Ex-ministros protestam contra sugestão de Salles de 'passar boiada' e 'simplificar normas' ambientais durante pandemia

Renato Grandelle

RIO - Ex-ministros do Meio Ambiente condenaram o pronunciamento do atual titular do cargo, Ricardo Salles, em reunião do governo federal, cujo vídeo foi divulgado esta sexta-feira pelo ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal.

Salles sugeriu um esforço para "ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas" de órgãos como o Ministério do Meio Ambiente "enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto da cobertura de imprensa, porque só se fala em Covid".

Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente do governo Dilma Rousseff, afirmou que sua primeira reação ao vídeo foi de "estarrecimento".

- A fala dele reafirma a preocupações que os ex-ministros demonstraram em uma carta, escrita no ano passado, sobre os rumos da política ambiental - recorda. - Sobre a fala em si, não há o que comentar. Se ele prega mesmo um "libera geral", ele não é ministro do Meio Ambiente. Ele exerce o cargo.

Carlos Minc, titular da pasta no governo Lula, acredita que a principal mensagem do vídeo é a "falta de sensibilidade" de Salles, que prefere "aprovar barbaridades" sobre sua gestão no Parlamento e na Justiça ao invés de refletir como poderia contribuir para o fim da pandemia.

- O vírus passa pelo esgoto, está no lixo, chega à rede de águas que vai para favelas.Há mil coisas que o Ministério do Meio Ambiente poderia fazer. A crise humana não pode ser vista como uma oportunidade para fazer lambanças com decretos e portarias. Salles está encarando friamente uma pandemia como uma oportunidade.

Para José Carlos Carvalho, ministro do Meio Ambiente no governo FHC, algumas ações recentes mostram como Salles tenta promover um desmonte do órgão durante a pandemia.

- Salles aproveitou a onda (do coronavírus) para reduzir a estrutura do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação à Biodiversidade) e exonerar fiscais do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais) - denuncia. - Também fez uma investida que poderia aumentar o desmatamento da Mata Atlântica, mas foi barrado na Justiça. E, a serviço dos interesses mais retrógrados, anistiou o pagamento de infrações ambientais e acabou com as reuniões do Conselho Nacional de Meio Ambiente.

Em nota, Salles afirmou: ”Sempre defendi desburocratizar e simplificar normas, em todas as áreas, com bom senso e tudo dentro da lei. O emaranhado de regras irracionais atrapalha investimentos, a geração de empregos e, portanto, o desenvolvimento sustentável no Brasil.”