Exceções para ingresso em colégio militar disparam no governo Bolsonaro

***ARQUIVO***OSASCO, SP, 21.10.2022 - O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
***ARQUIVO***OSASCO, SP, 21.10.2022 - O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A quantidade de matrículas excepcionais concedidas pelo comando do Exército em colégios militares bateu recorde no governo de Jair Bolsonaro (PL). Foram 19 ao longo do mandato, enquanto somente 10 foram concedidas entre 2011 e 2018.

O movimento foi iniciado ainda em 2019 quando a deputada federal Carla Zambelli (PL) conseguiu uma exceção para matricular o filho no Colégio Militar de Brasília por motivos de segurança.

Com a decisão do então comandante do Exército, Edson Pujol, o filho da deputada não precisou passar pelo concurso, única forma de entrada na instituição para quem não é filho de militar.

A matrícula excepcional foi a única concedida em 2019. Em 2020, foram 3 casos. No ano seguinte, 2021, quando Pujol deixou o comando em meio a uma crise na cúpula militar e passou o bastão para Paulo Sergio Nogueira, 7 matrículas excepcionais foram concedidas. Em 2022, elas chegaram a 8.

Uma das matrículas de 2022 foi para a filha de Bolsonaro e de Michelle. O motivo alegado também foi de segurança.

Procurado, o Exército não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Além das situações relacionadas a Zambelli e ao casal Bolsonaro, a Folha identificou outras situações de matrícula excepcional. Três desses casos foram de pessoas que tentaram entrar pelo concurso, não conseguiram e depois obtiveram a autorização excepcional do comandante do Exército.

Em 2020, uma das três beneficiadas foi a filha de um policial militar de Brasília que na época estava fazendo a segurança do governador do DF, Ibaneis Rocha, e de uma segundo-tenente do Exército. O pai disse não ter se envolvido no processo de matrícula da filha, apenas a mãe, com quem a reportagem não conseguiu contato.

Outro beneficiado de 2020 foi o filho de uma médica e major da Aeronáutica. Ela disse que, após o filho tentar um sorteio de vagas remanescentes no Colégio Militar de Brasília, o Exército a informou de que não haveria espaço, mas depois avisou que haveria uma autorização excepcional.

Essas autorizações não são públicas. Constam do Boletim Restrito do Exército. A reportagem pediu acesso aos boletins por meio da Lei de Acesso à Informação, mas o pedido foi negado sob a alegação de conter dados pessoais. A Força também não quis fornecer uma versão tarjada do documento.

As matrículas excepcionais são sempre concedidas para alunos do sexto ano do ensino fundamental ou do primeiro ano do ensino médio, os dois períodos nos quais há entradas de novos alunos em colégios militares.

Outra situação identificada pela Folha é relativa ao filho e à filha de uma funcionária que estava comissionada no gabinete do comandante do Exército. Procurada, ela não respondeu aos questionamentos.

Os colégios militares são ligados diretamente ao Exército e existem devido a características únicas da carreira militar, como a disponibilidade permanente.

Para evitar problemas para as famílias, os filhos de membros do Exército recebem vagas automáticas em caso de mudança de algum dos pais. Nem sempre as vagas são preenchidas, e as remanescentes vão para o público geral.

Como a concorrência é maior do que o número de vagas, há um concurso de entrada cuja concorrência é expressiva. Há cursinhos específicos para preparar alunos que pretendem tentar o concurso.

Apesar de raras, nem todo mundo fica satisfeito com a autorização excepcional do comandante do Exército. A primeira a obter uma durante o governo Bolsonaro, a deputada Carla Zambelli, tirou o filho do Colégio Militar e o matriculou em uma instituição particular de Brasília.