Exame que detectou febre hemorrágica entrou na rotina do Einstein há duas semanas

Elisa Martins
Fachada do Hospital Israelita Albert Einstein. 29/09/2018.

SÃO PAULO - O exame que detectou o vírus de um novo caso de febre hemorrágica, doença que não era reportada no país há 20 anos, entrou na rotina do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, há apenas duas semanas. O teste é capaz de detectar diferentes vírus, bactérias e parasitas, mesmo os mais raros, caso de um arenavírus, causador da febre hemorrágica.

- Foi uma grande surpresa. O último caso de febre hemorrágica tinha sido diagnosticado na década de 1990. Conferimos várias vezes o resultado e se encaixava na descrição de um arenavírus. Muitos pacientes internados sem diagnóstico fechado acabam falecendo sem sabermos o agente causador da doença. Agora temos uma nova opção de diagnóstico, que permite até adotar tratamentos específicos - contou ao GLOBO o médico João Renato Rebello Pinho, coordenador do laboratório de técnicas especiais do Einstein.

A vítima, um homem de 52 anos de Sorocaba, no interior de São Paulo, tinha passado férias em Eldorado, no Vale do Ribeira, no Sul do estado. Ele passou por hospitais da região e, posteriormente, foi transferido ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo, que enviou amostras de sangue para o laboratório do Einstein. As duas instituições, com outros centros de referência, participam de um projeto do Ministério da Saúde para estudo de hepatites virais agudas, o que se chegou a considerar no caso do paciente paulista.

- O quadro clínico começou em 30 de dezembro. E foi piorando progressivamente. Ele tinha febre, icterícia, olhos bem avermelhados. Parecia um quadro de febre amarela, e a região onde passou férias dava a entender que poderia ser. Fizemos o teste para febre amarela, e também dengue, chicungunha e outros agentes não virais que poderiam estar envolvidos no caso dele. E nenhum deu positivo - lembra Rebello.

Foi quando a equipe decidiu usar um novo método, inicialmente não previsto no projeto, mas que começava a ser adotado na rotina do Einstein. É chamado de viroma/metagenoma. Em uma primeira etapa do teste, os pesquisadores extraíram todo o material genético da amostra enviada pelo HC. Separou-se o material genético humano do material genético de agentes patogênicos, como vírus.

O material foi depois encaminhado para sequenciadores, que fazem a identificação e a leitura do material genético. Essa sequência gera uma espécie de "código de barras" para cada organismo que, por sua vez, é comparado a um banco de dados. Os pesquisadores buscaram a correspondência do material com a de outros materiais genéticos depositados em bancos de dados internacionais. Daí, veio a identificação com um arenavírus.

No dia 14, os especialistas do Einstein descobriram que se tratava do Mammarenavirus, gênero dos vírus da família Arenaviridae. Rebello alertou a equipe do HC. O paciente já havia falecido no dia 11, mas os especialistas acreditam que o exame pode ajudar em outros casos de vírus raros, sem diagnóstico fechado, além de bactérias e parasitas, e oferecer uma chance de tratamento. Segundo o Einstein, os resultados saem em cerca de quinze dias, mas há intenção de reduzir a demora a um terço disso.

- É uma nova metodologia que pode mudar a forma de fazer diagnóstico - diz Rebello. - Normalmente, o protocolo clínico testa uma suspeita por vez. O médico acha que é hepatite, se testa hepatite, aí febre amarela, dengue, chikungunha, vai se testando separadamente. Esse novo método detecta qualquer RNA de vírus presente na amostra. E permite buscar um diagnóstico genérico, de diferentes agentes, em vez de procurar por algo específico - diz Rebello.

Amostras enviadas aos EUA

No caso da febre hemorrágica, o vírus pode estar presente em urina e fezes secas de roedores. A transmissão acontece no contato desse material com a mucosa respiratória. É uma doença considerada gravem com alto risco de morte. O último relato de casos no Brasil foi em 1994, de uma mulher do bairro Jardim Sabiá, em Cotia, no interior de São Paulo, que também faleceu. Apenas quatro casos tinham sido registrados até então, segundo Boletim Epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde.

A nova vítima, suspeita-se, pode ter sido contaminada por outro tipo do clã Mammarenavirus em Eldorado, em São Paulo, diferente ao do caso do Jardim Sabía, de 1994. A descoberta foi então batizada de Eldorado arenavirus, que será analisado mais a fundo, agora, por especialistas.

Além disso, segundo o Einstein, amostras da nova vítima serão encaminhadas para um dos principais centros epidemiológicos do mundo, o Centers for Diseases Control and Prevention (CDC), nos Estados Unidos. É considerado um dos poucos a dispor de um laboratório com alto nível de segurança, que armazena outras amostras de vírus potencialmente letais, como do Ebola.

Embora a febre hemorrágica seja considerada extremamente rara e letal. Rebello afirma que não há motivo de pânico na população:- É um meio de transmissão restrito, muito específico. E depende de as pessoas terem contato com urina e fezes de roedores com o vírus. As pessoas que tiveram contato com a vítima no hospital estão sendo monitoradas. Agora entra a vigilância de saúde.