Ex-trabalhadores do lixão relatam fome e falta d’água, fantasmas que assustam mais do que a pandemia

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“Meu filho, aqui nunca foi bom para eu falar que piorou”. A frase sincera de Vania da Silva, de 58 anos, ao ser questionada sobre o quanto a pandemia do novo coronavírus piorou suas condições de vida, mostra a realidade dos moradores da favela do Jardim Gramacho, ao lado do antigo lixão, em Duque de Caxias. Ela e outras famílias da região dizem conviver com uma rotina de “pandemia eterna”.

Dona Vania mora há mais de 30 anos na comunidade. Lá criou filhos, e agora vê os netos crescerem sem qualquer saneamento básico e acesso a água potável. Ex-trabalhadora da Rampa — como os moradores se referem ao antigo aterro sanitário — ela sempre tirou seu sustento do lixão. Desde o fechamento, luta diariamente apenas para sobreviver. A chegada da pandemia não mudou muita coisa em sua rotina e dos moradores da comunidade, que vão passando os dias à base de doações externas e ajudas entre eles mesmos.

— Aqui nunca foi bom para eu falar que piorou. A gente sabe que está nesse período de pandemia porque ouvimos falar na TV e no rádio, mas aqui, para nós, continua a mesma miséria de sempre, não mudou nada — desabafa Dona Vania:

— Dizem que temos que usar máscara, álcool, mas isso é luxo para nós. Nossa prioridade é alimentar nossas crianças, e para isso precisamos nos virar. Para os político, não existimos, tanto que não temos água limpa aqui, vivemos de água de bica, que guardamos em baldes.

Uma volta pelas vielas de Jardim Gramacho faz esquecer que estamos em período de pandemia. Não há uso de máscaras, distanciamento social ou preocupações sanitárias, até mesmo pelas péssimas condições do local. Há, sim, muitas pessoas em busca de água potável, que rareou bastante no último ano. Vizinha de Dona Vania, a dona de casa Michele Silva, de 28 anos, cria cinco filhos em meio a sujeira e lama, e tendo de reaproveitar a água utilizada em atividades como lavar louça e roupas para tomar banho.

— Há dez anos que não tomo um banho de chuveiro. Aqui é só com balde e caneca. Piorou no último ano, porque que as bicas e bombas que abasteciam a comunidade começaram a falhar e houve falta d’água. Passávamos dias sem um banho ou sem lavar roupa, pois o que tinha era para beber ou cozinhar. Hoje em dia, para economizar, a água que usamos para lavar louça e roupas é reutilizada para o banho — relata Michele.

Pastor de uma igreja dentro da comunidade, Luiz Antonio Souza conta que soube de poucos casos de moradores que contraíram a Covid-19. Ele realiza trabalhos sociais captando doações para as famílias da região e ajudando na construção de casas com materiais doados ou sobras de outras obras que ele recolhe pelas ruas. De acordo com o padre, o número de doações que chegam ao Jardim Gramacho diminuiu bastante.

— Aqui só soube de cinco pessoas que pegaram Covid, até porque o pessoal não costuma sair da favela. A maioria deles trabalhava na Rampa e continua aqui. Mas o número de pessoas e ONG’s que nos procuravam para ajudar com doações caiu muito. Faço até um apelo, porque os moradores daqui estão precisando demais. Muita gente ouve que fechou o aterro sanitário, mas esquece que tem milhares de pessoas que ficaram sem sustento, sem nada — completa Luiz Antonio.

Fato comum entre praticamente todos os moradores do Jardim Gramacho é o lamento pelo fechamento do aterro sanitário, em 2012. O maior depósito de lixo da América Latina funcionou durante 35 anos e recebia 80% dos resíduos produzidos na Região Metropolitana do Rio, o equivalente a cerca de 9 mil toneladas diárias.

O lixão foi, por muito tempo, o principal meio de sustento de milhares de famílias. Os trabalhadores e seus parentes sobrevivam da reciclagem e do reaproveitamento do material, e acabavam morando no local.

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