Ex-pesquisador do IBGE aponta problemas na definição de negro como a soma de pretos com pardos

A definição de negro como a contagem de pretos e pardos gera distorções, defende o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, que trabalhou por 20 anos como pesquisador no IBGE. Segundo ele, nem todos os pardos terão as características fenótipas das pessoas pretas, mas mudanças na categoria são muito difíceis de serem realizadas. Nesta semana, o IBGE divulgou que, em dez anos (de 2012 a 2021), o número de pessoas que se declaram como preta e parda aumentou em uma taxa superior à do crescimento do total da população do país, segundo o resultado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do Ibge.

Qual a definição de pardo utilizada pelo IBGE?

Ela varia ao longo do tempo, mas o que mais encaixa é a mistura. Você tem tem branco, preto e amarelo, que são as cores. E o indígena, que é uma etnia. A mistura entre eles é o pardo.

Porque o senhor vê que há inconsistências na classificação do negro como a soma de preto mais pardo?

A grande maioria dos pardos é preto com branco. Ao longo do tempo, foi observaram que as características das populações preta e parda eram parecidas. Até uns 20 anos atrás, o Brasil tinha 7% de pretos e uns 40% de pardos. Se fizer um estudo com recortes mais focalizados, os pesquisadores tinham uma amostra muito pequena de pretos. Então, passaram a juntar com os pardos. No entanto, o pardo pode ser o branco com o índio, o índio com o amarelo. E essas misturas, apesar de não terem as características das pessoas pretas, também passam a ser negras.

Na sua avaliação, o IBGE precisa mudar o critério do pardo para conseguir separar esses dois grupo?

O IBGE já fez várias pesquisas experimentais e têm várias propostas para fazer alteração. Há o debate. Por um lado, melhor e a gente teria uma visão mais detalhada. O pardo com certeza não é a melhor definição, ninguém está satisfeita com ela. Mas esbarra no problema da série histórica: essa categoria já existe há pelo menos 60 anos, se muda agora como comparar o passado? É difícil.

O que aconteceu para que o número de pretos e negros crescesse em dez anos?

Isso é consequência das políticas afirmativas e das campanhas do movimento negro de autoafirmação. Então mais pessoas se autodeclaram pretas e pardas. A pessoa sente o que é melhor para ela. Antes desse movimento todo, no século XX, falar que era branco era mais valorizado, havia uma série de vantagens. Quando começa o movimento de valorizar a população preta, parda e indígena, as pessoas passam a assumir a negritude e a posição não-branca na sociedade. Até o censo de 2000, a população branca era maioria. Agora, a parda e preta já são 56%. É um movimento muito claro de mudança cultural.

O Brasil passa por uma transição demográfica, com a diminuição do número de filhos por mulher. Isso pode estar afetando o crescimento do pretos e pardos na população?

Até pode influenciar alguma coisa, mas pouco. As populações preta e parda têm uma taxa de fecundidade um poquinho maior que a branca. Então isso, no longo prazo, pode fazer diferença. Não é tão grande, mas é um pouco maior. Ou seja, estariam nascendo mais pretos e pardos do que brancos. Mas por outro lado a taxa de mortalidade também é um poquinho maior entre pretos e pardos. Por isso acho que acho que a diferença maior é mesmo a mudança cultural, o processo de valorização daquilo que era desvalorizado.

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