Expansão comercial provavelmente levou ao início da Era Viking, diz estudo

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SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - A chamada Era Viking, durante a qual piratas, mercadores e colonos de origem escandinava se espalharam por uma vasta área que ia do Canadá ao Uzbequistão, provavelmente começou graças ao crescimento de redes de comércio dentro da própria Escandinávia e com regiões vizinhas da Europa banhadas pelo rio Reno, como as atuais Alemanha e Holanda.

Os dados que apoiam a ideia foram obtidos por meio da datação minuciosa de artefatos achados num centro mercantil da Dinamarca medieval, a cidade de Ribe, na península da Jutlândia. Segundo os pesquisadores que estabeleceram uma cronologia detalhada do empório dinamarquês, Ribe demorou algumas décadas para começar a receber bens de áreas mais distantes, como o Oriente Médio.

"Creio que o comércio com a Europa Ocidental, bem como as trocas marítimas com lugares como a Noruega, foram um catalisador inicial para o desenvolvimento de redes comerciais de grande escala, facilitando o surgimento de toda a infraestrutura necessária -navios, portos, mercados", diz Bente Philippsen, pesquisadora da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e autora de um novo estudo sobre o tema.

"Essas redes, mais tarde, foram expandidas e intensificadas por meio de conexões com o Oriente Médio islâmico, passando pela Rússia, o que resultou nos padrões de comércio protoglobalizado que costumamos associar à atividade viking", explica Philippsen, que contou à Folha ter sido aluna de intercâmbio em São Paulo 20 anos atrás.

A especialista em datação por carbono-14 (principal método usado para estimar a idade de amostras arqueológicas com até 40 mil anos) assina um artigo sobre a cronologia de Ribe na edição mais recente da revista científica Nature, junto com outros três colegas.

O trabalho é uma peça importante para a tentativa de entender as causas por trás da Era Viking, que convencionalmente abrange o período entre os anos 793 e 1066 d.C.

Embora a face mais visível da Era Viking seja a dos ataques por mar realizados contra monastérios e cidades europeias, o fenômeno foi muito mais amplo.

Tudo indica que os mesmos sujeitos que se lançavam ao mar na esperança de saquear igrejas indefesas também podiam se comportar como mercadores astutos em outros contextos, forjando conexões de longa distância tanto pelo Atlântico europeu quanto pelos rios do interior da Europa Oriental, capazes de levá-los até a rica zona de influência do Islã.

De fato, a Escandinávia está entre os lugares do mundo que mais preservou moedas de prata do Califado Abássida, grande império muçulmano da época, em seu registro arqueológico. A dúvida era se a interação comercial aparentemente intensa com o Oriente Médio teria sido o gatilho que deflagrou o avanço viking, em busca do controle das rotas associadas à prosperidade islâmica, ou algo que se tornou importante mais tarde.

Para responder a essa pergunta, o único caminho seria datar com precisão as camadas arqueológicas de um centro mercantil escandinavo tal como Ribe. Philippsen e seus colegas conseguiram fazer isso com a ajuda dos chamados SPEs (sigla inglesa de "eventos de partículas solares"), momentos do passado no qual partículas muito energéticas emitidas pelo Sol afetam a composição da matéria orgânica na Terra.

Nessas situações, os átomos que uma árvore incorpora na formação da sua madeira, por exemplo, têm uma proporção bem superior à normal de carbono-14, uma forma instável do elemento químico carbono que vai desaparecendo a uma taxa conhecida.

Quando essa informação é unida à contagem dos anéis de crescimento do tronco das árvores, que são formados uma vez por ano, é possível estimar com exatidão anual a idade de um pedaço de madeira. Basta usar um anel de crescimento com a "assinatura" de carbono-14 da tempestade solar como um ponto fixo, com data mais precisa.

A quantidade de carbono-14 em outros artefatos com anéis de crescimento permite estimar a idade deles e montar o resto da cronologia de um local.

Com base nessa técnica, os cientistas dinamarqueses mostraram que, em Ribe, as primeiras décadas de atividade comercial, a partir do ano 700, são marcadas pela chegada de contas coloridas feitas com vidro de cálices quebrados ou peças de antigos mosaicos romanos, ambos artigos típicos da Europa Ocidental. Nessa época, o empório também está recebendo objetos de cerâmica produzidos na bacia do rio Reno.

A partir do ano 740, passam a circular por ali pedras de amolar e chifres de rena (usados para fazer pentes) de origem norueguesa. Um pouco antes, em 725, surgem contas vindas do sul do mar Báltico, que banha a Suécia e a Finlândia atuais, entre outros países. Por fim, aparecem contas vindas do Oriente Médio, em camadas atribuídas ao período entre os anos 785 e 810 -segundo os pesquisadores, tarde demais para que se atribua a essa fase do comércio o início da Era Viking.

Soren Sindbaek, coautor da pesquisa, diz que uma possibilidade para o futuro é analisar a cronologia de portos escandinavos que ficam mais a leste, como Birka, na Suécia, para verificar se o padrão detectado em Ribe se reflete por lá também. Isso ajudaria a fortalecer a ideia de uma origem mais local para a "globalização" da Era Viking.

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