Expansão da Pinacoteca cria corredor cultural no Centro de SP e pode contribuir para revitalização da área

No dia do seu aniversário, São Paulo ganhará de presente o maior museu em área expositiva do país e o segundo da América Latina, atrás apenas do Nacional de Antropologia, do México. Mas uma das ambições centrais da Pina Contemporânea, terceira unidade da Pinacoteca do Estado de São Paulo, a partir de 25 de janeiro aberta ao público, ultrapassa suas dimensões: a instituição mira na criação de um corredor cultural informal nos bairros da Luz e do Bom Retiro, no coração da cidade, e um salto de usuários dos cerca de 600 mil deste ano para 1 milhão de pessoas já em 2023.

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A ideia é que o roteiro e o aumento de visitantes contribuam para a revitalização da zona central da capital paulista, vitimada pela violência, o aumento de pessoas em situação de rua e a venda e consumo de drogas, especialmente o crack.

— A Pina Contemporânea permitirá uma nova ligação da Estação da Luz (trem e linhas 1 e 4 do metrô), por dentro do Parque da Luz, à Estação Tiradentes (Linha 1 do metrô) e ao Museu de Arte Sacra, com o usuário passando por nossos prédios — conta Jochen Volz, diretor da Pinacoteca.

A imagem de corredor cultural cunhada por Volz não é gratuita. Sonho antigo do museu inaugurado em 1905, a Pina Contemporânea teve projeto inspirado no Sesc Pompeia e seus aparelhos culturais, que desaguam em uma mesma rua interna. A Pinacoteca é vizinha do Parque da Luz e do Museu da Língua Portuguesa, criado na estação inaugurada em 1865. Mas uma esticada de poucos quarteirões acima inclui o centro cultural Casa do Povo (na Três Rios) e, na direção oposta, a Sala São Paulo (na Júlio Prestes), uma das mais importantes casas de concerto das Américas.

—Todas estas instituições, é claro, já são importantes por si só. Nos propomos a ajudar na articulação entre elas. Pensamos o novo prédio a partir da criação de um caminho, por isso o projeto se abre para o parque. — diz o diretor da Pinacoteca, que pondera: — Obviamente, temos a noção que a mera implantação de uma instituição não modificará sozinha o coração da cidade. A estratégia precisa ser maior, incluindo também o que está fora do nosso alcance, como a segurança pública.

O alemão radicado no Brasil, há cinco anos e meio à frente da Pinacoteca, após longa passagem como diretor artístico do Instituto Inhotim e curadorias de edições das bienais de Veneza e de São Paulo, conta que a instituição já iniciou conversas sobre gestão conjunta de parte do Parque da Luz e a segurança no entorno da Pina com a prefeitura da capital e o novo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos). E frisa que a reabertura do Museu da Língua Portuguesa, no fim de julho do ano passado, foi um passo importante para que “nos sentíssemos menos como ilhas”, aumentando o fluxo de público “apesar da Covid-19 e do agravamento da tragédia social na região”.

— Propositadamente, o novo prédio não tem uma entrada clássica, com escadaria, como a sede principal. A estrutura é aberta, necessidade enfatizada pela pandemia. Estamos, na prática, expandindo o Parque da Luz, e esperamos que os frequentadores do primeiro Jardim Botânico da cidade se apropriem do novo espaço, de uma forma ainda mais natural do que já fazem hoje com a Pinacoteca — diz.

Uma das apostas imediatas é que o público prestará mais atenção às 32 esculturas do acervo do museu instaladas no Parque da Luz há mais de 30 anos pelo ex-diretor da Pinacoteca Emanoel Araújo, que morreu em setembro. Elas serão parte inevitável do percurso de quem quiser passar de uma unidade a outra, com obras de, entre outros, Victor Brecheret, Amilcar de Castro, Tunga e José Resende.

Um investimento de R$ 85 milhões (R$ 55 milhões do estado e R$ 30 milhões doados pela família Gouveia Telles, da Ambev), a Pina Contemporânea tem projeto assinado pelos mineiros Arquitetos Associados, responsáveis pelo traço de galerias de Inhotim, e da nova sede do Museu do Pontal, inaugurada no ano passado no Rio.

O novo prédio mantém parte da estrutura da Escola Estadual Prudente de Morais, projeto de Francisco Ramos de Azevedo (1851-1928), arquiteto também responsável pela sede principal do museu, inspirada no neoclássico. Em 1998, a sede teve a reforma assinada por Paulo Mendes da Rocha (1928-2001) e ganhou seu celebrado desenho atual. O colégio foi transferido em 2015 para um prédio maior no Bom Retiro.

A Pina Contemporânea vai aumentar consideravelmente a área de exposição do acervo da instituição (a capacidade atual é de menos de 10%) e terá cafeteria, salas multiúso, com varanda e terraço, uma praça integrando seus dois blocos e um subsolo aberto para o Parque da Luz, onde ficará a Grande Galeria. Também será o novo endereço da Biblioteca Walter Wey, uma das mais importantes do gênero na América Latina, e do Centro de Documentação da Pinacoteca, hoje abrigados no Pina Luz.

E, se indica no sobrenome que irá apresentar mais atrações da arte que se faz agora — a abertura ficará por conta da sul-coreana Haegue Yang, celebrizada por instalações que desafiam os sentidos, e de uma coletiva com o acervo do museu — a nova Pina também contará com duas salas de oficinas educativas e socioculturais, decidida a tratar, e não só na teoria, dos problemas ao seu redor.

Oficinas para sem-teto

As oficinas que hoje acontecem no auditório fechado do prédio histórico contarão, espera o comando da casa, com presença ainda maior de moradores do entorno da Pinacoteca, inclusive os em situação de rua. No início do mês, o museu lançou “99%, a cachaça da amizade”, publicação que reúne xilogravuras produzidas por pessoas sem-teto que participaram das oficinas da Ação Extramuros na Casa de Oração do Povo da Rua, espaço mantido pela Arquidiocese de São Paulo. E o zine “Foco no olhar”, em parceria com a Associação Agentes da Cidadania — Coletivo Mulheres da Luz, com fotografias feitas por mulheres em situação de vulnerabilidade social que trabalham e vivem nos arredores do museu.

— São projetos e construções de longo prazo, que agora terão ainda mais visibilidade. A Pinacoteca quer ser, cada vez mais, um museu global de arte brasileira, e a Pina Contemporânea chega para refletir sobre o que significa ser um museu nos dias de hoje, além de nossas paredes. A porosidade com a cidade será nosso norte — diz Volz.