Ex-morador de rua conta em livro encontro com pai que conheceu numa fila de autógrafos

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O encontro do ex-morador de rua Leo Motta, de 40 anos, com seu pai, Paulo Roberto Carvalho, de 62, é daqueles que dariam um livro. Mesmo. Escrito por Leo, “Há vida depois das marquises — sonhos” será lançado neste sábado, a partir das 14h, no Museu do Amanhã. Apoiado por uma vaquinha virtual, o autor estreou em 2019 com “Há vida depois das marquises”. Na Bienal do Livro, o pai cuja identidade ele desconhecia, mas que já o acompanhava pelas redes sociais, apareceu na fila de autógrafos. Não disse quem era. Apenas deixou o número de telefone e um convite para uma feijoada. Na despedida lançou uma frase enigmática: “Tenho um livro para escrevermos juntos”.

O almoço, além de selar o encontro com o pai biológico, deu a Leo Motta, de uma tacada só, uma numerosa família.

— É uma história que vai ficar eternizada. Que sirva de exemplo para outros pais e filhos à procura um do outro. Que sejam felizes e vejam que a vida é maravilhosa— diz Paulo.

No novo livro, Leo Motta aborda a reconstrução de sua vida longe das calçadas e a chegada da pandemia, com reflexos duros para a população de rua. Para o lançamento, o autor convidou dez sem-teto e vai presenteá-los com um exemplar autografado.

A mensagem é de esperança: problemas na infância levaram Leo Motta às drogas. Aos 14 anos, já era dependente químico. Aos 33, conheceu o crack, perdeu o emprego e foi parar nas ruas.

— Uma vez entrei num restaurante para pedir água, me deram num copo com gelo e sal. Outra vez fui pedir comida para uma mulher que me cuspiu na cara — conta.Acolhido por uma instituição dedicada à recuperação de usuários de drogas, ele passou a relatar sua experiência nas redes sociais. Em um mês, saltou de dez para mais de 30 mil seguidores — um deles o estimulou a transformar os relatos no livro que o uniu ao seu pai biológico.

Dias depois do lançamento, Leo foi ao seu encontro. Inicialmente ele pensou que fosse alguém interessado em oferecer patrocínio para um livro ou projeto social. Mas, ao chegar ao local matou a charada ao se reconhecer nas outras pessoas que acompanhavam o anfitrião. Todas eram muito parecidas com ele. Só aí Paulo Roberto revelou ser seu pai. De uma só vez, o ex-morador de rua e agora escritor ganhou sete irmãos e 16 sobrinhos. Descobriu também que o pai, assim como ele, teve um histórico de vivência na rua, dos 12 aos 14 anos, e, assim como ele, deu a volta por cima.

Leo hoje reconstituiu família, é pai de quatro filhos, com idades entre 1 e 23 anos, e mora numa casa em Vista Alegre, doada por uma irmã, que só conheceu quando ganhou um pai. Além de escrever livros, boa parte de sua renda vem das palestras em que relata seus dias nas calçadas e sob marquises. Leo é também assessor na Secretaria municipal Assistência Social.

Já Paulo Roberto deixou as ruas ao ser adotado e, em vez de traçar o mesmo caminho do pai biológico, que era traficante, tomou a direção inversa: virou policial. Atualmente, depois de reformado da PM, toca um restaurante em Olaria.

— Quero mostrar que história de fracasso a gente escreve sozinho, mas as de sucesso escreve com outras pessoas. Vale a pena apoiar alguém que está passando por um momento de dificuldade. Minha mensagem é de esperança — diz Leo sobre o novo livro.

Além do encontro com o pai, Leo relata ainda no livro histórias de outras pessoas que ainda vivem nas ruas. E mostra como a pandemia foi cruel com esse público, que de uma hora para outra viu os restaurantes fecharem e ficaram sem as sobras doadas ao fim do dia, entre outras tantas dificuldades.

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