia que Bruno Gimenez se tornou nem acredita que ele passou longe da cozinha durante toda a infância e a adolescência. O interesse pelas panelas começou depois que abandonou o futebol e precisava se encontrar em uma nova profissão. Como o pai tinha feito um curso de gastronomia no Senac — no caso do “Seu Luiz Sérgio”, só por hobby —, decidiu também viver esta experiência no universo culinário. Foi paixão à primeira vista.

— Eu joguei bola até os 20 anos e nunca fui aquele menino que ia para a cozinha ver o que estavam preparando. Só aparecia para comer. Cheguei ao Senac sem saber fritar um ovo. Lá, aprendi tudo, desde cortar carnes, legumes e verduras até criar um cardápio mais elaborado. Após o curso de um ano, virei um cozinheiro profissional, apto a ser chef (cargo de comando) de um restaurante. Para ser um bom chef, é preciso ser um bom cozinheiro. Não dá para comandar sem saber pegar nas panelas — observa.

O fim do curso o levou imediatamente para o mercado de trabalho, o que foi, inicialmente, um grande susto.

— O meu primeiro emprego como cozinheiro foi no Camarada Camarão, no Rio Design Barra. Tive um choque de realidade. A cozinha de um restaurante é muito mais dinâmica do que a de um curso. Depois, trabalhei com a chef Roberta Sudbrack e em outros lugares, até ir para os Estados Unidos de férias e, de repente, ficar lá por quatro anos e meio — conta.

Gimenez chegou a Washington com a então mulher, Andréa, e o filho, que, na época, tinha poucos meses de vida. Como o então cunhado também é cozinheiro, decidiu não acompanhar a família na volta ao Brasil para tentar trabalhar por lá, mesmo em situação ilegal:

— O meu visto era de turista, mas fui ficando. Só via o Fred a cada seis meses. Viver longe dele foi a experiência mais difícil da minha vida. A saudade era imensa porque o meu coração estava aqui. Mas tudo o que fiz foi pensando no bem-estar do meu filho. Nos Estados Unidos, mesmo estando em situação ilegal, dá para ganhar um bom dinheiro, sobretudo se a pessoa tem uma profissão. Mas chegou um momento em que percebi que não ia demorar muito para o meu filho colocar outra pessoa no meu lugar de pai. Eu precisava voltar para o Brasil. Larguei tudo para ver o Fred crescer perto de mim.

O menino é mesmo o grande companheiro do cozinheiro, apesar de algumas diferenças entre pai e filho.

— Fred é vascaíno como eu. Mas o moleque não liga para futebol. Não tem paciência nem para assistir a um jogo pela TV. É a vida — diverte-se.

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