Exilada do regime Maduro vira influencer de imigrantes venezuelanos no Brasi

***ARQUIVO***CARACAS, VENEZUELA, 13.09.2019 - O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante entrevista à Folha em Caracas, capital do país. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)
***ARQUIVO***CARACAS, VENEZUELA, 13.09.2019 - O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante entrevista à Folha em Caracas, capital do país. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

BOA VISTA, RR (FOLHAPRESS) - A fronteira está aberta? Vai fechar? Reabriu?

Apesar de não ter cargo oficial no Brasil nem na Venezuela, Yesica Morais recebe todos os dias esse tipo de pergunta. É a ela que milhares de venezuelanos recorrem quando precisam de informações atualizadas sobre o trajeto que divide os países, no estado de Roraima —e também para saber como obter passaporte, os documentos necessários para viajar com crianças e como revalidar o diploma universitário.

Filha de um garimpeiro brasileiro e uma comerciante colombiana, nascida e criada na Venezuela, Yeca, como é conhecida, tem um perfil nas redes sociais que a tornou uma referência para venezuelanos que moram ou querem morar no Brasil. Com vídeos sobre documentação, cursos de português, vacinação e outras questões que afetam diretamente esses imigrantes, ela conquistou mais de 30 mil seguidores no Instagram e faz postagens que superam 100 mil curtidas no TikTok.

Ex-moradora de Santa Elena de Uairén, cidade fronteiriça com a roraimense Pacaraima, Yeca, 36, é, ela própria, uma integrante do êxodo que já levou mais de 7 milhões de pessoas a deixarem a Venezuela. Em 2019, mudou-se às pressas para o lado de cá da fronteira, após participar de uma frustrada tentativa da oposição ao ditador Nicolás Maduro de forçar a entrada de ajuda humanitária americana no país.

Na época, o líder oposicionista Juan Guaidó capitaneou a operação, vista como uma violação da soberania do país pelo regime chavista. Caminhões com toneladas de alimentos e remédios acabaram retidos nas fronteiras com Brasil e Colômbia, e manifestantes, feridos e mortos.

Yeca afirma que sempre foi contrária ao chavismo, mas nunca havia se interessado pela militância política até 2017, quando fez campanha para um candidato a governador de oposição. "Ele ganhou, mas roubaram a eleição. A gente já estava acostumado com essas fraudes, mas estar ali, vivendo isso, me fez perceber que não tinha mais nada para fazer no país", afirma ela, que migrou para a Colômbia naquele momento.

Um ano depois, decidiu voltar. "Aí apareceu o Guaidó, e tudo aquilo que estava adormecido dentro de mim acordou. Renovei minha fé, decidi lutar pela posse dele", diz. Quando soube que uma parte do comboio de ajuda humanitária entraria por sua cidade, passou a incentivar os conterrâneos a apoiar a operação.

Em 22 de fevereiro, véspera do dia previsto para a entrada dos caminhões, a morte de indígenas por guardas do regime levou a população de Santa Elena às ruas —algo raro, segundo Yeca, já que a cidade não costumava se mobilizar, até por estar mais protegida da crise do que outras no interior do país.

"Lá tem mineração, garimpo, turismo. O que estava mais barato os comerciantes vendiam para os brasileiros, quando faltava alguma coisa a gente comprava no Brasil. Então tinha uma certa apatia", afirma. "Mas foi uma comoção. O povo saiu às ruas, querendo participar daquele momento essencial na história. A gente tinha certeza de que daquela vez o governo ia cair."

O centro de Santa Elena, com sua típica praça de cidade do interior, transformou-se em campo de batalha. Yeca estava lá, lançando coquetéis molotov e transmitindo os acontecimentos ao vivo nas redes sociais.

"Vieram 3.000 efetivos armados, tanques de guerra atirando na gente, e nós só tínhamos paus e pedras para nos defender", afirma. "Nós sabíamos que não tínhamos como ganhar. Tenho uma filha, deveria me cuidar mais, mas também pensava: que país vou deixar para minha filha?"

Segundo ONGs de direitos humanos, os confrontos em Santa Elena deixaram oito mortos e mais de 40 feridos, alguns dos quais foram transferidos para atendimento médico no Brasil.

O fracasso da ação decepcionou Yeca. "Achávamos que o Guaidó ia ajudar, que algum país iria intervir. Até que a gente viu que ninguém ia nos salvar. Estávamos com o inimigo armado dentro de casa."

Escondida numa casa que não era sua, ela conta que se jogou em um rio quando homens fardados chegaram para buscá-la. Fugiu para Pacaraima, "tão traumatizada que se caísse um garfo já achava que era tiro". Cinco dias após os confrontos, a irmã de Yeca disse que membros do serviço de inteligência derrubaram a porta de casa, procurando-a por "incitação ao ódio e financiamento de terrorismo".

De Pacaraima, Yeca postou vídeos sobre a tensão na fronteira, até para mostrar que não estava mais na Venezuela e evitar perseguições à família. Foi aí que começou a receber perguntas sobre a situação da passagem entre os países e a publicar vídeos sobre o tema —a semente de seu canal no Instagram.

Alertada de que poderia correr perigo estando a poucos quilômetros do país de origem, decidiu se mudar para Boa Vista, onde vive atualmente e costuma ser reconhecida na rua pelos seguidores de seu canal.

Yeca cursou jornalismo na Venezuela, mas não concluiu o curso. Para obter credibilidade em um tema que é alvo constante de boatos e fake news, busca informações em canais oficiais, com defensores públicos e órgãos internacionais. "Estudo muito, sei da minha responsabilidade", diz. Na galeria de seu celular, mostra à reportagem como grava o mesmo vídeo 20 vezes ou mais, até ficar satisfeita com o resultado.

Para se sustentar, a influenciadora trabalha como agente de viagem freelancer, mas diz que tenta dosar as menções ao emprego em seus perfis. "Cuido muito do meu nome. O trabalho que eu faço nas redes sociais é mais humanitário, não quero que vire um canal de vendas de passagens."

Yeca tem sido convidada a dar palestras sobre comunicação comunitária e está criando uma ONG para desenvolver projetos que impulsionem os imigrantes. "Quero reforçar que meu povo trabalhe, que ninguém fique dependendo de assistência social; ensinar como se monta um negócio no Brasil, levar venezuelanos de sucesso para dar palestras. Quero migrantes empoderados, que não se achem coitadinhos."

Ela diz se sentir orgulhosa do que faz —e fica especialmente feliz quando funcionários de ONGs internacionais ou de agências da ONU dizem que acompanham suas postagens. "Sinto-me uma heroína", afirma. "Sei que mudo vidas, que meu trabalho tem impacto positivo sobre muitas pessoas. Por isso também sou cuidadosa na hora de dar as informações, porque sei que o que eu faço vai repercutir."