‘Não podemos resumir nossa existência a uma opressão que não foi criada por nós’, diz Emicida

Por André Caramante, Antonio Junião e Sérgio Silva

Escrever um disco como quem manda uma carta de amor, recheada de temas como paisagens, sonhos, amizade, paternidade e fé. E fazer isso como uma crítica contundente ao estado de coisas. Neste momento em que lança o disco AmarElo e coleciona elogios e repercussão, o talento afiado de Emicida se volta ao afeto, a reivindicar o direito ao afeto. “A gente não pode resumir nossa existência a reagir a uma opressão que não foi criada por nós”, disse Emicida em conversa exclusiva com a Ponte.

AmarElo foi aclamado em show realizado em um dos redutos da cultura tradicional paulistana, o Teatro Municipal, na semana passada. O título do álbum é inspirado em poema de Paulo Leminski (“amar é um elo / entre o azul / e o amarelo”). São 11 faixas que reúnem, segundo Emicida, heranças, referências e peculiaridades da essência da música brasileira. E que não são novidade para este artista nascido na zona norte de São Paulo: estão presentes em sua música desde sua primeira e clássica mixtape “Para Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida Até Que eu Cheguei Longe”, de 2009. Para além de samplear “Sujeito de Sorte”, música que Belchior compôs em 1976 e, nas vozes de Pablo Vittar e Majur, voltou a ser mania nacional (“Tenho sangrado demais / tenho chorado pra cachorro / ano passado eu morri / mas esse ano eu não morro”), o disco conta com várias participações especiais. Tem o samba de Zeca Pagodinho, o piano de Marcos Valle, a voz potente de Fabiana Cozza.

Logo no começo da conversa com a Ponte, o palco do Municipal vira personagem. “Minha vó vai fazer 80 anos e nunca pisou aqui, nunca soube o que acontece aqui dentro. E pior que isso, nunca imaginou que o neto dela estaria nesse palco”, contou Emicida. Com a língua afiada e raciocínio sagaz presentes desde o início da carreira, Emicida inicia a entrevista tecendo sua crítica social expondo o racismo no Brasil como elemento estruturante da desigualdade que o país insiste em não encarar e resolver.

Paternidade preta é outro tema da conversa. Emicida fala de sua convivência com as filhas, que no disco aparece na faixa “Cananeia, Iguape e Ilha Comprida”, do poder dessa relação de curar traumas da infância e construir o caminho do rapper como artista e homem negro distante da estereotipada imagem de brutalidade. “Tenho direito à minha sensibilidade e vou reivindicar a minha sensibilidade, meu direito de chorar, meu direito de sentir que eu sou fraco.” Fé e humanidade se misturam, na fala de Emicida, em uma proposta de romper com o eurocentrismo cego e com as imposições do que é sagrado e profano. O rapper a cultura do samba. Usa o rap como fio condutor, fala de candomblé e do agogô como abertura de caminhos. Coloca nossas “religiões musicais” como a música sacra brasileira.

Para o músico, AmarElo é um disco sobre maturidade. E, para o pai e artista, “maturidade não te diminui, ela te enriquece”.