Ex-nanico, Podemos cresce com discurso pró-Lava Jato e vira opção para Moro

RANIER BRAGON E DANIEL CARVALHO
***ATENÇÃO FOTO DE ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, 06.06.2018 – Álvaro Dias (Podemos-PR) durante sua campanha para eleição com presidente da República em 2018. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Partido nanico por mais de 20 anos e comandado sempre em família, o Podemos passou pelo maior inchaço político dos últimos tempos e alcançou o posto de segunda maior bancada do Senado.

Com forte discurso pró-Lava Jato e anticorrupção, se tornou opção preferencial para eventual candidatura presidencial do ex-juiz Sergio Moro (sem partido) em 2022.

A sigla também pode ser o destino de congressistas do PSL de Jair Bolsonaro que, hoje, estão em pé de guerra com o atual presidente da legenda, o deputado federal Luciano Bivar (PE). 

Embora oficialmente não haja nenhum entendimento entre o atual ministro da Justiça de Bolsonaro e a legenda, o Podemos tem se colocado há muito tempo como uma espécie de "líder da bancada da Lava Jato" no Congresso e já deixou claro que terá candidato à Presidência contra Bolsonaro.

Hoje o principal nome da sigla e postulante a essa vaga é o líder da bancada no Senado, Álvaro Dias (PR), próximo a Moro.

Na campanha presidencial de 2018, Álvaro Dias (que ficou em 9º na disputa) tinha como uma de suas promessas principais emplacar o então juiz da Lava Jato como seu ministro da Justiça -isso bem antes da vitória de Bolsonaro, que acabou adotando a promessa de Álvaro e levando Moro para o ministério.

Tido como superministro durante a transição e início da gestão, Moro tem sofrido derrotas no Congresso e dentro do próprio governo, além de ter tido a sua isenção como juiz da Lava Jato colocada em xeque após o vazamento de mensagens trocadas no decorrer da operação.

Como a sua indicação para o STF é vista cada vez como menos provável, alguns palacianos dizem acreditar que o ministro irá, em algum momento, sair do governo para trabalhar uma candidatura presidencial. 

O partido já é atacado por bolsonaristas. Filho mais atuante do presidente nas redes sociais, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) postou no final do mês passado: "É impressão minha ou esse tal de Podemos já faz bastante tempo quer tomar o lugar de um partido vermelho? A metamorfose não para um segundo! Façamos sempre as leituras!"

Segundo o Datafolha, apesar do escândalo da Vaza Jato, Moro é o ministro mais bem avaliado do governo (54% de ótimo e bom), com desempenho bem superior ao do próprio presidente (29%).

O ministro diz que não disputará a Presidência em 2022. "Ele não será candidato em 2022, o candidato dele é Jair Bolsonaro. Ele não vai se filiar ao Podemos, nem a nenhum outro partido", disse a assessoria de imprensa.

Álvaro Dias segue o mesmo discurso. "É mentira. Isso é coisa de alguns setores da imprensa, isso no partido nunca foi discutido, esse assunto não foi levado ao partido e não há nenhuma cogitação", afirma sobre a candidatura de Moro.

Segundo o senador, falar sobre isso agora é ajudar os que querem minar o trabalho do ministro no governo. 

"Tenho a percepção que o projeto dele está ligado à justiça. Não faríamos esse mal a ele. Estimular essa especulação é jogar na lenha da fogueira daqueles que criam dificuldade a ele no desempenho de suas funções dentro governo. É jogá-lo na vala comum dos políticos com pretensões ilimitadas", acrescenta o senador.

O Podemos tem atualmente 11 cadeiras no Senado, perdendo apenas para o MDB (13). A última filiação foi a da Juíza Selma Arruda (MT), chamada de "Moro de saias", que abandonou o PSL de Bolsonaro.

Sobre as bandeiras que diferenciam o Podemos da gestão Bolsonaro, Dias cita o combate à corrupção.

"A Operação Lava Jato estava mais forte no governo do Michel Temer, que foi denunciado duas vezes pela Procuradoria-Geral da República, do que hoje", afirma.

Um dos principais aliados de Bolsonaro, o deputado Marco Feliciano (Podemos-SP) diz que deverá sair do partido caso a legenda abrace uma candidatura presidencial de Moro.

"Não acredito que o Moro seja presidenciável. Se algum dia ele vier e o Podemos confirmar ele como candidato, eu deixo o partido imediatamente, porque sou Bolsonaro desde criancinha. Ou serei um entrave a esse projeto, dentro da legenda", afirma.

Líder do partido na Câmara, o deputado José Nelto (GO) nega qualquer conversa com o ministro, mas diz que a sigla está aberto a todos que não querem saber de polarização política e corrupção.

"Nunca houve esta conversa com o Moro. Agora, atualmente, ele é político. Tem que sobreviver na política, montar uma banca de advocacia ou fazer palestras. Se ele pensar em se filiar, estamos de braços abertos, mas não houve nenhuma conversa", diz o deputado.

Alguns integrantes da sigla dizem reservadamente que o crescimento do partido no Senado serve, neste momento, para criar uma base para a candidatura de Dias ao comando da Casa, que tem eleição no início de 2021. O eleito fica no cargo durante dois anos.

Nesta primeira etapa, parlamentares apontam dois entraves para Dias. O primeiro é o desejo do atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), ser reconduzido ao cargo.

Hoje, não é possível se reeleger, mas há um princípio de articulação no Senado e na Câmara para que se viabilize uma PEC (proposta de emenda à Constituição) para mudar isso. O Podemos é contra.

Além disso, eles sabem ser inviável que o Palácio do Planalto apoie uma candidatura de alguém que pretende se cacifar para enfrentar Bolsonaro em 2022.

José Nelto não vê problema caso Moro se filie e, assim como Dias, queira disputar a eleição presidencial.

"Chegou lá na frente, o partido tem que olhar quem vai ganhar a eleição."

Os planos de ampliação de bancada continuam.

No Senado, o partido tem conversado também com o atual líder do PSL, Major Olímpio (SP), e acenou a ele com a possibilidade de disputar o governo de São Paulo.

O Podemos também quer inflar sua bancada na Câmara. Hoje, são 10 deputados, que devem se tornar 12 nos próximos dias, com as filiações de Rodrigo Coelho (SC), atualmente no PSB, e de Eduardo Braide (MA), que está no PMN, além de parlamentares do PSL. A ideia é chegar no ano que vem a algo entre 28 e 30 deputados.

Na estratégia de atrair congressistas para suas fileiras, o Podemos tentou aprovar na minirreforma eleitoral proposta que ampliaria sua fatia de fundo eleitoral e que permitiria a abertura imediata de uma janela de troca-troca de políticos entre as siglas, mas as medidas foram barradas pelos outros partidos.

Oficializado em 1995 sob o comando do ex-deputado do MDB de São Paulo Dorival de Abreu, um dos congressistas cassados pela ditadura, o Podemos atendeu até 2017 pela sigla PTN (Partido Trabalhista Nacional) -o novo nome foi inspirado, em parte, no slogan de Barack Obama (Yes, we can).

Após a morte de Dorival, em 2004, o controle da sigla foi para seu irmão, José de Abreu, deputado federal por dois mandatos pelo PSDB. A atual presidente da sigla, a também deputada federal Renata Abreu (SP), é filha de José de Abreu.


O PODEMOS, EX-PTN

Nascido em 1995 sob a sigla PTN (Partido Trabalhista Nacional), trocou o nome em 2016 para Podemos. Sua presidente é a deputada federal Renata Abreu (SP). Atualmente, tem 11 senadores e 10 deputados federais em exercício. Desde o início do ano, tem cota mensal de aproximadamente R$ 1,7 milhão de fundo partidário.