Ex-marido que matou juíza a facadas na frente das filhas pode pegar pena máxima, diz promotora

O engenheiro Paulo José Arronenzi, acusado de assassinar a facadas a ex-mulher, a juíza Viviane Vieira do Amaral deverá ser condenado a 45 anos de prisão, ou seja, a pena máxima. No julgamento do réu, que acontece nesta quinta-feira, deverão ser ouvidas dez testemunhas de defesa e acusação.

Em entrevista ao GLOBO, a promotora de Justiça Carmem Carvalho, do 3° Tribunal do Júri do Rio, diz que o réu está sendo julgado por homicídio quintuplamente qualificado e que a alegação de insanidade apresentada pela defesa foi destacada dos autos.

— As provas são muito claras, até porque o crime foi filmado. Uma covardia contra mulher, um homicídio cruel. A expectativa é que a justiça seja feita, e que ele seja condenado à pena máxima. Ele foi preso em flagrante. Essa tese de insanidade, se é que vai ser sustentada, não encontra justificativa nos autos do inquérito — afirmou a promotora.

A promotora reforça que a expectativa de pena máxima se dá pela violência com que o crime foi cometido, tendo uma causa especial de aumento de pena já que foi cometido na frente dos filhos menores de idade. A mãe da vítima, o irmão, duas pessoas que testemunharam o crime e uma amiga próxima da juíza serão ouvidos durante o júri.

Sara Vieira do Amaral, mãe da juíza, foi a primeira a ser ouvida pelo júri. Durante 50 minutos de depoimento, aos prantos, a idosa descreveu o comportamento agressivo de Arronenzi com a vítima, muito antes da primeira separação do casal, em 14 de setembro de 2020.

— Ele chamava Viviane de burra, feia e cabeção em tom de brincadeira. Ele não fazia elogios. Sempre que falava dela, era desfazendo. Ele empurrou Viviane e ela foi fazer corpo de delito. Quando ele ia buscar as filhas de carro no colégio era um inferno. Ele gritava e berrava dizendo "Eu era feliz até vocês nascerem" — relatou Sara.

A mãe de Viviane disse à promotora Carmem Carvalho que a filha era extorquida pelo acusado e que ele "a isolava do convívio da família". Durante a separação, Arronenzi exigiu que a juíza pagasse grandes quantias em dinheiro e tomava posse de bens do casal, relatou Sara. A idosa disse ainda que a quantia guardado pela vítima era para a compra de um apartamento, o que não aconteceu devido às chantagens que sofria do ex-marido:

— Viviane transferiu R$ 640 mil para ele. Ele ficou com dois carros, casa e imóveis. Além de solteiro e feliz. Ele adora viajar. Ele achava que tinha direito a metade do que ela tinha, e ele ficou de arcar com um salário mínimo por mês na pensão das filhas.

De acordo com o relato de Sara, a mudança de compartimento de Viviane chamava atenção da família. A decisão da separação, segunda a mãe da vítima, era uma garantia da guarda das crianças:

— Quando eles estavam separados, Viviane resolveu (pedir) o divórcio, porque ela queria garantir a guarda das crianças, e fez uma separação consensual.

Ao ser perguntada como andava a saúde mental das crianças, sob guarda da mãe da vítima. Sara chorou e disse que as meninas estão "muito traumatizadas".

— Eu fui profundamente machucada, mas as coisas com as crianças estão caminhando. Todas muito traumatizadas e tristes. O desenho que uma fez era um boneco e, quando você abria, era um corpo cheio de sangue. Elas se pintavam como se fossem o recorte. Elas assistiram a mãe levar 16 facadas.

Vinícius Vieira do Amaral, irmão da juíza Viviane do Amaral, relatou ao júri que convenceu a irmã a abrir mão da escolta policial, em dezembro, mesmo período em que foi morta pelo ex-marido. Segundo Vinícius, a orientação veio em meio a um bom comportamento apresentado por Arronenzi. Na época, de acordo com relato do irmão da vítima, o casal estava separado e compartilhando a guarda das três filhas e, por isso, os dois queriam manter uma convivência amigável:

— Paulo não matou Viviane no dia 24. Começou a matar muito antes. E está matando toda a família. Eu não pensa na minha irmã as vezes, penso toda hora. Não consigo manipular uma faca e não pensar nela. A cena de terror se perpertuou. Quem sustentava a casa era Viviane. Ele disse que não ia abrir mão de nada.

Viviane, segundo relatos da família, procurou a delegacia duas vezes para registrar boletim de ocorrência no dia 14 de setembro. Durante o segundo registro a juíza pediu uma medida protetiva por medo do compartamento agressivo de Paulo:

— Ele chegou a perguntar para Viviane: "Você não tem medo de mim?". Ele ligava muitas vezes por dia depois da separação. As crianças presenciaram essa violência psicológica. Ela precisou em alguns momentos se trancar no banheiro com as crianças.

A irmã do réu, Rosana Arronenzi, que mora na Itália e veio ao Brasil para o julgamento, disse em depoimento ao júri que o irmão vinha apresentando comportamentos depressivos logo após a separação.

— Paulinho sempre foi muito ligado à família e às filhas. Com a separação, ele sofreu muito. Ele começou com uma depressão leve, começou a dizer que não tinha mais vontade de viver e que a vida tinha perdido a graça. Como ele não trabalhava, vivia o tempo inteiro com as crianças. No dia 23 de novembro, começou a dizer que ia se matar. Eu pedi a uma amiga nossa para me ajudar a procurar uma psiquiatra.

Rosana afirmou ainda que a médica psiquiatra que acompanhava Arronenzi, logo após o término do relacionamento, disse que "ele não sentia vontade de matar"e que os remédios que o irmão tomava "já não estava fazendo efeito".

— Meu irmão pensou em voltar para a Itália. Mas o médico não foi a favor da viagem — disse Rosana, defendo que o irmão "era a pessoa mais honesta da família", após ser questionada pela defesa sobre as alegações dos familiares de que o réu estaria extorquindo dinheiro da vítima.

O crime ocorreu na véspera do Natal de 2020 na frente das três filhas, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Na ocasião, a magistrada levava as crianças para passarem a data com o pai.

Arronenzi foi preso em flagrante, logo em seguida, por guardas municipais. De acordo com a denúncia do Ministério Público, o assassinato foi motivado "pelo inconformismo do acusado com o término do relacionamento, especialmente pelas consequências financeiras do fim do casamento na vida do engenheiro".

Ele foi denunciado por homicídio quintuplamente qualificado: feminicídio, ou seja, a vítima foi morta por ser mulher; o crime foi praticado na presença de três crianças; o assassinato foi cometido por motivo torpe, já que o acusado a matou por não se conformar com o fim do relacionamento; o crime foi cometido por um meio que dificultou a defesa da vítima, atacada de surpresa quando descia do carro enquanto levava filhas ao encontro do ex-marido; e o meio cruel utilizado, uma vez que as múltiplas facadas no corpo e no rosto causaram intenso sofrimento à vítima.