Expansão da soja 'rouba' área de cultivo de alimentos básicos, como arroz e feijão, diz estudo

Gabriela Medeiros*
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RIO - O avanço da plantação de soja no Brasil vem 'roubando' espaço para produção de alimentos básicos, como o arroz e o feijão. Ao lado do milho, a soja já representa 90% de toda a safra que é colhida no país, segundo estudo da Fase, ONG que atua com foco na justiça ambiental, soberania alimentar e direitos de povos tradicionais.

De acordo com o levantamento, a produção nacional de soja foi ampliada em dez vezes nos últimos 43 anos. Ela subiu de 12 milhões de toneladas para 124,8 milhões no último ano.

Isso se deve ao também aumento da área plantada em 5,3 vezes – que era de 7 milhões de hectares na safra de 1976/77 e pulou para 37 milhões de hectares na safra 2019/20.

— Há uma expansão ininterrupta da soja, que vem provocando mudanças estruturais nos territórios bastante expressivas. Tanto há um deslocamento de culturas alimentares, como também uma redução de áreas de cultivo — aponta um dos autores do dossiê, Silvio Porto.

Na contramão do crescimento da produção da commodity, o plantio do arroz caminha a passos lentos em algumas áreas do Brasil. Segundo a Fase, desde 2010, as lavouras do grão estão praticamente estagnadas, com médias anuais que rondam a casa das 11 milhões de toneladas nas safras da última década.

Queda na produção de arroz

À exceção do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o arroz chegou a ter sua área plantada reduzida nos principais estados produtores, como Mato Grosso, Goiás e Maranhão. Os três estados fazem parte da área de expansão do cultivo de soja, de acordo com o estudo.

O primeiro teve sua safra média anual do grão reduzida à metade entre 2000 e 2019 – saindo de mais de 1 milhão de toneladas para cerca de 520 mil. Os outros dois apresentam decréscimo desde 1980.

Maranhão, que chegou a produzir mais de 850 mil toneladas de arroz, não atingiu 155 mil no último ano. Goiás teve uma queda ainda mais brusca: de cerca de 1 milhão, fechou 2020 com apenas 112,1 mil toneladas.

As lavouras de feijão acompanham esse movimento de estagnação produtiva e redução da área plantada. Ainda de acordo com estudo divulgado, nos últimos dez anos a primeira safra do grão perdeu cerca de 35% da área de plantação, sobretudo para a soja.

— Não é só dizer que trocou feijão por soja. É sobre todo um sistema de produção complexo familiar e camponês que envolve uma cultura com muita variedade. O fato de transferir isso para um monocultivo, uma commodity, significa a destruição de um modo de produzir que, para recompor depois, é muito difícil — explica Porto, da Fase.

Avanço da soja na região de Matopiba

O avanço da soja teve como direção, em especial, a fronteira agrícola da transição Cerrado-Amazônia e a região chamada Matopiba (representada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).

— É onde tem uma boa disponibilidade de conversão de áreas, além de grandes propriedades em tamanho de hectares. A soja está tão valorizada que, mesmo tendo um lucro menor no primeiro ano, já viabiliza pagar os custos e ter algum tipo de rentabilidade — diz o pesquisador da Fase.

Para onde vai essa soja toda? No mercado interno, o grão é utilizado principalmente como ração animal, para alimentar a criação de gado, - em farelo. Uma pequena parcela ainda é processada como óleo.

Mas o principal destino nessa lógica é a exportação. Cerca de 75% da produção nacional foram direcionadas para fora, sendo a China a maior compradora, adquirindo quase 49% do total em 2019.

— O Brasil sempre se caracterizou ao longo de sua história por ser um país produtor e exportador de produtos primários. A soja é importante nas cadeias produtivas de alimentos. Sem ela não teria disponibilidade de carne suína que se tem no mundo, por exemplo — explica o coordenador do curso de Ciências Econômicas da Esalq/USP, Carlos Vian.

Por essas características, o Brasil conseguiu sair de uma pequena participação nas exportações globais de soja, para representar mais de 42% em 2018, conforme expõe o dossiê.

— Fruto de muita pesquisa, a produção de soja foi adaptada para o Centro-Oeste e hoje temos relevância no mercado internacional. Além disso, uma boa parte da economia dessa região é pautada na produção de grãos como esse — completa Vian.

Plantação concentrada pressiona preços

Com a expansão da soja no país, a produção de outros grãos fica mais concentrada. É o caso do arroz no Rio Grande do Sul. O estado concentra hoje mais de 70% do cultivo no país (porcentagem que na década de 80 não chegava a 35%).

Segundo a Fase, a concentração do cultivo e a mudança de territórios têm implicações para o consumidor final.

— Qualquer problema de clima, de oferta ou logística, pode acabar contribuindo para uma elevação nos preços. O que, por consequência, diminui a capacidade de consumo das famílias brasileiras — analisa Silvio Porto.

*Estagiária sob supervisão de Danielle Nogueira