Existem muitas razões para desprezar figuras como Zé Trovão. O vício não é uma delas

O caminhoneiro, deputado eleito e apoiador dos atos pró-Bolsonaro Zé Trovão. Foto: Reprodução/Redes Sociais
O caminhoneiro, deputado eleito e apoiador dos atos pró-Bolsonaro Zé Trovão. Foto: Reprodução/Redes Sociais

O apoio à liberação das drogas é parte da tríade de acusações feitas por grupos de extrema direita contra o que chamam de esquerdistas. Junto com a legalização do aborto e a tal ideologia de gênero, a suposta condescendência com a produção, distribuição, venda e uso de entorpecentes é um dos pontos explorados à exaustão para desmoralizar debates sérios e demonizar grupos sociais e políticos sérios.

Há uma distância entre defender uma outra abordagem no enfrentamento da questão, que envolve políticas de redução de danos e reformulação da segurança pública, e um suposto liberou-geral em que cigarros de maconha seriam distribuídos ao lado do carrinho de pipoca das crianças.

Por isso, quando um líder dos grupos mais reacionários do país é flagrado fazendo, na vida privada, tudo o que mais condena em público, é tentador, quase inevitável, expor com toda raiva e toda a tinta do escracho o crime confesso da contradição.

A opinião pública aceita muita coisa, menos a hipocrisia.

Nesta semana, correu pelas redes sociais uma foto em que Zé Trovão, líder dos caminhoneiros e deputado federal eleito pelo PL de Santa Catarina, aparece com os olhos alucinados e a língua de fora diante de duas carreiras de cocaína e um pacote de maconha.

Tivesse sido divulgada antes, é possível que a imagem representasse o fim da linha para os planos políticos do ativista que virou ídolo da turma que morre de medo dos fantasmas representados pelo aborto, a “ideologia de gênero” e a liberação das drogas.

A máscara do falso moralista havia caído.

A euforia com a revelação testa até o limite a coerência de quem, em tese, se posiciona no campo oposto da turma que tem no cinismo, no moralismo, na violência e na desinformação as bases de uma plataforma política mambembe.

Marcos Antônio Pereira Gomes, o Zé Trovão, pode e deve responder, inclusive criminalmente, pela virulência com que conclama seus seguidores a atentarem contra o Estado democrático de Direito, como tem feito desde que virou um influencer da extrema direta.

O esculacho por conta da dependência química, que ele mesmo não nega e da qual diz estar superada, não entra nessa conta.

Por alguma razão ele foi alçado a líder dos caminhoneiros e se tornou um porta-voz de grupos radicalizados e capazes de botar fogo no país em defesa do ídolo, Jair Bolsonaro (PL).

Zé Trovão é investigado por articular atos contra as instituições em 7 de Setembro do ano passado e precisou fugir para o México depois de ter a prisão decretada.

De lá, seguiu publicando vídeos “incentivando atos violentos de protestos”, ofendendo ministros do Supremo Tribunal Federal e demonstrando “completo desprezo pelo Poder Judiciário”, conforme o ministro Alexandre de Moraes fundamentou na decisão que determinou a prisão domiciliar ao caminhoneiro. Desde então ele foi impedido de acessar suas redes.

Alvo de ataques de jogadores e ex-jogadores por conta de críticas diretas, sem amarras ou papas nas línguas, desde os tempos de comentarista da Rede Globo, Walter Casagrande Júnior, hoje colunista do UOL e da Folha de S.Paulo, quase sempre tem a legitimidade da fala interditada por conta de sua dependência química, que ele nunca escondeu e sempre tratou da forma mais transparente.

A luta de Casão contra a dependência é um exemplo e um ensinamento diário, principalmente para quem está na mesma luta e ainda passa longe da vitória.

Essa luta não é só contra o vício. É pelo direito de existir, ser ouvido e respeitado como cidadão, e não como um ex-apenado condenado por viver para sempre com as bolas de uma detenção moral.

Essa bola é oferecida por quem se acha moralmente superior por aliviar as aflições das barras existenciais que cada um sabe com pesa com drogas apenas legalizadas — bebida, remédio, etc.

Cinismo é confundir a luta ao vício com a deslegitimação da vítima do vício. Como se o direito de um dependente ou ex-dependente dizer o que pensa fosse suprimido porque o drama da vida privada o impedisse de posar como exemplo de virtude na vida pública. Uma coisa não tem a ver com outra.

Zé Trovão, um mau cidadão violento que usa sua exposição para pregar a violência, pode e deve ser investigado e punido pelas razões corretas. Sua dependência (a dependência de qualquer pessoa, aliás) não é uma delas.