Ex-ministra francesa lança candidatura para unir esquerda contra Macron

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Ex-ministra francesa da Justiça Christiane Taubira faz o lançamento oficial de sua candidatura à presidência, em 15 de janeiro de 2022, no distrito de Croix-Rousse, em Lyon (AFP/Jean-Philippe Ksiazek)

A popular ex-ministra francesa da Justiça Christiane Taubira se lançou oficialmente, neste sábado (15), como pré-candidata às eleições presidenciais de abril, com o objetivo ambicioso de unir uma esquerda muito fragmentada, que já apresenta outros nomes para tentar destronar Emmanuel Macron.

"Sou candidata à presidência da República" para conseguir "um Estado mais atento, mais cuidadoso, mais justo, mais eficiente", disse ela, de Lyon, no leste da França, ao anunciar sua pré-candidatura a uma primária popular, sendo, até o momento, a única aspirante de peso.

No discurso de lançamento, Taubira disse querer responder à "raiva" e às "injustiças sociais" e defender um governo "que saiba dialogar, em vez de dar lição de moral".

"E faremos isso juntos, porque somos capazes", acrescentou.

Ela se apresenta como candidata dentro de uma iniciativa cidadã que busca lançar um candidato único da esquerda. Para isso, convocou primárias para o final de janeiro.

Neste momento, a três meses do primeiro turno da eleição presidencial na França, a realidade é bem diferente. A esquerda já tem seis candidatos. E, embora nenhum ultrapasse 10% das intenções de voto, não há sinais de que algum deles pretenda se somar à iniciativa de Taubira.

Entre os candidatos da esquerda, estão a prefeita de Paris, a socialista Anne Hidalgo; o líder da França Insubmissa, Jean-Luc Melenchon; e o ambientalista Yannick Jadot.

Segundo pessoas mais próximas, Taubira continua despertando "fervor" entre os eleitores de esquerda, desiludidos após a vitória de Macron, em 2017, e o colapso dos partidos tradicionais.

Macron ainda não se declarou candidato oficialmente, mas as pesquisas indicam que ele venceria o primeiro turno contra a candidata da extrema direita, Marine Le Pen, que é seguida de muito perto pela candidata da direita, Valérie Pécresse.

- Segunda tentativa

Taubira nasceu em 2 de fevereiro de 1952, em uma família de condições modestas, no território da Guiana Francesa.

Ministra do ex-presidente socialista François Hollande, ela ostenta a imagem de uma mulher lutadora que conseguiu a aprovação do casamento gay e de uma simbólica lei contra a escravidão.

Aos 69 anos, esta será sua segunda tentativa. A então deputada pela Guiana Francesa concorreu à presidência em 2002, com o Partido Radical de Esquerda, rivalizando com seu parceiro socialista Lionel Jospin. Obteve 2,32% dos votos.

À época, essa mulher culta, que não hesita em citar poetas antilhanos como Aimé Césaire e Léon-Gontran Damas, já havia dado seu nome um ano antes, na França, a uma lei que reconhecia o tráfico e a escravidão como crimes contra a humanidade.

Simpatizante das teses de independência em sua juventude, seu início na política se dá em 1993. Neste ano, é eleita deputada pelo movimento Walwari, fundado com o marido, Roland Delannon, com quem teve quatro filhos e de quem se divorciou.

Taubira é formada em economia, indústria agroalimentar, sociologia e etnologia afro-americana, esta última um de seus temas favoritos, como demonstrou na homenagem feita em 2015 ao falecido escritor uruguaio Eduardo Galeano.

"Eduardo Galeano, espírito rebelde, estudioso dos mistérios desta América Latina ameríndia, mestiça e negra, ainda canta à lua e ao sol", tuitou a então ministra de François Hollande.

A ex-ministra conseguiu construir sua imagem atual, com a aprovação da lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, apesar da forte oposição dos católicos conservadores e dos ataques da extrema direita, que a comparam com um "macaco".

Depois desse sucesso, a revista Le Nouvel Observateur (centro esquerda) a equipara a figuras como Robert Badinter, que conseguiu a abolição da pena de morte, e Simone Veil, a artífice do legislação sobre aborto.

Ela não conseguiu, contudo, impor-se no Executivo. No início de 2016, quando o choque com os ataques jihadistas de 2015 na França ainda era patente, a então ministra apresentou sua demissão por discordar da polêmica proposta de Hollande de retirar a nacionalidade francesa de cidadãos binacionais.

Criticada pela direita por sua suposta "frouxidão" em temas de segurança, seu retorno à linha de frente política não se anuncia como fácil, especialmente depois de, no final de setembro, recusar-se a reforçar os apelos pela vacinação anticovid. Sua postura irritou o governo.

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