Ex-presidente Bolsonaro recebe apoiadores nos EUA, faz piada e evita política

KISSIMMEE, EUA (FOLHAPRESS) - Nas primeiras horas após deixar o cargo, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) recebeu apoiadores e deu autógrafos aos partidários que foram vê-lo no condomínio em que se hospedou na região de Orlando, na Flórida, sudeste dos Estados Unidos.

Bolsonaro saiu do Brasil na sexta (30) e, rompendo uma tradição democrática, decidiu não passar a faixa para Lula (PT), que toma posse na Presidência neste domingo (1º).

Centenas de brasileiros visitaram o condomínio desde que Bolsonaro chegou ao local, na noite de sexta, onde a restrição de acesso é pequena e não há barreiras de segurança.

Agentes do serviço secreto americano cercavam a casa em que Bolsonaro está hospedado, do ex-lutador de MMA José Aldo, a poucos minutos dos parques da Disney. Havia também viaturas da polícia no local, e uma tela foi colocada na área de lazer dos fundos da casa impedindo a vista da área da piscina.

O trânsito de brasileiros para ver o agora ex-presidente foi intenso desde sábado e se ouvia mais português do que inglês nas ruas do condomínio, onde é possível alugar casas por temporada e que tem atrações e serviços como parque aquático e transporte para quem vai aos parques da Disney.

A casa de José Aldo, onde Bolsonaro deve passar as primeiras semanas de janeiro, tem oito quartos e a diária sai a US$ 519 (R$ 2.714), segundo a plataforma de aluguel do condomínio. Não foi informado se Bolsonaro está pagando pela estadia ou se a casa foi cedida pelo ex-lutador, que declarou voto no ex-presidente na eleição de outubro.

Pela manhã deste domingo, apoiadores tentaram entregar cestas de café da manhã ao ex-mandatário, que foram recusadas por assessores de Bolsonaro alegando medidas de segurança.

Por volta das 9h, partidários começaram a se juntar na calçada em frente à casa, e às 9h55 do horário local, Bolsonaro saiu à porta. Bem-humorado, fez piada com a quantidade de autógrafos que estava dando, dizendo que passaria a cobrar por cada assinatura, e tirou fotos individuais com seus eleitores, em um tom diferente do comportamento recluso que adotou no Brasil depois que perdeu a eleição. Nas aparições deste fim de semana, porém, continuou sem fazer comentários políticos.

Ainda pela manhã, deu uma volta por alguns quarteirões do condomínio com os seguranças, sem que os apoiadores pudessem acompanhar. Nem a ex-primeira-dama Michelle nem os filhos de Bolsonaro apareceram no local para falar com os apoiadores até o meio da tarde de domingo.

Por volta das 12h, Bolsonaro saiu à porta outra vez e tirou fotos brevemente com o grupo de apoiadores, já bem maior. Vestindo uma camisa do time de futebol Sport, novamente não fez comentários sobre a posse do novo presidente.

Segundo um assessor, o ex-presidente passou a virada do ano em casa, com a família, após cumprimentar apoiadores em vários momentos do sábado até por volta das 19h. O mesmo padrão se repetiu ao longo deste domingo: os apoiadores se juntavam em frente à casa em algumas dezenas de hora em hora gritando "mito", e Bolsonaro eventualmente aparecia para falar com o grupo, sem fazer discursos.

A Flórida tem uma das maiores concentração de brasileiros nos Estados Unidos, segundo dados de 2020 do Itamaraty, que estimam 410 mil expatriados por lá, quase um quarto dos 1,8 milhões de brasileiros no país. Também concentra uma base forte de apoiadores do ex-presidente. Com o maior colégio eleitoral de brasileiros no EUA, Bolsonaro recebeu 81% dos 16,2 mil votos nas urnas da jurisdição de Miami no segundo turno das eleições de 2022, quando perdeu para o novo presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Uma referência mais famosa de Bolsonaro também pegou um voo para a Flórida após perder a eleição e não participou da cerimônia de posse do governo seguinte. Donald Trump também voou para o estado em 20 de janeiro de 2021 e não foi à posse do democrata Joe Biden, primeiro presidente americano a fazê-lo desde Andrew Johnson em 1869. Na ocasião, ele foi direto para seu resort, Mar-a-Lago, em Palm Beach, na região de Miami.

Havia a expectativa de que Bolsonaro fosse passar a virada do ano no resort de Trump, a 280 quilômetros de distância de onde está hospedado, mas o ex-mandatário acabou ficando em casa.

Apoiadores viajaram de diferentes partes dos EUA para ver Bolsonaro. Um manifestante relatou que viajou 24 horas desde Cape Cod, em Massachussetts, no nordeste do país.

A presença de um ex-chefe de Estado brasileiro na cidade, que gira em torno dos parques da Disney, espantou americanos, que fizeram comentários bem-humorados sobre a escolha de Bolsonaro para passar a virada.

"Aposto que os preços dos aluguéis vão subir aqui agora", brincou o diretor de escola George Rivera, 45, após a reportagem esclarecer quem era a figura que parava o trânsito do condomínio. "Não esperava que o presidente de outro país viria logo para cá. Quanto tempo ele fica aqui ainda? Espero que essa confusão não dure muito mais", disse.

Desde que chegou ao condomínio na região de Orlando, Bolsonaro pouco saiu de casa a não ser para cumprimentar os apoiadores na porta de casa. Em uma das raras saídas, foi almoçar no sábado em um restaurante da rede de fast food KFC.