EXCLUSIVO-Lula planeja aliança Brasil, Indonésia e Congo por financiamento à proteção de florestas

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Por Lisandra Paraguassu

BRASÍLIA (Reuters) - A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) articula a criação de um grupo formado por Brasil, Indonésia e Congo --o BIC-- para atuar na próxima Conferência das Partes sobre o Clima (COP27), no Egito, em caso de eleição do petista, com objetivo de pressionar os países ricos por financiamento para proteção das florestas e pela definição de detalhes sobre o mercado de carbono global.

Brasil, Indonésia e Congo têm as três maiores áreas de floresta tropical no mundo e, assim como no território brasileiro, as áreas verdes dos demais países estão sob ameaça de desmatamento, com risco para a biodiversidade.

"A proposta do BIC é montar uma aliança estratégica para pautar a questão do financiamento já na COP do Egito", disse à Reuters o coordenador do programa de governo do PT, Aloizio Mercadante.

Os primeiros contatos com os governos de Congo e Indonésia já foram feitos e uma reunião com um assessor do presidente do Congo deve ser marcada para as próximas semanas.

Tosi Mpanu-Mpanu, o principal negociador do Congo para as mudanças climáticas, disse à Reuters que a proposta, embora não seja nova, faz todo sentido para melhorar a posição de negociação dos países do BIC.

"Unir as vozes traria mais peso diante das nações ocidentais dispostas a fornecer recursos para a proteção das florestas", afirmou em entrevista de seu país.

Em 2012, os três países iniciaram conversações preliminares para juntar as três bases e conseguir mais peso nas negociações internacionais que visam dar um verdadeiro valor aos recursos florestais.

"Infelizmente, a iniciativa não ganhou muita força, principalmente devido à Indonésia, que não aderiu totalmente ao empreendimento por razões políticas internas", disse.

Mpanu-Mpanu afirmou que o desmatamento tem uma dinâmica diferente nos três países. No Brasil e na Indonésia, é principalmente impulsionado por políticas agroindustriais agressivas, enquanto no Congo é provocado principalmente pela pobreza, com práticas agrícolas de corte e queima e necessidades de energia.

A embaixada da Indonésia não respondeu a um pedido de comentário.

CONVERGÊNCIAS

Dentro da campanha de Lula, o partido já montou um grupo de trabalho para preparar o tema para a conferência, que acontece em novembro. Se tudo der certo para o partido, e Lula for eleito em outubro, o PT poderá ir à Sharm El-Sheikh, onde acontecerá o encontro da ONU, como parte de um novo governo, mesmo que Jair Bolsonaro ainda esteja no cargo.

"Estamos nos preparando para a COP no Egito desde já. Vamos trabalhar essa arquitetura financeira do mercado de carbono nessa articulação com o BIC", disse Mercadante.

A intenção é, a partir dos três países, incluir também outros que têm áreas de floresta tropical na África, Ásia e América do Sul --neste caso, Guiana, Suriname, Venezuela, Colômbia, Equador e Peru, além da França, que tem a Guiana Francesa.

A lógica é unir os interessados para pressionar os mais ricos a contribuírem para manutenção da floresta. O plano do PT prevê uma série de medidas para reduzir o desmatamento e, ao mesmo tempo, incentivar um transição para uma economia mais verde, incluindo ações sustentáveis na Amazônia, que incentive a criação de empregos que garantam a manutenção da floresta em pé.

Mas o PT quer ajuda com financiamento externo e Lula tem repetido isso publicamente. Nesta quarta-feira, quando fez campanha em Manaus, o petista disse que defenderá o fortalecimento da ONU para tratar a emergência climática. "Tem que ser uma governança mundial mais forte, sobretudo na questão climática, porque senão a gente vai ficar fazendo discurso e não vai cumprir", disse o candidato.

Na cúpula da campanha petista, Mercadante tem defendido que é preciso acelerar a implantação internacional do mercado de crédito de carbono, aprovada na COP26, em Glasgow, no ano passado, mas que ainda não está totalmente definida nos detalhes de como serão as medidas de cálculo. A expectativa é que se chegue a um acordo este ano.

A medida foi apoiada pelo economista Jeffrey Sachs, presidente da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, que esteve na Fundação Perseu Abramo, vinculada ao PT, há cerca de duas semanas.

"A proteção da Amazônia e das florestas tropicais requer um financiamento global", disse Sachs.

A ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira --hoje co-presidente do painel de recursos do programa de meio ambiente da ONU-- também defende a ideia da articulação brasileira. Colaboradora do programa ambiental do PT, a ex-ministra disse à Reuters que defendeu a importância de uma aliança com países detentores de florestas para ações pela segurança climática.

"Acho alianças importantes para o diálogo político e entender as convergências", afirmou.

(Reportagem adicional de Anthony Boadle)