Ex-passista da Mangueira, Rafaela Bastos quer incentivar servidor a pensar o Rio

Rafael Galdo
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Sobre a mesa, há um livro de economia comportamental e, na parede, um quadro pintado pelo pai, com a imagem de um casal de mestre-sala e porta-bandeira, e outro com o texto “O Brasil que eu quero tem Zeca presidente e um samba de hino”. São sinais da chegada à presidência da Fundação João Goulart — autarquia da prefeitura do Rio para promover o desenvolvimento dos servidores municipais — de Rafaela Bastos, de 39 anos, geógrafa e gestora pública que nasceu em berço de sambistas e, por 23 carnavais, foi passista e musa da Estação Primeira de Mangueira.

Ao novo cargo, ela traz a trajetória de uma mulher negra que, seja nos escritórios ou na Avenida, faz uso das lições primordiais do gingado para dar um baile em adversidades, conquistar espaços e fazer valer com suas competências.

— A passista faz parte da minha personalidade, mas também trago para a gestão pública saberes do samba como ancestralidade, contemporaneidade e jogo de cintura. Na Sapucaí, consigo perceber a pessoa que está me olhando no último degrau da arquibancada e sambo para ela — , diz Rafaela, antes de seguir com maestria.

— Além disso, quem entende de evolução, harmonia e conjunto sabe que na Avenida mora o perigo. Ensaiamos com a comunidade. Mas, quando entramos no Setor 1, somos três a quatro mil pessoas emocionadas, individualmente se expressando no desfile. Tem algo mais arriscado em termos de gestão e desenvolvimento? Aliás, deveria haver mais gestores passistas, inclusive nas escolas de samba — preconiza.

O contato dela com essas expertises tão cariocas é umbilical: é sobrinha neta de Ed Miranda Rosa, ex-presidente e baluarte da Estação Primeira, e desde criança ia com os pais a ensaios de agremiações como São Clemente e Caprichosos de Pilares.

Mas foi só no final da adolescência que a menina de Botafogo, na Zona Sul, descobriu o poder de se comunicar para valer com o samba no pé. Ela brinca que precisou ir à quadra da Mangueira, onde decidiu ser passista e nasceu a Rafaela líder.

Um estudo que desenvolveu sobre a objetificação da passista lhe rendeu uma Medalha Rui Barbosa. Depois de trabalhar no setor elétrico, Rafaela ocupou vários cargos na Prefeitura, Até que no dia 2 de dezembro de 2020, Dia Nacional do Samba, ela foi convidada para uma conversa com o futuro prefeito Eduardo Paes. Do encontro, saiu a proposta para ficar à frente da Fundação.

— Foi uma conversa muito pautada nas minhas competências e habilidades. — conta Rafaela.

Logo no primeiro Diário Oficial do novo governo, Fundação João Goulart ganhou destaque. Foi reativado o Núcleo de Ciência de Dados (Pensa) e criado um Banco de Projetos, com o objetivo de reunir soluções propostas por servidores públicos que visem otimizar os recursos públicos e fomentar um ambiente de inovação, além do Programa Rio Liderança Feminina.

— A nossa ideia é justamente incentivar os servidores que estão refletindo a cidade e tomando decisões junto com prefeitos e secretários — ressalta Rafaela.