Exibida na Mostra SP, série de Marco Bellocchio relembra assassinato de líder político italiano

Quase 20 anos após “Bom dia, noite” (2003), filme que recria o sequestro do líder político Aldo Moro a partir da perspectiva de sua relação com um de seus raptores dentro do cativeiro, Marco Bellocchio retorna ao caso que abalou a História italiana em “Noite exterior”. Exibida no Festival de Cannes deste ano, a produção, que marca a estreia do veterano realizador italiano no formato das séries de TV, examina a tragédia por múltiplos ângulos: cada um de seus seis capítulos é centrado em alguns dos protagonistas daqueles 55 dias em que seu país inteiro foi posto em xeque pelo grupo terrorista de extrema esquerda Brigadas Vermelhas, entre março e maio de 1978.

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Ainda sem data de lançamento no Brasil, a minissérie, que ganhou o European Film Awards de inovação, entra hoje na programação da 46ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, dividida em dois blocos de três capítulos.

Tudo o que ficou fora de cena em “Bom dia, noite” ganha destaque em “Noite exterior”: as manobras e conluios políticos, as rivalidades partidárias, o impacto do rapto na família do político.

À época presidente do Partido Democrata Cristão, Moro (Fabrizio Gifuni) acabara de conseguir apoio para formar um governo de coalizão com o Partido Comunista italiano, o que não era bem visto por parte da classe política, dos militares e até mesmo da Igreja.

Bellocchio e os corroteiristas Stefano Bisses, Ludovida Rampoldi e Davide Serino distribuem essa tensão interna entre personagens-chave, como o ministro do Interior Francesco Cosssiga (Fausto Russo), o Papa Paulo VI (Toni Servillo), Eleonora (Margherita Buy), mulher de Moro, e até Adriana Faranda (Daniela Marra), integrante das Brigadas Vermelhas.

— A série busca tentar compreender os fatos, o que movia cada um dos personagens envolvidos na tragédia — disse em Cannes o autor de “Vincere” (2009), entre outros títulos que refletem os caminhos políticos da Itália.

O senhor lembra como reagiu ao sequestro de Moro, em 1978?

Na época, acompanhei o desenrolar do caso como um cidadão comum. Mas a execução de Moro, particularmente, foi um grande choque não só para mim, mas para todos os italianos. Houve um sentimento de grande surpresa, ninguém acreditava em tamanha violência. Porque nós, italianos, sempre fomos habituados a um estilo de vida de compromisso, fazendo acordos. Achávamos que o prisioneiro seria liberado. Não esperava esse desfecho. Mas eu não entendia a gravidade da situação.

Por que voltar ao caso Moro agora? Alguma relação com o momento político que vivemos hoje?

Não tive uma motivação política, propriamente. Em 2018, o aniversário de 40 anos da tragédia de Moro foi extensivamente lembrado por jornais, emissoras de TV e rádio. Isso me estimulou a voltar a checar se havia discrepâncias no material que eu usara no filme “Bom dia, noite”. Descobri novas imagens e novos personagens que eu havia negligenciado lá atrás. O então ministro do Interior, Francesco Cossiga, por exemplo: queria mostrá-lo não como um político, mas um homem angustiado, que sofria por não conseguia libertar Moro. Desejava destacar também a Eleonora, mulher de Moro, que sempre viveu à sombra do marido e resolveu se expor e lutar com todas as suas forças para libertá-lo. Outro que eu queria ver mais de perto era o Papa Paulo VI, tão condicionado ao seu papel como líder da Igreja. Todos esses personagens me atraíram fortemente, então pude criar algo diferente com tipos que não foram explorados no longa-metragem de 2003.

É a sua primeira experiência com minissérie. O que lhe atraía no formato?

Para falar a verdade, não foi algo calculado. Quando decidimos contar os eventos relacionados ao caso Moro, vimos que precisaríamos desse tempo, que a narrativa teria uma duração maior. Basicamente, nós nos sentimos obrigados a transformar a história que queríamos contar em capítulos, em forma de série. É um formato que impõe um próprio estilo, um certo tipo de diálogo, que tem um ritmo um pouco mais rápido do que outros formatos. Foi uma questão de adaptar a nossa história para a estrutura serial.

O senhor demonstra empatia por todos os protagonistas do caso. Menos pelo então primeiro-ministro Giulio Andreotti, considerado um dos traidores de Moro.

Ele participa de alguns episódios. Mas eu precisava de protagonistas com conflitos fáceis de representar e descrever. Andreotti é uma esfinge. Ele sempre se controla em todas as situações. E não estou afirmando isso que isso seja uma coisa ruim: como primeiro-ministro, ele tinha que respeitar seu papel institucional, não podia aceitar um acordo com os terroristas. O único momento em que perde o controle é quando recebe a notícia do sequestro de Moro e corre para o banheiro, como descrevo na série.

O tom da série é realista. Mas há belos momentos meio oníricos. Como o senhor chegou a esse equilíbrio?

Há a história e seus fatos. Mas também queríamos criar uma série de invenções e digressões fantásticas para cada diferente personagem. Em certo momento, Paulo VI se imagina carregando uma cruz entre políticos engravatados, como uma versão da Via-Crúcis. Mais adiante, a ativista Adriana Faranda sonha com os corpos de seus companheiros e de Moro boiando ao sabor da correnteza de um rio — esse último caso foi baseado em algo que ela mesma escreveu, e essa imagem ficou comigo. A encenação da execução de Moro imaginada por estudantes é outro momento de respiro, de divagação. Eu e meus coautores do roteiro gostamos dessas combinações de real com o onírico. Mas todas essas digressões tiveram origem em fatos.

Ao final, ficamos com a impressão de que a direita e a esquerda são incapazes de chegar a um acordo, de trabalharem juntos. A História se repete?

Em nome da verdade histórica, durante os 55 dias em que Moro esteve em cativeiro, houve a criação de um movimento na Itália que juntou católicos e políticos de várias correntes para trabalhar pela sua libertação. Muito dinheiro também arrecadado pela campanha, mas os terroristas não toparam o pagamento de um resgate. Mas esse esforço, que crescia dia a dia, não teve resultado. A série, diferentemente de “Bom dia, noite”, é muito menos ideológica. Ela busca tentar compreender os fatos, o que movia cada um dos personagens envolvidos na tragédia. Não tive intenção de acusar ou perdoar a todos pelo desfecho, mas não existe ódio contra ninguém.