Exploração de cobre em Israel traz à tona lenda das minas do rei Salomão

DANIELA KRESCH

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nas dunas do deserto do Negev, ao sul de Israel, passado e presente se misturam na busca pelo cobre, metal trabalhado pelo homem há pelo menos 8.000 anos.

No Vale de Timna, próximo ao Mar Vermelho, as mitológicas minas do rei Salomão dão lugar a modernos túneis subterrâneos para exploração do minério usado, milênios atrás, para confecção de armas e utensílios e que, hoje, é parte fundamental de objetos do século 21, como TVs, rádios e computadores.

Timna é uma das áreas de mineração mais antigas do mundo. É lá que alguns dizem ser o local das misteriosas minas salomônicas, uma lenda que inspirou obras como o best-seller "As minas do rei Salomão", do escritor inglês H. Rider Haggard (1885), além de muitas teorias e pesquisas acadêmicas.

Segundo a Bíblia, Salomão vivia cercado de ouro. Em sua casa, até taças de vinho e vasos eram de ouro, sem contar o trono com seis degraus ladeados de estátuas de leões dourados. Anualmente, o monarca bíblico recebia "666 talentos" do metal, algo como 17 toneladas.

Toda a riqueza vinha, segundo o livro sagrado, de minas em Ofir, local misterioso até hoje nunca identificado. Ficaria na África, como acreditava Haggard, na Ásia ou até mesmo na América do Sul, dependendo das teorias inspiradas pelo relato milenar.

Em 1934, o arqueólogo americano Nelson Glueck descobriu vestígios de minas em Timna, localizada numa parte do Negev chamada Arava. Mas, diante dos entusiastas que comemoravam a revelação da fonte das riquezas de Salomão, ele afirmou que os egípcios é que comandavam a exploração de minérios, no século 13 a.C -- muito antes do nascimento do rei.

Foi só recentemente, em 2013, que pesquisadores da Universidade de Tel Aviv descobriram, em outras escavações em Timna, materiais orgânicos, como tecidos, cordas e sementes, datados do século 10 a.C, quando Salomão teria reinado.

Segundo os arqueólogos israelenses, a extração das jazidas era disputada entre os israelitas e os edomitas, outro povo semita citado na Bíblia. Mas, ao invés de ouro e diamantes, o que saía das minas de Timna era cobre. Pode parecer menos nobre, mas o valor do minério era tamanho --algo como o petróleo moderno-- que justificaria guerras e lendas sobre riquezas.

"Embora não exista uma descrição explícita das minas do rei Salomão no Antigo Testamento, há referências a conflitos entre Israel e os edomitas no Vale Arava", diz o arqueólogo Erez Ben-Yosef, um dos líderes da equipe de escavação do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv. "O cobre era produto raro e desafiador para produzir. Era mercadoria cobiçada".

Depois da época de Salomão, as minas de Timna foram exploradas em poucos momentos. Agora, ganham nova vida. Uma empresa mexicana, a Arava Mines, está terminando de construir a infraestrutura para uma fábrica de processamento de cobre cuja construção está marcada para começar em junho.

"A história das minas do rei Salomão é conhecida, mas poucos relacionam com o lugar onde operamos, neste momento", diz Carla Garcia Granados, CEO da Arava Mines, que venceu uma concorrência internacional para explorar os jazigos de Timna.

Carla explica que os métodos de mineração não mudaram muito. "Nas minas antigas dos sítios arqueológicos, há uma estrutura de engenharia muito parecida com a nossa. Eles tinham uma visão que apenas modernizamos com tecnologia mais avançada".

A Arava Mines iniciou os trabalhos em 2005, mas só agora, após uma décadas de pesquisas e quilômetros de túneis subterrâneos, é que a fábrica sairá do papel, com o objetivo de processar 12 mil toneladas de cobre diariamente. O investimento total, até agora, foi de US$ 250 milhões.